domingo, 4 de novembro de 2012

“Heart of darkness” de Joseph Conrad



“Heart of Darkness” de Joseph Conrad, publicado em três fases durante o início do século XX, é um livro razoavelmente curto mas canónico na tradição literária dita ocidental.
            Às multiplas camadas de narrativa junta-se uma linguagem visceral frequentemente sensorial e que nos descreve um universo pouco colorido, dir-se-ia mesmo um universo onde a luz é inetivalmente absorvida. Para além das qualidades literárias intrínsecas da forma, o impetuoso simbolismo da mensagem justifica esta canonização. Esta jornada a lugares considerados exóticos não ganha proporções épicas mas antes ilustra o nengrume presente na perceção de Marlow face ao conhecimento de um mítico reinado instaurado por “Kurtz” um homem “de elevado gosto e espantosa eloquência”. 
Heart of Darkness é baseado numa jornada do próprio Joseph Conrad ao Congo como comandante marítimo.Em 1878, as entidades belgas que colonizavam o Congo com pretextos supostamente filantrópicos para o desenvolvimento rural anunciam a criação de um novo estado, o Estado Livre do Congo. Na realidade, tudo não passava de um esquema montado por Leopoldo II para a exploração do marfim. O povo local era sistematicamente roubado, escravizado e sujeito a trabalho forçado nas minas. Aqueles que não trabalhassem devidamente eram punidos com amputações de membros. Centenas de milhares de escravos morriam devido a exaustão, doença ou fome.

Grande parte do interesse da obra de Conrad deve-se ao seu enquadramento temporal. Em 1902, o termo “racismo” não tinha sequer uma conotação pejorativa. No entanto, no seu livro encontramos o narrador Marlow a refletir várias vezes sobre a possível humanidade presente “naquelas criaturas”:They were not enemies, they were not criminals, they were nothing earthly now, nothing but black shadows of disease and starvation, lying confusedly in the greenish gloom. (Conrad 14)
O reino de Kurtz, instaurado sobre o pretexto de uma suposta civilização dos povos face à presumivel superioridade europeia torna-se num conto fantasmagórico na qual o conceito de civilização é invertdo. Perante a ausência de lei, o reinado que Kurtz pensava controlar estava antes a controlá-lo a ele num ilusionismo febril. Fora do seu estado de princípios, Kurtz implementa o mais primitivo dos sistemas mas considera-se a ele superior porque a lei dos homens não se confunde com a lei primitiva da natureza. Contudo, é do reconhecimento dos ocupantes de que “ali não há leis” e que“podemos matar se necessário”.  A selvajaria é assim instaurada pelos mensageiros da civilização, por homens brancos de estados hegemónicos.
Este regresso à selvajaria relembra outro clássico, o posterior “Lord of the flies” de William Golding. Em ambas as obras a reflexão sobre civilização e selvajaria demonstra que a assunção de superioridade cultural e civilizacional é facilmente posta em causa aquando da ausência de regulações e imperativos externos. A terra de ninguém é assim a terra da lei do mais forte.
A viagem ao coração das trevas é na realidade uma viagem ao lado mais sombrio do coração humano.



Conrad, Joseph, Heart of Darkness, first published in 1902, published in Penguin Classics1994

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