terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Portal Martim Moniz

O Portal Martim Moniz é uma plataforma de referência para a comunidade chinesa, constituindo um suporte digital bilingue e multidisciplinar, promotor do intercâmbio cultural, informativo e comercial entre Portugal e China.
Somos uma dinâmica equipa multidisciplinar, assentando a nossa posição no respeito pelas diferenças culturais dentro e fora do grupo, estando sediados em Portugal.
O Centro de Língua Chinesa do Portal Martim Moniz, tal como o próprio nome indica, é um centro de línguas direcionado para o ensino do mandarim, mas oferece também cursos de português a alunos chineses. Possuímos ainda nas instalações da escola um centro de tradução. Somos certificados pela DGERT.
A nossa oferta formativa compreende cursos de mandarim em todos os níveis de aquisição linguística (A1 a C1). Para além dos cursos geraisde língua cultura de mandarim, a nossa oferta formativa inclui cursos temáticos como Chinês Empresarial e Chinês para Hotelaria e Turismo. Em anexo envio um documento com a descrição dos nossos cursos.
Temos um curso de mandarim que inclui uma viagem à China.

Para mais informações:




sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Uma Geografia Secreta


Por Nuno Júdice originalmente publicado em Revista Caliban
A partir do título do novo livro de Sara F. Costa, «O movimento impróprio do mundo», entramos num espaço que gira em torno de dois conceitos: movimentoassociado a deslocação, a viagem, e mundo relativo ao espaço em que esse movimento se dá. No entanto, se por mundo entendermos a Terra, o planeta, o movimento que logo lhe associamos é o de rotação, com a sua dupla regularidade ligada ao dia, que é a rotação do planeta sobre si, e o ano, que é a rotação da Terra à volta do Sol. Estaríamos assim perante um tópico da poesia que fala dessa dualidade nocturna e diurna, e da mudança das estações ao longo do ano. No entanto, o que poderia parecer uma associação simples e confortável para o leitor, que remeteria para o mundo clássico esta poesia, é contraditado, ou melhor, perturbado pelo adjectivo impróprio. Sara F. Costa vai, assim, rejeitar esse espaço da tradição que, pela antítese diurno-nocturno, remete para o Romantismo, e pela sazonalidade que deu origem ao mito do eterno retorno, para o Classicismo, e avança por um outro terreno em que o movimento, ou melhor, a viagem, não coincide com as referências habituais da linguagem poética.
Há muitas viagens neste livro. Podíamos falar de viagens como a que se faz ao passar/esta ponte triste/que vai dar a Setúbal (p. 7), a que leva até às placas que indicam que Figueira da Foz é mais ou menos na/mesma direcção (p. 11), a que segue o desejo taxativo do «Vou-me embora» que começa na Universidade do Minho e termina em Beijing (p. 13), a da «Modern girl» que apesar de nunca ter ido a Nova Iorque se mudou para Coimbra (p. 78), a combinação com o estudante de relações internacionais para um encontro algures entre/o Império Otomano e o Bizantino,/por volta de Agosto (p. 86), ou o poema «Shanghai» (p. 65), entre outras, ou seja, referências que se podem considerar concretas, a que se podem somar outras mais literárias quando, em Peniche, diz que podia estar em Paris (p. 35), qunado pretende levar o Tejo para a China(p. 85), ou ainda quando encontra o Husserl a jantar com o Alphonse de Lamartine (p. 73).
Este é o mundo que se encontra no título e que tanto pode fazer parte de uma realidade concreta da globalização contemporânea como, sobretudo, surgir ao longo do livro para apelar a uma pulsão de liberdade que, hoje, perdeu o sentido que teve no tempo dessa rua onde Ramos Rosa adiou o amor, e se tornou um instante de risco em que não se ama a liberdade,/bebe-se liberdade/misturada com espumante e terror («Liberdade», p. 16). É uma liberdade que absorve tanto a novilíngua dos feedstartupcliffhanger,hardclubnetworking, o uso do inglês em títulos ou citações, a presença de nomes que funcionam como fundo entre o cultural e o que poderíamos chamar intertextual, de Herberto Helder a Dante ou Rimbaud, de Nietzsche a Sartre, Kafka ou Patti Smith; e uma errância por lugares que, no entanto, são o lugar único em que a poeta se define como uma casa corpo, não passo de.
Também o amor comunga dessa liberdade em forma de errância, como se o corpo fosse apenas um lugar de passagem. É quando diz que à noite, quando o homem, regressa/ não é sói a ele que me dou mas aos quatro ou cinco a quem já/me dei antes/porque no meu útero rebentam todos os mares (p. 28) que a entidade mulher se assume como esse mundo líquido em que o canto das ondas feridas/ atravessa a existência (p. 29) até esse momento do poema «Quando eu fui morrer para o mar» (p. 72) em que a morte, ligada à água bachelardiana, se associa ao renascimento ligado ao útero: ressuscitei na mesma madrugada em que fui morrer para o mar (p. 73). Uma poética iniciática, mas uma iniciação que se verifica no espaço fechado de «O sepulcro-espelho» (p. 47) em que o Eu se contempla num processo que é descrito como o movimento impróprio do mundo, contrário à luz e à expansão, e entregue à harmonia demoníaca do teu desejo no processo de morte ritual em que o olhar narcísico e auto-destrutivo de onde nasce o prazer fundamental para esse renascimento, surgido do oximoro dessa harmonia demoníaca que se conclui no momento em que a entrega nocturna se materializa: deixa que o sepulcro te masturbe.
É portanto uma viagem que tem como território esse mundo mas em que não há um objectivo final, ligado a uma instalação definitiva, porque a vida é o nosso destino e aparentemente já chegamos/sem nunca ter partido (p. 9). Se o poema se chama «Na rua em Daugavpils», portanto longe dessa origem portuguesa entre Lisboa e o norte, ao dizer que chegou sem nunca ter partido o que se conclui é que a viagem poética não implica uma mudança de território porque o chão em que assenta, e não se move, será o chão da linguagem, da língua, em que tudo é reconhecível e familiar, mesmo quando fisicamente se está longe. E talvez se possa aqui definir esse «movimento impróprio do mundo» como aquele que tenta afastar a poeta do seu chão, que será essa língua em que escreve, que faz parte de uma «Geografia secreta» em que a poeta usa os verbos que se apaixonam pela noite e os versos são lábios em ruína/parados na geografia secreta da pele.
Viagem entre Eros e Tanatos, o livro guia-nos por um mundo de imagens no limite da eclosão surreal, mas ao mesmo tempo nunca perdendo de vista a realidade, numa escrita que vai de encontro à pele críptica do papel, sem nunca deixar que a leitura se perca em labirintos sem sentido nem centro.
Nuno Júdice

quarta-feira, 16 de março de 2016

Apresentação "O movimento impróprio do mundo" de Sara F. Costa em Lisboa

Apresentação "O movimento impróprio do mundo" de Sara F. Costa em Lisboa

Apresentação por Nuno Júdice

21 de abril,19h
Local: Carpe Diem 
Rua de O Século, 79, Bairro Alto
Lisboa

sexta-feira, 11 de março de 2016

Da série Apontamentos de Guerra | O Impacto da Guerra fria no Nordeste Asiático


A visão americana da ordem internacional não se confinava à balança de poderes, colocava ênfase na estabilidade interna na forma de instituições democráticas dentro dos estados. O ponto fulcral da estratégia pós-guerra de Roosevelt na Ásia-Pacífico foi antever uma China democrática e unida que iria surgir com toda a capacidade de exercer influência decisiva enquanto grande potência ao estilo do pós-guerra fria, refletida no discurso “Four Freedoms” em janeiro de 1941 e na Carta do Atlântico anunciada por Churchill em agosto desse ano.

A Carta explicitava princípios como a negação da expansão territorial, a garantia do direito de autodeterminação para todas as nações, a criação de um sistema económico liberal aberta e internacional virada para a cooperação e para a preservação da paz e da segurança.
Embora estes princípios tenham sido incorporados com o acordo soviético na Carta das Nações Unidas na reunião em San Francisco em 1945, e apesar da presenta da União Soviética nas reuniões de Bretton Woods onde se configurava um mundo baseado no livre comércio, ficou evidente que o cumprimento desses acordos por parte da URSS não era garantido. Em 1946, a desilusão americana relativamente ao comportamento soviético na Polónia começava a afetar as atitudes americanas para com o leste.

A outra deceção americana foi com o fracasso da China a não conseguir cumprir as suas expectativas de guerra aliada ao fracasso do Plano Marshall de 1945-1946 que visava evitar uma guerra civil não proporcionou o melhor ambiente para cortar as hostilidades rivais entre nacionalistas e comunistas no quadro da Guerra Fria. Como a origem da Guerra Fria foi na Europa, foi para aí que se viraram as atenções das forças bipolares.

A Doutrina de Truman de março de 1947 que elevou as obrigações específicas levadas a cabo na Grécia e na Turquia para um compromisso universal de “apoio aos povos livres que resistem às tentativas de subjugação por minorias armadas ou pressões externas”, foi erguida algum tempo depois dos americanos terem intercedido nos dois países. Como muitos têm argumentado, o acentuado tom moralista e o simultâneo âmbito universal da Doutrina era dirigido tanto para mobilizar a opinião pública americana como para articular a política externa.
Por esta altura uma boa parte dos problemas americanos provieram da ausência de meios para levar a cabo os crescentes compromissos internacionais.

A esperança de cooperação com a União Soviética estava gradualmente a ser substituída por confronto e a capacidade americana para dar resposta às necessidades da Europa Ocidental encontrava-se em declínio. A Doutrina Truman tinha sido projetada para colher o apoio animado da opinião pública americana e era um fator essencial para a implementação do Plano Marshall e para a ajuda a Chiang Kai-Shek. Todavia, a sucessão de acontecimentos pouco dignos na China levou a uma retração dos Estados Unidos perante a hipótese de levantar ou não as suas forças a sul do Paralelo 38. O Japão era entretanto considerado não apenas um país onde se poderia implementar o liberalismo económico como forma de reconstrução estatal mas também como um potencial aliado enquanto fonte de estabilidade do Nordeste Asiático.

O rescaldo da Guerra do Pacífico foi moldado pelos entendimentos alcançados na Conferência de Yalta que em retorno refletia a realidade da hegemonia da marinha americana no Pacífico e o domínio soviético terrestre no nordeste asiático. O resultado foi a divisão em duas esferas de interesse. Os EUA exerciam predominância no Oceano Pacífico, incluindo as Filipinas, Okinawa e Japão. A União Soviética reconquistou Sacalina e as Ilhas Curilas, assim como obteve novamente os direitos ferroviários e portuários da Manchúria, obtendo o reconhecimento da independência do seu protégé, a Mongólia Exterior. Encabeçados pelos britânicos, os governantes coloniais procuraram restaurar as suas posições no Sudeste Asiático. Era esperado que a China emergisse como poder soberano e se juntasse às três grandes potências de forma a estabelecer uma tutela sobre a Coreia. Contudo, em vez de um acordo precipitado sobre a divisão de responsabilidades por terem aceitado a rendição do Japão, americanos e soviéticos, para grande surpresa, concordaram em parar no Paralelo 38. [1]



[1] Ver the account by Bruce Cummings, The Origins of the Korean War, 2 vols (Princeton: Princeton University press, 1981 and 1990); and by Max Hastings, The Korean War (London: Michael Joseph, 1987).

quinta-feira, 10 de março de 2016

A importância da Guerra Fria na afirmação da Ásia-Pacífico


Foi o começo da Guerra Fria em finais de 1940 e inícios de 1950 que lançou a Ásia-Pacífico para o plano internacional, ultrapassando as dimensões locais e regionais tanto em termos políticos como em termos de estratégia militar. Com mais precisão, pode referir-se a Guerra da Coreia que começa em junho de 1950 como o marco da entrada da Ásia-Pacífico na escalada da Guerra Fria começada na Europa.

Contudo, ao contrário do que acontecia na Europa, onde a Guerra Fria dividia claramente dois protagonistas com campos ideológicos económicos e sistemas políticos definidos e distintos, o mesmo não ocorria na Ásia. As divisões eram menos evidente e a forma como o fim da Segunda Guerra Mundial e as suas consequências impactaram a Europa e a Ásia foi fundamental neste panorama. A guerra europeia foi uma disputa entre terrenos vastos e exércitos terrestres que acabaram numa divisão entre os vencedores ocidentais e os vencedores soviéticos.

A guerra na Ásia-Pacífico foi vencida essencialmente pelas forças navais e aéreas americanas, culminando em dois bombardeamentos atómicos. Não se pense, contudo, que a disputa pelo poder no continente asiático não se mantinha ativa, sobretudo a luta pela garantia da independência alcançada e contra o regresso dos poderes coloniais.

Embora a Guerra do Pacífico tenha fornecido uma estratégia racional para abordar a região como um todo, os aliados ocidentais vieram tratar o nordeste e o sudeste asiático de forma diferenciada. Enquanto os Estados Unidos concentraram os seus esforços na agressão ao Japão, os britânicos convergiam os seus interesses para o sudeste, Birmânia, Tailândia, Malaia (Federação), Singapura e Sumatra. Em julho de 1945, as Índias Orientais Holandesas, à exceção de Timor, assim como a Indochina a sul do paralelo 16 foram transferidas para o Comando do Sudeste Asiático sob a alçada do Almirante Mountbatten. A Indochina a norte do paralelo 16 foi atribuída à China sob o comando de Chiang Kai-shek.

Como ficou evidente depois do envolvimento dos EUA nas disputas da Indochina no final da década de 40, foi o advento da Guerra Fria que começou por conectar as duas sub-regiões tanto a nível local como global. Foi apenas durante essa fase que os resultados dos conflitos locais e lutas pela independência começaram a ter implicações na distribuição do poder e influência global. Por um lado, providenciando uma base para as elites locais procurarem apoio externo e, por outro, para os poderes estrangeiros fornecerem esse apoio em prol das suas próprias vantagens competitivas.  

terça-feira, 8 de março de 2016

"O Movimento Impróprio do Mundo" lançamento do livro de Sara F. Costa


Sara F. Costa ganhou pela terceira vez o Prémio Literário João da Silva Correia mas há muito mais nela do que poesia. A jovem de 28 anos, licenciada em Línguas e Culturas Orientais, é intérprete e consultora de investimento chinês em Portugal. Vive e trabalha em Lisboa, onde também se dedica ao estudo das Relações Internacionais, área onde se encontra a tirar doutoramento e onde analisa o diálogo intercultural, questões identitárias, análise histórica, diplomática e política externa. Ao labor, fala da sua escrita, dos interesses académicos e das saudades de S. João da Madeira


LABOR: Como descreveria “O Movimento Impróprio do Mundo” em relação às duas obras anteriormente galardoadas: “O Sono Extenso” e “Uma Devastação Inteligente”?

Sara F. Costa: Cada um dos meus livros é o reflexo de um percurso. Por um lado, o percurso existencial. Por outro, há uma exploração da plasticidade da palavra, um permanente exercício de alteridade, uma evocação dos outros que me habitam. Como diria Rimbaud, “je suis un autre”. É nesta encarnação permanente do alheio que procuro traçar um percurso que se tem vindo a desenvolver em termos de maturação pessoal e literária. Recordo-me que, tanto no meu primeiro livro “A melancolia das mãos” que editei com 15 anos, como no segundo “Uma devastação inteligente” editado aos 19, era uma adolescente mais ou menos assustada com isto tudo que é viver e deixar de viver, são livros com tonalidades mais melancólicas e ansiedades pulsantes. Não é que não exista melancolia em “O Sono Extenso” ou “O Movimento Impróprio do Mundo” mas admito que passei a incorporar uma dimensão mais social, ainda que mantendo sempre a dimensão psicológica e sobretudo emocional. É difícil a autora analisar a sua própria obra, mas reconheço o meu fascínio pela vertente plástica e visual da poesia, a criação de imagens sensoriais, a captação do instante de inspiração simbolista e surrealista, o recurso à sinestesia e abstração em detrimento da narrativa ou o esboçar de narrativas não figurativas.


L:Que comentário lhe merece este triplo reconhecimento pelo Prémio Literário João da Silva Correia?
SFC: Eu escrevo de forma espontânea e sem um deadline ou um compromisso de publicação. O máximo que faço é enviar trabalhos para Prémios Literários. Este triplo reconhecimento vem confirmar algo de que sempre estive certa, a aposta que a Câmara Municipal de S. João da Madeira faz no apoio às artes e à cultura. Tenho que agradecer aos júris do prémio, todos personalidades de grande idoneidade intelectual e que muito me honram com a sua decisão. É também uma honra ter o meu nome associado desta forma ao grande João da Silva Correia, cuja obra-prima “Unhas Negras” faz sem dúvida parte dos meus livros favoritos. Espero que a escrita deste autor continue a ter divulgação na contemporaneidade e se eu fizer de alguma forma parte dessa divulgação, sinto que é algo de muito nobre.


L: Além destas três obras, que outra produção sua destacaria? O que a inspira, o que a aflige, sobre o quê gosta de escrever?
SFC: Divido-me entre a escrita criativa e a escrita académica ou científica. O que eu envio para ser analisado, por exemplo, em prémios literários é aquilo que para mim atinge um certo valor artístico. Em termos de produção artística, não destacaria mais nada para além daquilo que tenho publicado. Tenho escrito vários artigos científicos relacionados com a área de investigação na qual me encontro a tirar doutoramento, que é a área das Relações Internacionais, onde gosto de escrever sobre o diálogo intercultural, questões identitárias, análise histórica, diplomática, análise de política externa. A minha especialização geográfica é a China. O comportamento humano inspira-me bastante. Tanto na sua dimensão micro como macro, ou seja, tanto a nível psicológico como a nível social. Digamos que se eu fosse fotógrafa ou pintora, tenderia a fazer retratos. Interessa-me a ética da mesma forma que me interessa a cidadania e consequentemente a política. Participo ativamente na sociedade civil e muitas das minhas inquietações advêm de análises e reflexões de cariz social, os modelos económicos e ecológicos da nossa contemporaneidade, a violência e a conflitualidade, a reflexão sobre os modelos vigentes e os modelos que seriam desejáveis, o que os distancia e o que pode ser feito para lá chegar.


L: S. João da Madeira, cidade essencialmente industrial, tentou-se afirmar na poesia com a organização da campanha Poesia à Mesa. Tem acompanhado o evento?
SFC: Tenho acompanhado o evento na medida do possível. Quando era adolescente era uma semana de grande entusiasmo. Quando fui estudar para Braga e depois trabalhei em diversos pontos do país, deixei de ter tanta facilidade em participar no evento, com muita pena minha. O facto de S. João da Madeira ser uma cidade industrial só pode fomentar a criatividade, como fomentou ao próprio João da Silva Correia. Como sou uma escritora que se interessa muito pelas dimensões humanas e sociais, acho que é perfeitamente normal que muitos artistas se tenham inspirado na industrialização para a sua arte.


L: Sabemos que se licenciou em Línguas e Culturas Orientais e que passou algum tempo na China. Fale-nos dessa experiência, do que faz atualmente e se esse conhecimento se reflete de alguma forma na sua produção artística.
SFC: Parte do meu mestrado foi passado na cidade de Tianjin na China, onde aprofundei conhecimentos de mandarim. Já lecionei mandarim e português como língua estrangeira. Atualmente sou consultora de investimento chinês em Portugal. Também sou intérprete. Naturalmente que esta vontade de perspetivar o mundo em diferentes posicionamentos se relaciona com o meu fascínio pela Ásia da mesma forma que se relaciona com o meu fascínio pela arte, penso que tudo faz parte de uma experiência integrada.


L: Deve saber também que nas escolas primárias de S. João da Madeira ensina-se atualmente o Mandarim. Como avalia esta opção?
SFC: Sei sim. Acho que é algo louvável, de grande visão. O multilinguismo é de extrema importância e o mandarim é a língua mais falada no mundo e a República Popular da China encontra-se, nas várias dimensões do poder, a desafiar a ordem do sistema internacional pelo que há imensos motivos para se estudar esta língua neste momento.


L: Vem a S. João da Madeira com frequência?
SFC: Venho com uma periocidade mais ou menos mensal. Visito a minha família em Cucujães e os meus amigos e outros familiares espalhados por S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Santa Maria da Feira. Tenho sempre saudades de S. João da Madeira porque me lembra os tempos da adolescência, das longas horas passadas em cafés e na biblioteca a ler e a escrever e nos bares a divertir-me com os meus amigos.



Vencedora de três prémios


A escritora de Cucujães Sara F. Costa voltou a vencer o Prémio Literário João da Silva Correia. É a terceira vez que é distinguida, desta vez com a obra “O Movimento Impróprio do Mundo”.
O Prémio Literário João da Silva Correia, cuja edição de 2015 foi dedicada à Poesia, é atribuído pela Câmara Municipal de S. João da Madeira e traduz-se num apoio monetário à publicação do título escolhido pelo júri, até ao montante máximo de 2.000 euros.
Em “O Movimento Impróprio do Mundo”, segundo o júri do concurso, a autora “apresenta uma escrita fluida e ampletiva, tonalizada com algum humor, aparentemente simples, mas trabalhada e consistente. Abordando temáticas atuais e referências a símbolos identitários nacionais, o livro premiado contém um conjunto de poemas que desenvolvem uma reflexão poética intensa e envolvente em torno do quotidiano do próprio poeta, transportando o leitor para universos marcadamente pessoalizados”.
Sara F. Costa, escritora e poetisa, venceu este concurso literário em 2007 com a obra “Uma Devastação Inteligente” e em 2011 com “O Sono Extenso”.
O júri é atualmente constituído pela representante do Município de S. João da Madeira, Suzana Menezes, pelo representante da Âncora Editora, António Baptista Lopes, e pelo poeta José Fanha.
Licenciada em Línguas e Culturas Orientais pela Universidade do Minho, Sara F. Costa esteve dois anos em Tianjin, na China, onde expandiu os seus conhecimentos de Mandarim. Fez um mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês: tradução, formação e cultura empresarial e está atualmente a fazer um doutoramento em Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa.
Foi leitora nas universidades de Braga e Tianjin, professora de Português como Língua Estrangeira e professora assistente convidada da licenciatura em Tradução e Interpretação (Português/Chinês – Chinês/Português) no Instituto Politécnico de Leiria. Foi ainda Relações Públicas e é atualmente tradutora/intérprete e consultora de investimento chinês em Portugal.
Tem várias publicações académicas, onde refuta a tese da paz pelo comércio partindo do exemplo da Guerra do Ópio, analisa o intervencionismo da ONU e a importância da tradução nas redes de informação contemporâneas.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Joseph E. Stiglitz na Fundação Calouste Gulbenkian, 1 de Dezembro de 2015

“Desigualdade num mundo globalizado” 

O Nobel da economia esteve ontem em Lisboa perante uma plateia repleta para falar à sociedade civil acerca da sua principal tese: a desigualdade enquanto escolha. Ou seja, a desigualdade enquanto opção política e não como uma inevitabilidade do sistema económico. Há um espectro de políticas macroeconómicas que contribuem para a desigualdade. 

O caso dos EUA é flagrante na desigualdade da distribuição da riqueza e o que se torna estranho é verificar a reprodução do modelo americano, por exemplo, na Europa. Nas múltiplas dimensões da desigualdade o poder económico acumula-se no topo, os níveis de pobreza aumentam e a classe média é esviscerada. As desigualdades traduzem-se no acesso à saúde, sobretudo em países com sistemas nacionais de saúde elitizados como os EUA e traduz-se também no fragmentado acesso à justiça. Essa (in)justiça é facilmente relatada em números – como é que num país com 5% da população mundial, se encontra 20% da população prisional no mundo?



“Justice for all who can afford it”, dizia Stiglitz ontem. E se essas desigualdades faziam parte de um sistema dividido pela natureza e se acreditava que a geração seguinte ia sempre ter mais sucesso económico que a anterior, como é que se justifica que o mundo ocidental se encontre em recessão há já duas gerações? Os contos de histórias de sucesso pelo trabalho árduo podem reproduzir-se nos media para tentar fomentar a explanação do sucesso meritocrático, mas quando analisamos os factos – ou mesmo observamos o óbvio – só há uma decisão que esta geração deve tomar para ter sucesso na vida que é escolher os pais corretos. 

“You either choose the right parents or the game is over” ouvia-se o economista entre gargalhadas no salão principal da Gulbenkian. Piadas à parte, há uma relação sistémica quantificada entre o nível educacional  e os níveis de rendimentos, e essa educação depende da capacidade financeira dos pais dos novos trabalhadores. 


 O Gini índex conta-nos a história de como Grã Bretanha e Estados Unidos são os países com maiores níveis de desigualdade e maior dificuldade de acesso à educação e de como os escandinavos são os em que há maior acesso à educação e menores níveis de desigualdade. Portugal, dizia Stiglitz, não estava no gráfico que nos mostrou, “mas encontra-se entre os piores” disse a seco.

Ainda relativamente ao suposto progresso exponencial, a desigualdade global nos países da OCDE tem crescido nos últimos. A crise do crédito subprime que começa em 2007 nos EUA para se transformar numa crise económica global em 2008. De lembrar o que aconteceu com as agências de rating e os bancos norte-americanos que perante a subida de preços dos imóveis e alta liquidez do mercado internacional, começaram a fornecer empréstimos massivos a pessoas com histórico negativo de crédito para a compra de imóveis - antes só permitida a indivíduos com histórico positivo de pagamento e renda aprovada.

A incitação indiferenciada a um consumo com efeitos pejorativos – baseados na aquisição de títulos da dívida em esquema de pirâmide – acaba por proporcionar uma crise de liquidez, ou seja, uma retração de crédito na economia que conduz a uma inevitável - ou evitável, como diria Stiglitz - bolha financeira, a stock market buble

 “Trickle-down economics doesn’t work” 

O termo politico populista que tem vindo a caracterizar políticas económicas que favorecem os mais privilegiados e que defende que quanto mais dinheiro for para o topo, toda a população irá nutrir-se de capital, nunca foi uma teoria fundamentada ou teve qualquer suporte empírico. A desigualdade é efetivamente uma escolha, as grandes diferenças de distribuição de riqueza nos países desenvolvidos sugere que são as escolhas políticas não as inexoráveis forças do sistema económico que impõe a fragmentação social. A desigualdade é uma escolha, um resultado de como os decisores políticos foram estruturando a economia através da taxação, das políticas de despesa, da formatação do enquadramento legal, das nossas instituições, especialmente daquelas que conduzem as políticas monetárias. 

  “We can afford to have more equality”, na realidade isso iria ajudar a economia em geral. Economias com menos desigualdade desempenham melhores performances. Igualdade e performance são complementares. A falta de oportunidades traduz-se no desperdício de valiosos recursos. A nível macroeconómico, a ligação entre desigualdades e crises económicas e políticas tem sido comprovada pelo Fundo Monetário Internacional. As pequenas e médias empresas detidas pelas classes médias são os verdadeiros motores da economia e não a acumulação exponencial de capital de gerentes de topo que consomem em menor proporção dos seus rendimentos que a classe média ou baixa. Porque a desigualdade é um resultado de decisões políticas, ela é formatada pela política. Desigualdade económica traduz-se em desigualdade política e desigualdade política gera desigualdade económica, perpetuando um ciclo vicioso. 

As consequências da desigualdade passam pela sabotagem da democracia, a divisão da sociedade, sobretudo se as desigualdades coincidem com minorias étnicas. 

É urgente rescrever as regras da economia de mercado para que estas não sejam meras teias de proteção de 1% de privilegiados e não é com acordos de comércio transnacionais que de comércio têm muito pouco e que mais uma vez formatam a lei para a proteção de interesses corporativos que rescrevemos as regras da maneira correta (TIIP). A realidade é uma criação coletiva por isso criemos aquilo de que podemos todos beneficiar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mr. Robot review

Mr. Robot é uma série da USA Network criada por Sam Esmail. Um cyberpunk–thriller drama que junta a contemporaneidade dos movimentos de ciberterrorismo à vontade adolescente de uma revolução que descomponha os paradigmas basilares de uma sociedade de consumo alicerçada numa conspiração mundial. 



Uma das coisas que me cativou nestes seis episódios já disponíveis é a homenagem clara a obras cyberpunk com este travo de ficção científica distópica e politizada. Começando pelo grande paralelismo entre o formato da narrativa com aquele que David Fincher adotou na adaptação do romance de Chuck Palahniuk, Fight Club. O discurso anticapitalista e anti-materialista acompanhado de imagens que retratam um quotidiano cansativo regido pelas regras da banalidade consumista e por um conceito de pueril felicidade, os planos longos e contemplativos, o narrador na primeira-pessoa, a banda sonora a enfatizar o drama tecnológico ou a ironizar com melodias desadequadas ao contexto. É um gosto pessoal, aprecio particularmente as representações satíricas da sociedade. Isto e o facto de que o nosso anti-herói sofre de vários distúrbios psicológicos não identificados (bipolaridade, esquizofrenia?), o que faz com que os subplots em que se introduz e os vários níveis de conspiração possam ou não ser reais – a mesma dinâmica Edward Norton - Tyler Durden. Já no antagonista Tyrell Wellick vi uma sucessão de referências a Blade Runner, American Psycho e Comopolis, um levantamento do estado da arte, um reconhecimento do que já foi feito. Não faz com que a série perca originalidade mas antes ajuda-a a enquadrá-la no seu género e a descrever a sua estética e estilo. 

É verdade que vivemos numa época de revivalismo noir, há um determinado público muito virado para uma estética decadentista, niilista, conspiracionista. Elliot é um ser escolhido para perpetrar uma missão e a sua suposta intelectualmente superior é depreendida pela atitude cínica com que encara o mundo. Digamos que para mim é uma espécie de complexo adolescente em continuidade para justificar as arduidades de adaptação a um meio social aqui considerado amplamente fútil e ingénuo. Acho que muita gente se vai identificar com este tipo de personagem. Nos dois primeiros episódios senti alguma dificuldade em lidar com esta personalidade revoltada contra o capitalismo e o poder instaurado pela política e economia mas que recorre constantemente a clichés para se fazer entender. Se por um lado, Fight Club tinha uma vertente espiritual, da purgação do ser pelo desafeto ao materialismo, em Mr. Robot Elliot coloca o peso em toda a indústria produtiva, muitas vezes atirando em todas as direções, seguindo os padrões de uma rebelião anárquica e anónima aproveitando-se estilisticamente de fenómenos como Anonymous ou as manifestações de Occupy Wall street. A combinação destes elementos é feita com mestria e a personagem de Tyrell Wellick remete-me para um prazer adolescente de um vilão estilizado numa lógica maniqueísta. 

Apesar de alguma resistência ao piloto, ao terceiro episódio senti-me magneticamente atraída pela série e vou certamente seguir. Se me sentir inspirada ainda escrevo aqui mais alguma coisa sobre os meus pensamentos acerca do desenrolar da narrativa. Haja inspiração!    

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Década dos Psicopatas | Daniel Oliveira


Daniel Oliveira, Sara F. Costa
Em O Bom, o mau e o Vilão, a 14 de Maio de 2015

    A Década dos Psicopatas é o primeiro livro de Daniel Oliveira, uma seleção dos melhores textos que escreveu nos últimos dez anos para o jornal Expresso. É a obra ideal para conhecer todo o pensamento do Daniel. Como dizia Ana Drago na apresentação é um livro que faz “os retratos da nossa democracia, dos seus poderes reais, dos seus principais protagonistas e das suas promessas incumpridas” e que “A Década dos Psicopatas” levanta “profundas inquietações”, nomeadamente a “sensação de 10 anos vividos em crise permanente” e “a perceção de que vivemos a última década discutindo a insustentabilidade do regime”.

     Ler e reler as crónicas do Daniel faz-me reviver alguns dos momentos mais marcantes da vida política nacional nos últimos dez anos. Faz-me também reviver alguns eventos marcantes da política internacional, sobretudo nos últimos tempos, quando pensar a Europa entrou na ordem do dia.

   É impossível concordar 100% com alguém, mas é possível ter uma proximidade tremenda ao pensamento de alguém. É o que me acontece ao ler o DO.

    A sublime prosa com que se expressa, sempre com uma extrema racionalidade aliada a uma profunda inteligência emocional lembram que isto de ter sensibilidade é uma coisa que dá imenso jeito ao pensamento político - dá-lhe consistência. A construção do corpus científico do pensamento político nunca pode ser exclusivamente positivista mas pode ser sempre reflexiva. Não significa que o método de registo não passe pelo empirismo dentro daquilo que são as bases de uma abordagem científica dos factos sociais mas esta reflexão nunca pode ser, como denuncia Pierre Bordieu, uma visão nomotética. Toda a avaliação se prende com uma indeterminação parcial do social, resultado do exercício do livre arbítrio dos indivíduos.

A dominação e o poder devem ser colocados em causa permanentemente. Precisamos de indivíduos com destaque mediático que denunciem e anunciem os eventos de uma sociedade e que a tornam mais democrática, participativa e consciente.

A democracia revela uma mecânica que se alimenta de si própria, quanto mais a igualdade progride, mais a mínima desigualdade é insuportável e surgem as exigências da sua erradicação. Se esta liberdade é obcecada consigo mesma é porque esta é a única forma de a manter. Simultaneamente, somos confrontados com o facto de que o individualismo é também um filho do sistema democrático. Devemos aceitar que o cidadão individualista se desligue da vida pública para melhor se proteger na esfera privada? É este o indivíduo que persiste vivendo alheado das virtudes cívicas, sobretudo quando se insere num período histórico em que não faz parte daqueles que conquistaram tais virtudes? Não se pode desistir de um sistema que não se ajuda a manter. A manutenção da verdadeira participação cívica e da intervenção política têm que ser exercitadas através da informação. É isto que as crónicas do Daniel Oliveira fazem. Estas são as crónicas que sempre me ajudaram a alicerçar a minha reflexão política mas, mais importante, sempre me senti representada por estas crónicas e não encontro mais ninguém no panorama mediático e jornalístico português que o faça, que me represente.
   
   O Daniel faz parte da organização do Congresso Democrático das Alternativas às Eleições Legislativas de 2015 LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR. Só lamento que não tenha sido candidato, certamente teria sido eleito cabeça de lista. Como alguém que vê no Daniel Oliveira um pensamento político alternativo de uma esquerda assertiva e de verdadeira "social democracia" e "bem-estar social" só tenho pena que ele não seja candidato.

"Porque contra factos há imensos argumentos, não sou um mero observador. Escrevo para mudar a realidade. Sem ser mensageiro de opiniões alheias, estou comprometido com uma tradição política e com os que tradicionalmente têm menos poder social. Aqueles que têm menos presença no espaço mediático. Porque sou jornalista e respeito quem me lê, recuso a falta de rigor. Mesmo que ela sirva uma boa causa. A minha fraqueza? Prefiro uma má heresia a uma banalidade caridosa." Daniel Oliveira 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

OXI


As correntes tradicionais de leitura das Relações Internacionais, nomeadamente o Realismo e o Liberalismo apresentam uma forma de atuação dos estados-nação no palco internacional sempre racionalmente explicado às audiências de uma só forma. Nos discursos de defesa dos interesses estatais, integram-se as medidas que concernem a políticas de defesa militar do estado da mesma forma que integram o discurso da defesa dos interesses económicos de um estado. Sempre na perspetiva de que a estabilidade doméstica justifica posicionamentos externos. O que torna a “defesa de interesses” objeto de reflexão é a sua definição e composição. Os “interesses” podem basear-se em características que divergem entre si muitas vezes de acordo com as características culturais específicas de cada estado, ou seja, consoante a sua identidade.

A explicação única da “defesa dos interesses nacionais” torna-se vaga e sujeita a interpretações. Para Portugal essa justificação é anexada a medidas que não coloquem em questionamento a ordem económica vigente de índole neoliberal da atual zona euro. Mantemos assim os brandos costumes de Eça de Queirós e a memória recente de uma ditadura conservadora.

Richard Ned Lebow no seu livro “Why Nations Fight” escreve sobre quatro principais motivos que historicamente desencadearam as guerras ao longo do tempo: medo, interesse, posicionamento e vingança. Esta é uma abordagem interessante à luz da história grega. A famosa moral ateniense e espartana. De lembrar que "Espartano" significa em várias línguas “rigoroso” ou “desprovido de coisas supérfluas” tal como os povos da Lacónia que nos deixaram o adjetivo “lacónico”, direto, incisivo. A filologia pode ajudar-nos a identificar o tipo de características gregas com as quais nenhum outro país europeu se pode comparar. Claro que falamos de uma identidade ancestral que se dissipa e se volta a instaurar soberanamente nas revoltas contra o domínio Turco, na anexação da Macedónia e com a entrada na I Guerra Mundial no lado dos Aliados, vivendo em monarquia até 1922 e um período de ditadura militar de 1967 a 1974. Desde que retomou o rumo republicano e democrático, salienta-se o investimento que os gregos sempre fizeram em armamento e defesa, um investimento bastante acima da média europeia.




A vitória de janeiro deste ano de um partido como o Syriza acrescenta linhas à vastíssima história grega, revelando uma consciencialização da população mais uma vez não comparável à de qualquer outro europeu. A proclamação dos interesses nacionais não deixa de ser um discurso também ele utilizado por Tsipras ou Varoufakis. O seu entendimento e interpretação é que são outras. Se o interesse de sobreviver financeiramente exige padrões de vida indignos e suspende a liberdade política e social, esse é também um motivo de tensão entre estados e essa regra das Relações Internacionais aplica-se mais uma vez na relação da Grécia com a Zona Euro. Neste fim de semana, resultado de um referendo utilizado pelos poderes ilegítimos e antidemocráticos do capital, com os rostos de Merkel, Draghi e Lagarde mas incluindo os dirigentes europeus que pouco têm dignificado os seus estados incluindo Passos Coelhos e Mariano Rajoy.


Foram as características culturais específicas que deram uma vitória massiva do Não ao domínio neoliberal europeu e são elas que continuam a fazer com que em Portugal a televisão seja dominada por uma elite económica não intelectual cujos mandatos de propaganda continuam a modelar as mentalidades. Chegou a altura de denunciar o assalto à dignidade, à soberania e aos valores democráticos e chegou a altura de um "Não" português. Ninguém é dono da Europa e com ou sem a Grécia dentro da unidade monetária, poucos são os países que vão continuar a representar o valores europeus como os gregos o fazem. 

sábado, 4 de julho de 2015

Sobre a dívida



“Os sistemas de dívida baseavam-se no poder absoluto da riqueza: foi a acumulação de excedentes, nascida da desigualdade e da propriedade, que permitiu que uns tivessem o que faltava aos outros. A dívida é por isso também um modo de dominação. E de submissão: a dívida gerava a escravidão dos devedores faltosos, que perdiam terras e a liberdade para o seu novo senhor.
Esta tragédia da dívida e consequente destruição social determinaram uma resposta ao longo de pelo menos dois milénios antes da nossa era. Essa resposta foi consagrada nos primeiros livros da Bíblia e, antes deles, nas práticas sociais correntes das sociedades mais desenvolvidas do seu tempo, na Mesopotâmia e no Médio Oriente: o cancelamento ou o perdão das dívidas.
Por imposição religiosa ou legal, ou por ação dos reis, a dívida era perdoada e a propriedade devolvida ao escravo liberto. De sete em sete anos, segundo a determinação bíblica, ou quando um novo monarca se sentava no trono nas cidades da Suméria, no Egito ou na Grécia, esse cancelamento das dívidas restabelecia a ordem social. O Jubileu era a festa da libertação das dívidas e do regresso dos servos a casa.”


Mariana Mortágua e Francisco Louçã em “A Dividadura”

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Herberto Helder


O que representa a poesia de um país?

Em 2015 não há muitos motivos para se ter orgulho em ser português. Essencialmente por questões políticas e acessoriamente por questões que se relacionam com a economia local mas também global.
Se a expressão artística em geral consegue representar uma identidade individual ou coletiva, a poesia, pelo uso exclusivo da linguagem consegue minudenciar essa identidade. 

Sempre me identifiquei com o Álvaro de Campos que era estrangeiro em toda a parte e com o Pessoa que declarou que a sua pátria era a língua portuguesa. Dois conceitos pessoanos com os quais desenvolvi a minha identidade desde a pré-adolescência.  

Pessoa falece em 1935 mas é a partir dos anos oitenta que historicamente se começa inscrever na nossa memória coletiva, símbolo da cultura portuguesa contemporânea, lisboeta em particular devido ao esforço que foi feito para que a divulgação da riqueza literária que ele deixou pudesse atravessar fronteiras. Consecutivamente conheço estrangeiros que se apaixonaram por Portugal porque começaram por conhecer Pessoa. Neste Março que celebra 100 anos desde a primeira edição da Revista Orpheu é também um mês em que o país perde mas, sobretudo, a língua portuguesa perde um símbolo maior da sua vitalidade com o falecimento de Herberto Helder.



Em Photomaton & Vox, Herberto Helder define em 1979 o que significa pertencer a uma geração de poetas em Portugal “Eramos uma nova imitação de Cristo na Luciferania versão de alguns radicais antigos ou modernos, para quem a poesia foi uma ação terrorista, uma técnica de operar pelo medo e o sangue”. Até porque a poesia é “aquele equilíbrio no arame que mata o apetite de vertigem e nebulosa delinquência de uma emotividade suburbana”.

Herberto Helder, surrealista, simbolista ou híbrido: um poeta que explora as figurações do corpo (a poesia carnal ou encarnada), da relação com o tempo e com o espaço, da reivindicação da presença do leitor, da relação vida e arte, do discurso do absurdo, da dessincronização dos sentidos e da criação de realidades na realidade. Do prosaico ao carnal, do erudito ao existencial. Um poeta que pôs muita gente ler poesia e outra tanta a escrevê-la. Um homem de esquerda, contra as unanimidades e pensamentos empacotados.

A resposta à pergunta inicial do post encontra-se também dada por Herberto Helder na continuação da abertura desta obra, o poeta como revelação, sendo que “a última revelação é esta de sermos os produtores inexoráveis e os inevitáveis produtos de uma ironia cuja única dignidade é descender do tormento, um tormento sempre equivocado na sua manifestação sensível.” “Escrever é um jogo (…) representa-se a cena multiplicada de uma carnificina metafisicamente irrisória”.
Sabemos que Herberto Helder não quer ser o próximo Fernando Pessoa. Não quer estátuas, não quer ruas, não quer pertencer a protocolos literários, como afirmou em modo de pedido o seu mais mediático filho, o comentador político e jornalista Daniel Oliveira.

De facto, se se refugiou de qualquer meio mediático nos últimos anos de existência não podemos depois da sua morte desejar-lhe algo contra o qual lutou em vida.
 “Se quisesse, apresentava-me como uma vítima da escrita, da inocência, da neurose e suas instâncias psiquiátricas e psicanalíticas”.


Se em 2015 temos poucas razões para nos orgulharmos da nossa identidade, Herberto Helder é uma delas. Apelo ao encontro de uma identidade que não se deixe delinear apenas por fronteiras ou origens mas que se exprima através do nosso maior património: o património linguístico. Cabe-nos divulgar Herberto Helder como ícone de um valor literário ímpar globalmente. A contemporaneidade exige reciclar os nossos ídolos literários. Que estes se mantenham como parte essencial de uma identidade coletiva, sempre. 



segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Letónia


Um ser é um universo e os universos possuem recantos, por vezes difíceis de encontrar porque muitas vezes inexplorados. Em última análise, conhecer alguém é uma forma de invasão. Mas a descoberta deve ser prudente, uma vez que qualquer aventura implica riscos. Quando o corpo viaja, a mente antecipa-se e viajar é atravessar diversas paisagens humanas. Tendemos a analisar a diversidade comportamental com a localização geográfica. Aprendemos a evitar estereótipos mas somos seus cúmplices, a mente humana vai inevitavelmente procurar padrões, mesmo que esses padrões existam apenas numa tese, uma hipótese formulada racionalmente para nos ajudar a apreender aquilo que observamos. Dividimos esses estereótipos em grupos vizinhos. Faz sentido porque a socialização é feita de várias fases miméticas, assimilamos e reproduzimos e dessa forma comunicamos. É aí que nos encontramos. A distinção é aqui uma forma de reencontro com o ser que nos habita, também ele complexo e infinitamente inexplorado. A viagem, no seu sentido mais purista, não pode deixar de ser uma expedição da alma, tanto à procura do eu como do outro e que resulta numa combinação que se torna gradualmente indistinta. Em cada pessoa diferente existe um elo comum, mesmo que essa descoberta possa representar um desafio. As diferenças culturais e a análise sociológica explicam apenas uma parte da complexidade da psicologia humana. Há um misticismo inerente à viagem porque é a área do desconhecido mas esta percepção não deve ser ingénua: sair é desconforto e a realidade é que esse desconforto é precioso. Apenas não temos a capacidade de apreciar o desconforto a curto prazo. Há uma lentidão necessária, nem sempre agradável. Sabemos o que somos por oposição ao outro enquanto descobrimos que essa oposição é paradoxalmente inexistente ou pode existir mas apenas enquanto tese. Somos únicos e somos toda a possibilidade.

domingo, 7 de dezembro de 2014

Comentário é conteúdo



Neste post não vou refletir sobre o carater aleatório deste blog, embora a minha mente tendencialmente organizada me faça sempre começar por aí. Talvez tenha que assumir que este espaço não tem propósito intelectual mas antes um propósito emocional, sou eu que me conecto comigo. Para mais, nos dias de hoje, “comment is the content” e estou a citar o último episódio de South Park, já disponível online, e se aparece em South Park, é porque é oficial. E é verdade, é tão verdade para o meu sobrinho de 6 anos que é viciado em comentadores de jogos no youtube, como é verdade para todo o tipo de informação que recebemos hoje em dia. Eu acho que com isso – não sei se gosto muito desta forma do meu sobrinho passar grande parte do seu tempo – mas é verdade que o aumento da influência da socialização das redes disponibilizou para o utilizador uma leitura de várias camadas, mais transversal, espontânea e livre. De facto, o comentário ao conteúdo é conteúdo por si mesmo. Isto faz com que o conteúdo esteja sempre em permanente vigilância e acredito que há valores positivos que advém desta nova experiência – nunca vi tanta denúncia de misoginia presente em livros, filmes e músicas como vejo agora pela internet a fora. Parece que todos somos convidados a opinar e essa massa opinativa tem também o propósito de ser geradora dos próximos conteúdos, desejavelmente adaptados às exigências com que se depara. Nunca foi tão fácil perceber o que pensa o consumidor final dos produtos culturais. 

Começo a notar que o mês de Dezembro é muito profícuo em reflexões. É uma espécie de melancolia metódica que coincide com o fim do ano civil. Serão as luzes fluorescentes nos pinheiros? Será o Pai Natal um espírito de uma realidade com 5 dimensões onde o tempo é não só um círculo plano como a parte de trás de uma estante – é tão lamentável mas eu fico sempre … entusiasmada… vamos dizer assim, com estas MMR (Matthew Mcconaughey References). Também é uma fase em que fico muitas vezes com tempo livre e não preciso de dormir e assim sendo posso instruir-me mais tanto passiva como ativamente através da escrita que é, essencialmente, uma questão de prática como as outras. Ou até através de uma atividade que faz muito bem  que porventura pessoas que leem este blog, certamente não praticam o suficiente que é o convívio com pessoas, tipo sair com elas e conversar, como todo o tipo de pessoas em termos de feitio, idade, nacionalidade, orientação sexual, etc e nem sempre recorrendo a estupefacientes ou álcool para o efeito. Nem sempre, mas às vezes ajuda. Viajar também é uma forma ativa de reflexão mas é sempre diferente se se viaja sozinho/a ou se viajamos a dois ou com grupos de pessoas e atividades definidas. Todas estas condutas são bem-vindas para alimentar o bichinho do pensamento que é uma forma querida e quase infantil de dizer preencher o vazio existencial camusiano que invade inusitadamente os sentidos na quadra festiva.


É provável que eu venha a escrever novamente em breve mas se não acontecer, lembrem-se de ter um período festivo repleto de todas estas dicas que vos dei: boa continuação de produção de não-conteúdo para todos!

domingo, 16 de novembro de 2014

Nightcrawler / Repórter na Noite: provavelmente o melhor filme de 2014

Um sociopata é uma pessoa incapaz de sentir empatia. A empatia é o que nos permite identificarmo-nos emocionalmente com os outros, é o que nos faz ter sensibilidade emocional e é a base para nos relacionarmos socialmente. Clinicamente, os sociopatas são incapazes de dar respostas emocionais ajustadas às situações, por outro lado, são dotados de uma grande habilidade intelectual e, apesar de não serem capazes de dar repostas emocionais adequadas, a sua capacidade racional apetrecha-os de um dom muito próprio de mimetismo dos comportamentos humanos, o que os ajuda a misturarem-se sem serem identificados. 4% da população americana é sociopata, mais ou menos 12 milhões de pessoas. O que é que esta gente faz? Eu acho que muitos deles estão provavelmente à frente de cadeias televisivas e jornais de algibeira. Tendo em conta que o sociopata se conduz por instintos de megalomania e arrivismo extremo, é bem provável que muitos deles cheguem a lugares de chefia.

Quando acabei de ver o Nightcrawler a realidade à minha volta parecia distorcida, foi como se tivesse visto um filme de terror. Olhei para a mulher ao meu lado na casa de banho a lavar as mãos com alguma suspeita. Afinal, quem são os sociopatas desta sociedade que desfilam com impunidade perante todos nós? Mas este não é um terror de uma faca atrás de uma vítima, é um terror psicológico, cinematograficamente impecavelmente estilizado a transbordar humor e ainda assim refletindo uma realidade tão estupidamente próxima e familiar. O filme explora o ambiente suburbano de Los Angeles mas podia explorar qualquer outra grande cidade, podia ser sobre a Damaia ou os Olivais. É bastante negro e bastante gráfico. Críticos alegam que esta sátira ao lado macabro dos media não é novo, já foi feito, pois eu acho que precisávamos de mais um olhar sobre isso neste ano de 2014 e foi isso que este filme fez. Uma exposição do que de mais grotesco encontramos entre as pessoas que dirigem as imagens que nos chegam a casa todos os dias pelo pequeno ecrã, com interpretações brutais, um ambiente noir, estilo Drive, estilo Taxi Driver mas com um protagonista distinto, um Jake Gyllenhaal a transpirar carisma numa atuação brilhante.


Este é um filme de diálogos de culto que destrói a dialética do sucesso na nossa época: pega nela, espezinha-a e arrasta-a pelo chão a sangrar. De facto, não sei o que me perturbou mais: se o grafismo dos corpos assassinados ou a linguagem corporativa do Lou Bloom, ambas as coisas são macabras.  Entre uma fratura exposta ou alguém a dizer-me como me devo comportar em sociedade para atingir o sucesso, venha o diabo e escolha! 


Acho que o perfil do sociopata está extremamente bem definido na personagem principal, assim como na diretora de emissão (Rene Russo). Os diálogos deliciosamente escritos mergulhados em humor negro a cinematografia das perseguições, são alguns dos elementos que fazem deste filme provavelmente o melhor de 2014.

Para o ver numa sala de cinema, tive que me dirigir a um Cinema City, acho que devia estar melhor divulgado. Em Lisboa não terão certamente problemas em encontrá-lo, o mesmo não se pode dizer em relação ao resto do país. 

Acho que todos os defensores do empreendedorismo de cordel e dos ideais puros da ideia de “self-made men” possam sair deste filme a dizer:


“Who am I? I'm a hard worker. I set high goals and I've been told that I'm persistent.  Now I know that today's work culture no longer caters to the job loyalty that could be promised to earlier generations. But I believe that good things come to those who work their asses off and that good people who reach the top of the mountain, didn't just fall there.”


Lou Bloom 

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Os Chineses que investem em Portugal e o racismo português que investe em chatear-me

O que há de realmente polémico em relação a esta nova legislação sugerida por Paulo Portas no início do ano transato? Se existe efetivamente alguma dúvida ética no que concerne a este formato que conjuga investimento com um pacote de acesso livre ao espaço Schengen ela pode começar pelo visto de residência e acabar no questionamento dos princípios da república, pois existe a possibilidade de obtenção de um passaporte português mediante determinados requisitos – como o linguístico. O que é interessante em toda a mística dos vistos dourados é que ela advém em grande parte devido à ignorância que existe em relação à legislação em geral. Não enveredando exclusivamente por uma lógica histórica, dando a conhecer os países por este mundo a fora que adotaram legislações dentro do mesmo domínio,  renego-me à perspetiva conceptual. Salvaguardando o facto de Paulo Portas não ter feito mais do que copiar o que alguém lhe recomendou.

Conceptualmente, a aquisição de um bem imobiliário conduz necessariamente a uma noção de residência. Quando essa noção de residência embate em políticas nacionais e transnacionais de circunscrição de um cidadão à sua área soberana, a liberdade individual do sujeito que, a) deve ter liberdade de escolha em relação ao seu país de residência e b) tem liberdade de investimento ativo e de aquisição de produtos em qualquer parte do globo de acordo com as leis do comércio internacional, é de liberdade que estamos a falar. Emigrar não é fácil mas é muitas vezes desejável. Na atualidade, quantos portugueses sonham em emigrar para um país menos corrupto, um país onde existe uma conservação do estado social, onde o que se consegue amealhar pode vir a constituir património ou nem chegando a isso, onde trabalhar sirva, em último caso, para a sua sustentação. A vontade de partir para uma realidade mais aliciante pode ter várias origens, sendo que a ascensão social se afigura como motivo primário numa análise superficial. Sim, é difícil partir quando a instabilidade financeira se impõe. Difícil é também partir quando as restrições políticas assim o impedem.

Suponhamos que um português de classe média decide mover-se para outra parte do mundo para investir num futuro mais lucrativo. É justo. Não vou negar a vertente capitalista deste enquadramento, vivemos em liberdade de movimento mas também de capital. Para quem toma a democracia por garantida é difícil pôr-se no lugar daqueles a quem a liberdade de expressão ainda não foi dada, aqueles que ainda vivem ao albergue de estados opressores, que nascem debaixo de céus menos abertos. Não escolhemos onde nascemos e não escolhemos a que leis do poder nos sujeitamos.

A sensibilidade às discrepâncias sociais deveria ser uma aptidão inata ao ser que olha em seu redor. Mas quando falamos em vistos gold para apontar problemáticas marxistas estamos a misturar alhos com bugalhos. Acredito na emancipação através do capital, foi a única que até agora promoveu o bem-estar social assim como o desenvolvimento tecnológico e científico desta espécie em permanente conflito e evolução que é o ser humano. Há perspetivas ideológicas específicas para esta matéria.
Quando permitimos a um cidadão chinês que circule no espaço Schengen seja a título pessoal, seja a nível comercial livremente, estamos a conferir liberdade, a mesma que nós enquanto filhos da república portuguesa temos. Estamos a partilhar valores que a custo conquistámos. E perguntamo-nos: então, devemos dar asilo político a todas as populações de todos os regimes totalitários do mundo? Seria simples, não seria? É teoricamente impossível em qualquer cálculo, não nos divaguemos em realidades imaginárias. Com 500.000 euros cidadãos fora da UE podem obter liberdade de circulação no espaço Schengen. Fomenta a indústria imobiliária, promove a integração transnacional, fortalece laços diplomáticos. Infelizmente, para nós é muito dinheiro pelo que nos esforçamos por captar este investimento de forma extraordinária – estudamos mercados, construímos produto, formamos para o acolhimento de uma captação de investimento de fontes com as quais ainda lidamos pouco – como o é o investimento chinês.  Os atritos que surgem no seio destes cenários de mudança são precisamente as forças que muitas vezes são obstáculos à mudança. Visões simplistas como a de se comparar nos mesmos termos um imigrante de um pequeno negócio local com o imigrante que aproveita determinado enquadramento legal para certos movimentos financeiros, aliás, ambos estão a aproveitar os enquadramentos legais de um país dispõe. Sou uma mulher de esquerda porque tendo a concordar com políticas de integração social, mais do que com políticas da acumulação anárquica e descontextualizada do capital mas jamais assumiria a perspetiva fundamentalista que subentende que um rico é mau na sua essência. Não há maldade na individualidade individual e não há certamente maldade na emancipação, na imersão de um estado de subordinação ao poder para um estado de relativo controlo da sua liberdade individual.

Noutro ponto, tem que se parar com a tese de que é a crise que leva à adoção desta legislação. Quando o Canadá começou a impor restrições mais apertadas e prazos de candidatura à aquisição imobiliária com vantagens de residência foi por imperatividade. O Canadá não estava em crise.


A China como face do fim da hegemonia ocidental
Não estamos historicamente habituados a uma supremacia outra que não a do mundo ocidental civilizado. Quando uma etnia que pensamos nunca ter imperado se começa a determinar como economicamente superior existe medo perante o desconhecido. É errado pensar que a China não dominou já no passado o balanço financeiro mundial, a Guerra do Ópio surge no seguimento desse feito – século XVIII.

Argumentos recorrentes:

“Temos problemas com a ditadura” - compreendo – não compreendo como é que conferindo a cidadania portuguesa isso surge como argumento no caso dos vistos gold. O asilo político já enquadra esta noção.

“São culturalmente diferentes” – se estão a ler este blog e não entendem porque é que ser culturalmente diferente não deve ser um argumento contra a integração de alguém numa sociedade, não aconselho a continuação da leitura.

“Vão invadir-nos” – terei que ser sarcástica e dizer, em nome da industria imobiliária “quem nos dera!”. Não estamos na situação privilegiada em que esteve o Canadá quando começou com a legislação até a apertar e circunscrever por problemas de sobrepopulação ou de ameaça soberana. Preocupam-se com a problemática soberana, esta pode ser posta em causa quando serviços públicos essenciais são postos em causa. EDP e REN são neste caso mais conflituosas. Se Portugal tivesse uma promoção mais ativa no estrangeiro e fosse uma marca forte, ou seja, se fossemos a nível global um sítio extremamente solicitado enquanto primeira escolha, neste momento não teríamos em termos de captação de investimento as problemáticas no setor imobiliário com que todos os dias profissionais da imobiliária se deparam – o monopólio da captação de investidores por parte de duas ou três grandes corporações que obrigam os locais a repensarem as suas estratégias de venda com inflações e medidas que se sabem danosas a médio prazo para a própria industria. Há que perceber que nenhum mercado se quer autodestruir e que as opções estratégicas tomadas são feitas tendo em conta a gestão do “worst-case scenario”.

Com este artigo quero demonstrar que quem se sente estranho e apreensivo ao observar que muitos dos compradores de imobiliário de luxo em Portugal desde Março de 2013 são chineses é porque tem que lidar com problemáticas xenófoba e racistas no seu âmago. Acusar investidores estrangeiros de criminosos aleatoriamente não me parece um bom princípio. Não, ninguém atribui vistos de permanência a pessoas com registo criminal e depois dos três casos nas cinco centenas de vistos atribuídos acredito que as averiguações e precauções se tornaram ainda mais vigilantes.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sem zeros à esquerda




Mais falado do que o próprio Livre, o Manifesto 3D tentou unir as forças políticas à esquerda. (BE, Livre, Renovação Comunista e Manifesto 3D) Parece-me que se tratou, de acordo com o tenho lido do Daniel Oliveira, uma tentativa que se fazia na sequência alargada da observação de outros movimentos como o Syriza na Grécia sob o realçou que o partido de Alexis Tsipras “multiplicou por seis (tinha 4,6%) a percentagem do seu partido, em apenas três anos”. 

A não convergência das forças da esquerda esteve assim em foco – não foi, certamente, surpreendente. Acredito mesmo que não foi um mecanismo inocente para realçar as falhas dos sistemas partidários à esquerda com uma intenção muito clara de tocar nas feridas organizacionais do BE. Com a demissão de Ana Drago da Comissão Política do BE realça-se o sentimento de que esta esquerda já não é mais a esquerda da Política XXI e de que os vários fragmentos intrapartidários que sempre preocuparam a opinião pública retomam a ordem do dia. As pessoas estão mais curiosas com o que se passa com o Bloco e isso deve-se também ao surgimento do 3D ou do recém-criado Livre. Fica-se com a sensação de que os clichés contra os quais sempre se lutou - os rótulos de “partido de protesto” e não “partido da ação” – são afinal realidades que a Plataforma Socialismo de Louçã e Semedo fazem viver na realidade política das forças de oposição. Espera-se o prometido novo sujeito político da esquerda. Está ele numa orgânica renovada como é a do partido de Rui Tavares?

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

Torres de Ouro




Vou escrever genericamente com ornamentos abstratos de forma a tentar atrair as atenções dos amantes da leitura que não tolerariam, obviamente, um desabafo ressabiado de um ou de uma qualquer transeunte inútil com mágoas de cabeceira para partilhar com uma audiência imaginária. É contudo óbvio que o que se segue são rastos de experiência pessoal acumulados num inconsciente escoriado, a cicatrizar lentamente usando o tempo como pomada hidratante reconstrutora dos tecidos do bem-estar diário.


Não há lugar algum onde padrões de comportamento registados entre indivíduos da mesma sociedade possuam interpretações lineares. As ciências sociais e até as ciências humanas possuem assim este caráter místico, de uma imensidade de explicações e planos teóricos altamente improváveis (impossíveis?) de serem testados. Mas vamos voltar a mim porque a vitalidade de uma personagem é o que torna a ficção um lugar menos árido do que o texto académico. Ah, esta última palavra, o academismo. Qual o desapontamento de me aperceber que os académicos nas melhores universidades deste país vivem ainda inacreditavelmente em torres de marfim. (A expressão Torre de Marfim designa um mundo ou atmosfera onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações práticas do dia-a-dia.) Suponhamos que vou falar de economia ou do estado social. Quero descrever violência estrutural mas a única forma de violência que experienciei foi o arrivismo intelectual no qual me asfixio de forma a ter um lugar garantido num pedestal de prestígio que me refugia de qualquer realidade. Faz sentido? Não, não faz. O entendimento do mundo deve ser visceral antes de ser teórico e não quero usar a palavra empirismo porque não é de empirismo que se trata porque esta porcaria do empirismo é a forma que os académicos usam para dizer conhecimento pragmático. Pragmatismo é sujar as mãos. Sim, sou maluca – está diagnosticado. Há em mim uma necessidade ridícula de compreender as coisas em profundidade, mas não é essa profundidade intrínseca de literaturas infinitas que compõe o espólio intelectual de um académico. Claro que sim, claro que o conhecimento é o aspeto basilar da compreensão da realidade. Está para mim fora de questão pôr em causa o papel do conhecimento teórico e do papel da educação. O que ponho em causa, contudo, é a hipocrisia. A hipocrisia de se falar em responsabilidade social e de se desprezar frontalmente a responsabilidade que um professor tem, por exemplo, perante um aluno, dispensa o seu tempo e paga propinas e tem expectativas, o que é compreensível. Mas o tutor com a sua inquestionável notoriedade no seu grupo de pares, no seu grupo de estrategas do poder tem que publicar, porque tem que debater ideias num colóquio internacional e aproveita para pôr umas fotos no facebook a dizer como é bom estar em Nova Iorque a passear num intervalo de um debate interessantíssimo sobre os conflitos no Sudão ou as discrepâncias sociais na Rússia. E vamos falar de hipocrisia como ela deve ser falada, todos somos uns potenciais exibicionistas e foi a internet que o comprovou. Acho que já dei este exemplo mas continuo a gostar dele. Era Orwell que falava do medo de sermos constantemente controlados por um estado totalitário que não nos dava liberdade de ação sem supervisão. O que vemos, no entanto, com o advento da ultra-exposição, numa explosão de ecrãs é que ela é procurada incessantemente. As luzes ligam-se, as câmaras estão a filmar e quem não se quer pôr à frente delas? Sobretudo se é para realçar as necessidades que o nosso ego foi construindo – porque o ego é uma construção social – temos todos necessidade de reconhecimento, necessidade de prestígio – não vou descer tão baixo ao ponto de falar de fama mas é mais ou menos o mesmo - são todas essas palavras utilizadas diariamente em todos os meios de comunicação e que nos incutem uma forma coerente de perspetivar a realidade com base em valores que outros definiram. Esta experiência universitária começa desde o primeiro ano de qualquer espaço de ensino superior, mas naturalmente que se intensifica em patamares da pesquisa académica mais avançados. E é claro, vão-me dizer, metes-te em meios competitivos, estás à espera do quê? É sempre esta inocência parva que me caracteriza que me faz acreditar que o mundo não é como uma série americana onde o Kevin Spacey é um sociopata homicida em nome do poder. Se é para perceber de poder, as teorias do poder segundo Foucault são mais esclarecedoras do que qualquer coisa filmada e nisso estou de acordo com qualquer marfim em qualquer torre. Este texto não tem o intuito de ser moralista porque como dizia alguém estou-me a borrifar para o moralismo ou até se calhar mesmo para a moral. Sobretudo para a moral da história. Mas é acima de tudo a hipocrisia que me irrita e é a irritação é uma das melhores combustões para os meus textos, deve ser o meu lado de animal político ou talvez haja uma distinção essencial entre sociabilidade e política como dizia a Arendt. O que importa? Uma das coisas que aprendi em relação ao texto académico: há regras mas essas regras não são ensinadas. É um bocado como quando o meu treinador de viet vo dao me dizia que ele aprendeu tudo o que sabia sem que ninguém lhe explicasse. O mestre dele limitava-se a fazer o exercício uma vez e a exigir que o aprendiz descobrisse como é que aquilo se executava, sem qualquer orientação, a partir do absoluto vazio. Há uma lógica taoista muito interessante, é certo. Mas é isto um texto académico? Uma professora dizia ‘olhem, a mim só me explicaram isto no último ano, mas eu estou a explicar-vos logo no primeiro… olhem que sorte!’. É exatamente como o meu mestre de artes marciais me dizia ‘eu estou aqui a dar-te a papinha toda feita, a explicar com metodologia e orientação todos os passos que deves dar para executar o exercício, mas olha que o meu mestre não me dizia nada… olha que sorte que tu tens!’. Agora, das duas uma: ou vocês estão a gozar com a minha cara e isto de redigir um texto “científico” é tão rigoroso como uma prática esotérica ou então há uma hipótese bem mais perversa e bem mais ofensiva, não querem que o aluno chegue aí ao lugar onde vocês estão? Não quer o mestre que o discípulo o substitua? Se é esta última, não há nada a dizer a não ser, é triste. Não é por aqui que se quer andar quando se procuram verdades. Sejam elas quais forem. Acerca da condição humana ou da cura para o cancro. Um professor que não quer ensinar devia estar a fazer outra coisa qualquer.

Bom, a minha ideia era falar da minha experiência corporativa e ainda não saí dos traumas da escola e falta-me tocar no tendenciosismo ideológico e incapacidade de imparcialidade de vários profissionais com os quais me cruzei, que é mais grave do que isto tudo. Vamos esperar por um próximo capítulo porque o lorazepam está prestes a fazer efeito. Para concluir, eu entendo que qualquer entidade ou organização institucional onde existem pessoas com aspirações se possa tornar num sítio tomado por estratégias de manipulação e disputas por um lugar de sabe-se lá o quê – muitas vezes nem sequer é uma coisa tão concreta como ‘dinheiro’, embora o materialismo seja para mim uma fonte de justificações para o comportamento coletivo mas nem sempre para o individual. Parenteses à parte, é honestamente triste ver que a meritocracia está neste país altamente baseada em preconceitos e jogos de influência – o que anula o conceito de “meritocracia” - irónico.  É a minha dose de ironia por hoje.