domingo, 10 de janeiro de 2010

Senhor Woody Allen

Eu disse que ia fazer uma análise cinematográfica não doentia! E aqui está ela. :)
Decidi escrever sobre o artista das duplicidades. A negra decadência tornada em sedutora comédia. A vida urbana em todo o seu esplendor e declínio como uma coisa só. A liberdade do desejo versus a limitação da moral. O elitismo sofisticado ou o diletantismo absurdo. Pessoas que se zangam a sério porque não se entendem com o enquadramento dos filmes de Bergman ou da obra de Beckett. Burgueses intelectuais, abarcando os dois tipos de elitismo sempre com uma perspectiva irónica bem patente - como em Small Time Crooks (2000).



Porque afinal o amor é como um terreno movediço e a infidelidade como uma sincera manifestação do ser e esses são os maiores dramas do mundo… Ou não? Que ele se tenha casado com a própria filha adoptiva, bom, afinal Nabokov não escreveu “Lolita” baseado no nada e cada um que corporize as suas repressões psicológicas como quiser (ou como a lei permitir?). Bom, não interessa! Eu pensei em fazer um top10 Woody Allen porque um top é uma forma de organizar ideias mas depois pensei que também era uma forma de reduzir ideias e torná-las sensacionalistas… portanto, a velha e boa redacção será a solução.




Penso que a filmografia do realizador tem muitas oscilações, poderosa comédia inteligente, genialidades no seu sentido pleno e até muitas banalidades e é normal oscilar-se quando já se produziu quase meia centena de filmes. O que é também curioso é que apesar da abundância de produção, as temáticas são sempre recorrentes de uma forma particularmente homogénea, definindo muito bem o campo das contribuições que ele tem para dar. As relações humanas e sentimentais é background infalível, o que muda ligeiramente são as abordagens. O formato pode, contudo, mudar pontualmente, estou a recordar-me, por exemplo, do hilariante e genial Zelig (1983) no formato de documentário fictício onde a ênfase na sátira histórica e política é mais apurada. Um género mais ou menos semelhante foi seguido em Sweet and Lowdown (1999) o filme independente que conta a história de um guitarrista chamado Emmet Ray interpretado por Sean Penn.Ou o músical Everyone says I love you (1996).
Ao ver a produção mais antiga e que todos os especialistas consideram mais “característica” do realizador apercebi-me que muito para além do aspecto cómico/absurdo das conexões humanas, uma coisa que realmente fica bem nos filmes do Woody Allen é explorado mais tardiamente, refiro-me ao factor grave e especificamente trágico. É por isso que não consigo desprender-me do meu amor infinito pelo Match Point (2005) e pelo Cassandra’s Dream (2007). Não são filmes “típicos” apenas porque não se resumem ao Woody Allen actor a interagir e a narrar, porque são filmes em que ele nem sequer entra e onde as personagens são mais jovens. Para mim, são o meu Top2.





São filmes onde a catarse é brutal. Eu acho que sempre que lemos análises à obra de Woody Allen os filmes mencionados são sempre os dos anos 70 e 80 mas isso é porque eu acho que essas análises são escritas por pessoas mais velhas do que eu, que conheceram Woody Allen nessa altura e isso deixou um impacto tal a ponto de não se conseguirem desprender dessas impressões mais iniciais para apreciar a obra mais recente. Mas para mim as suas obras-primas são filmes recentes.

Para além dos dois que já mencionei, o Vicky Cristina Barcelona (2008) e Anything Else (2003) são fabulosas intercepções de desejos, repressões e ímpetos num lirismo realista e natural. Isto não significa que eu não reconheço a genialidade dos clássicos.



Que melhor introdução ao espírito citadino algum realizador conseguirá de maneira tão graciosa transmitir como na abertura de Manhattan (1979) e quem não gostaria que as coisas fossem como no Annie Hall (1977) com o Marshall McLhuan a dar uma lição àquele pedante chato? (ou será que meter o Mashall McLhuan ao barulho é que é pedante?) Apesar de tudo há filmes recentes que também não trouxeram nada de novo, como o Scoop ou o mais recente filme Whatever Works (2009). São aqueles filmes apenas ligeiramente engraçados. E enfim, muito mais há a dizer sobre a sua obra, é uma análise interessante de se fazer  de forma até académica. Concluo deixando as minhas favorite quotes do realizador/escritor/actor/saxofonista:



  • Eternal nothingness is fine if you happen to be dressed for it.

  • I don't want to achieve immortality through my work; I want to achieve immortality through not dying.

  • In Beverly Hills...they don't throw their garbage away. They make it into television shows.

  • I can't listen to that much Wagner. I start getting the urge to conquer Poland.

  • Tradition is the illusion of permanance.

  • I took a speed reading course and read 'War and Peace' in twenty minutes. It involves Russia.

  • If only God would give me some clear sign! Like making a large deposit in my name in a Swiss bank.

  • It seemed the world was divided into good and bad people. The good ones slept better... while the bad ones seemed to enjoy the waking hours much more.

1 comentário:

Spark disse...

É um grande génio. ;)