Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Política. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mr. Robot review

Mr. Robot é uma série da USA Network criada por Sam Esmail. Um cyberpunk–thriller drama que junta a contemporaneidade dos movimentos de ciberterrorismo à vontade adolescente de uma revolução que descomponha os paradigmas basilares de uma sociedade de consumo alicerçada numa conspiração mundial. 



Uma das coisas que me cativou nestes seis episódios já disponíveis é a homenagem clara a obras cyberpunk com este travo de ficção científica distópica e politizada. Começando pelo grande paralelismo entre o formato da narrativa com aquele que David Fincher adotou na adaptação do romance de Chuck Palahniuk, Fight Club. O discurso anticapitalista e anti-materialista acompanhado de imagens que retratam um quotidiano cansativo regido pelas regras da banalidade consumista e por um conceito de pueril felicidade, os planos longos e contemplativos, o narrador na primeira-pessoa, a banda sonora a enfatizar o drama tecnológico ou a ironizar com melodias desadequadas ao contexto. É um gosto pessoal, aprecio particularmente as representações satíricas da sociedade. Isto e o facto de que o nosso anti-herói sofre de vários distúrbios psicológicos não identificados (bipolaridade, esquizofrenia?), o que faz com que os subplots em que se introduz e os vários níveis de conspiração possam ou não ser reais – a mesma dinâmica Edward Norton - Tyler Durden. Já no antagonista Tyrell Wellick vi uma sucessão de referências a Blade Runner, American Psycho e Comopolis, um levantamento do estado da arte, um reconhecimento do que já foi feito. Não faz com que a série perca originalidade mas antes ajuda-a a enquadrá-la no seu género e a descrever a sua estética e estilo. 

É verdade que vivemos numa época de revivalismo noir, há um determinado público muito virado para uma estética decadentista, niilista, conspiracionista. Elliot é um ser escolhido para perpetrar uma missão e a sua suposta intelectualmente superior é depreendida pela atitude cínica com que encara o mundo. Digamos que para mim é uma espécie de complexo adolescente em continuidade para justificar as arduidades de adaptação a um meio social aqui considerado amplamente fútil e ingénuo. Acho que muita gente se vai identificar com este tipo de personagem. Nos dois primeiros episódios senti alguma dificuldade em lidar com esta personalidade revoltada contra o capitalismo e o poder instaurado pela política e economia mas que recorre constantemente a clichés para se fazer entender. Se por um lado, Fight Club tinha uma vertente espiritual, da purgação do ser pelo desafeto ao materialismo, em Mr. Robot Elliot coloca o peso em toda a indústria produtiva, muitas vezes atirando em todas as direções, seguindo os padrões de uma rebelião anárquica e anónima aproveitando-se estilisticamente de fenómenos como Anonymous ou as manifestações de Occupy Wall street. A combinação destes elementos é feita com mestria e a personagem de Tyrell Wellick remete-me para um prazer adolescente de um vilão estilizado numa lógica maniqueísta. 

Apesar de alguma resistência ao piloto, ao terceiro episódio senti-me magneticamente atraída pela série e vou certamente seguir. Se me sentir inspirada ainda escrevo aqui mais alguma coisa sobre os meus pensamentos acerca do desenrolar da narrativa. Haja inspiração!    

quarta-feira, 15 de julho de 2015

A Década dos Psicopatas | Daniel Oliveira


Daniel Oliveira, Sara F. Costa
Em O Bom, o mau e o Vilão, a 14 de Maio de 2015

    A Década dos Psicopatas é o primeiro livro de Daniel Oliveira, uma seleção dos melhores textos que escreveu nos últimos dez anos para o jornal Expresso. É a obra ideal para conhecer todo o pensamento do Daniel. Como dizia Ana Drago na apresentação é um livro que faz “os retratos da nossa democracia, dos seus poderes reais, dos seus principais protagonistas e das suas promessas incumpridas” e que “A Década dos Psicopatas” levanta “profundas inquietações”, nomeadamente a “sensação de 10 anos vividos em crise permanente” e “a perceção de que vivemos a última década discutindo a insustentabilidade do regime”.

     Ler e reler as crónicas do Daniel faz-me reviver alguns dos momentos mais marcantes da vida política nacional nos últimos dez anos. Faz-me também reviver alguns eventos marcantes da política internacional, sobretudo nos últimos tempos, quando pensar a Europa entrou na ordem do dia.

   É impossível concordar 100% com alguém, mas é possível ter uma proximidade tremenda ao pensamento de alguém. É o que me acontece ao ler o DO.

    A sublime prosa com que se expressa, sempre com uma extrema racionalidade aliada a uma profunda inteligência emocional lembram que isto de ter sensibilidade é uma coisa que dá imenso jeito ao pensamento político - dá-lhe consistência. A construção do corpus científico do pensamento político nunca pode ser exclusivamente positivista mas pode ser sempre reflexiva. Não significa que o método de registo não passe pelo empirismo dentro daquilo que são as bases de uma abordagem científica dos factos sociais mas esta reflexão nunca pode ser, como denuncia Pierre Bordieu, uma visão nomotética. Toda a avaliação se prende com uma indeterminação parcial do social, resultado do exercício do livre arbítrio dos indivíduos.

A dominação e o poder devem ser colocados em causa permanentemente. Precisamos de indivíduos com destaque mediático que denunciem e anunciem os eventos de uma sociedade e que a tornam mais democrática, participativa e consciente.

A democracia revela uma mecânica que se alimenta de si própria, quanto mais a igualdade progride, mais a mínima desigualdade é insuportável e surgem as exigências da sua erradicação. Se esta liberdade é obcecada consigo mesma é porque esta é a única forma de a manter. Simultaneamente, somos confrontados com o facto de que o individualismo é também um filho do sistema democrático. Devemos aceitar que o cidadão individualista se desligue da vida pública para melhor se proteger na esfera privada? É este o indivíduo que persiste vivendo alheado das virtudes cívicas, sobretudo quando se insere num período histórico em que não faz parte daqueles que conquistaram tais virtudes? Não se pode desistir de um sistema que não se ajuda a manter. A manutenção da verdadeira participação cívica e da intervenção política têm que ser exercitadas através da informação. É isto que as crónicas do Daniel Oliveira fazem. Estas são as crónicas que sempre me ajudaram a alicerçar a minha reflexão política mas, mais importante, sempre me senti representada por estas crónicas e não encontro mais ninguém no panorama mediático e jornalístico português que o faça, que me represente.
   
   O Daniel faz parte da organização do Congresso Democrático das Alternativas às Eleições Legislativas de 2015 LIVRE/TEMPO DE AVANÇAR. Só lamento que não tenha sido candidato, certamente teria sido eleito cabeça de lista. Como alguém que vê no Daniel Oliveira um pensamento político alternativo de uma esquerda assertiva e de verdadeira "social democracia" e "bem-estar social" só tenho pena que ele não seja candidato.

"Porque contra factos há imensos argumentos, não sou um mero observador. Escrevo para mudar a realidade. Sem ser mensageiro de opiniões alheias, estou comprometido com uma tradição política e com os que tradicionalmente têm menos poder social. Aqueles que têm menos presença no espaço mediático. Porque sou jornalista e respeito quem me lê, recuso a falta de rigor. Mesmo que ela sirva uma boa causa. A minha fraqueza? Prefiro uma má heresia a uma banalidade caridosa." Daniel Oliveira 

segunda-feira, 6 de julho de 2015

OXI


As correntes tradicionais de leitura das Relações Internacionais, nomeadamente o Realismo e o Liberalismo apresentam uma forma de atuação dos estados-nação no palco internacional sempre racionalmente explicado às audiências de uma só forma. Nos discursos de defesa dos interesses estatais, integram-se as medidas que concernem a políticas de defesa militar do estado da mesma forma que integram o discurso da defesa dos interesses económicos de um estado. Sempre na perspetiva de que a estabilidade doméstica justifica posicionamentos externos. O que torna a “defesa de interesses” objeto de reflexão é a sua definição e composição. Os “interesses” podem basear-se em características que divergem entre si muitas vezes de acordo com as características culturais específicas de cada estado, ou seja, consoante a sua identidade.

A explicação única da “defesa dos interesses nacionais” torna-se vaga e sujeita a interpretações. Para Portugal essa justificação é anexada a medidas que não coloquem em questionamento a ordem económica vigente de índole neoliberal da atual zona euro. Mantemos assim os brandos costumes de Eça de Queirós e a memória recente de uma ditadura conservadora.

Richard Ned Lebow no seu livro “Why Nations Fight” escreve sobre quatro principais motivos que historicamente desencadearam as guerras ao longo do tempo: medo, interesse, posicionamento e vingança. Esta é uma abordagem interessante à luz da história grega. A famosa moral ateniense e espartana. De lembrar que "Espartano" significa em várias línguas “rigoroso” ou “desprovido de coisas supérfluas” tal como os povos da Lacónia que nos deixaram o adjetivo “lacónico”, direto, incisivo. A filologia pode ajudar-nos a identificar o tipo de características gregas com as quais nenhum outro país europeu se pode comparar. Claro que falamos de uma identidade ancestral que se dissipa e se volta a instaurar soberanamente nas revoltas contra o domínio Turco, na anexação da Macedónia e com a entrada na I Guerra Mundial no lado dos Aliados, vivendo em monarquia até 1922 e um período de ditadura militar de 1967 a 1974. Desde que retomou o rumo republicano e democrático, salienta-se o investimento que os gregos sempre fizeram em armamento e defesa, um investimento bastante acima da média europeia.




A vitória de janeiro deste ano de um partido como o Syriza acrescenta linhas à vastíssima história grega, revelando uma consciencialização da população mais uma vez não comparável à de qualquer outro europeu. A proclamação dos interesses nacionais não deixa de ser um discurso também ele utilizado por Tsipras ou Varoufakis. O seu entendimento e interpretação é que são outras. Se o interesse de sobreviver financeiramente exige padrões de vida indignos e suspende a liberdade política e social, esse é também um motivo de tensão entre estados e essa regra das Relações Internacionais aplica-se mais uma vez na relação da Grécia com a Zona Euro. Neste fim de semana, resultado de um referendo utilizado pelos poderes ilegítimos e antidemocráticos do capital, com os rostos de Merkel, Draghi e Lagarde mas incluindo os dirigentes europeus que pouco têm dignificado os seus estados incluindo Passos Coelhos e Mariano Rajoy.


Foram as características culturais específicas que deram uma vitória massiva do Não ao domínio neoliberal europeu e são elas que continuam a fazer com que em Portugal a televisão seja dominada por uma elite económica não intelectual cujos mandatos de propaganda continuam a modelar as mentalidades. Chegou a altura de denunciar o assalto à dignidade, à soberania e aos valores democráticos e chegou a altura de um "Não" português. Ninguém é dono da Europa e com ou sem a Grécia dentro da unidade monetária, poucos são os países que vão continuar a representar o valores europeus como os gregos o fazem. 

sábado, 4 de julho de 2015

Sobre a dívida



“Os sistemas de dívida baseavam-se no poder absoluto da riqueza: foi a acumulação de excedentes, nascida da desigualdade e da propriedade, que permitiu que uns tivessem o que faltava aos outros. A dívida é por isso também um modo de dominação. E de submissão: a dívida gerava a escravidão dos devedores faltosos, que perdiam terras e a liberdade para o seu novo senhor.
Esta tragédia da dívida e consequente destruição social determinaram uma resposta ao longo de pelo menos dois milénios antes da nossa era. Essa resposta foi consagrada nos primeiros livros da Bíblia e, antes deles, nas práticas sociais correntes das sociedades mais desenvolvidas do seu tempo, na Mesopotâmia e no Médio Oriente: o cancelamento ou o perdão das dívidas.
Por imposição religiosa ou legal, ou por ação dos reis, a dívida era perdoada e a propriedade devolvida ao escravo liberto. De sete em sete anos, segundo a determinação bíblica, ou quando um novo monarca se sentava no trono nas cidades da Suméria, no Egito ou na Grécia, esse cancelamento das dívidas restabelecia a ordem social. O Jubileu era a festa da libertação das dívidas e do regresso dos servos a casa.”


Mariana Mortágua e Francisco Louçã em “A Dividadura”

sábado, 22 de fevereiro de 2014

Os Chineses que investem em Portugal e o racismo português que investe em chatear-me

O que há de realmente polémico em relação a esta nova legislação sugerida por Paulo Portas no início do ano transato? Se existe efetivamente alguma dúvida ética no que concerne a este formato que conjuga investimento com um pacote de acesso livre ao espaço Schengen ela pode começar pelo visto de residência e acabar no questionamento dos princípios da república, pois existe a possibilidade de obtenção de um passaporte português mediante determinados requisitos – como o linguístico. O que é interessante em toda a mística dos vistos dourados é que ela advém em grande parte devido à ignorância que existe em relação à legislação em geral. Não enveredando exclusivamente por uma lógica histórica, dando a conhecer os países por este mundo a fora que adotaram legislações dentro do mesmo domínio,  renego-me à perspetiva conceptual. Salvaguardando o facto de Paulo Portas não ter feito mais do que copiar o que alguém lhe recomendou.

Conceptualmente, a aquisição de um bem imobiliário conduz necessariamente a uma noção de residência. Quando essa noção de residência embate em políticas nacionais e transnacionais de circunscrição de um cidadão à sua área soberana, a liberdade individual do sujeito que, a) deve ter liberdade de escolha em relação ao seu país de residência e b) tem liberdade de investimento ativo e de aquisição de produtos em qualquer parte do globo de acordo com as leis do comércio internacional, é de liberdade que estamos a falar. Emigrar não é fácil mas é muitas vezes desejável. Na atualidade, quantos portugueses sonham em emigrar para um país menos corrupto, um país onde existe uma conservação do estado social, onde o que se consegue amealhar pode vir a constituir património ou nem chegando a isso, onde trabalhar sirva, em último caso, para a sua sustentação. A vontade de partir para uma realidade mais aliciante pode ter várias origens, sendo que a ascensão social se afigura como motivo primário numa análise superficial. Sim, é difícil partir quando a instabilidade financeira se impõe. Difícil é também partir quando as restrições políticas assim o impedem.

Suponhamos que um português de classe média decide mover-se para outra parte do mundo para investir num futuro mais lucrativo. É justo. Não vou negar a vertente capitalista deste enquadramento, vivemos em liberdade de movimento mas também de capital. Para quem toma a democracia por garantida é difícil pôr-se no lugar daqueles a quem a liberdade de expressão ainda não foi dada, aqueles que ainda vivem ao albergue de estados opressores, que nascem debaixo de céus menos abertos. Não escolhemos onde nascemos e não escolhemos a que leis do poder nos sujeitamos.

A sensibilidade às discrepâncias sociais deveria ser uma aptidão inata ao ser que olha em seu redor. Mas quando falamos em vistos gold para apontar problemáticas marxistas estamos a misturar alhos com bugalhos. Acredito na emancipação através do capital, foi a única que até agora promoveu o bem-estar social assim como o desenvolvimento tecnológico e científico desta espécie em permanente conflito e evolução que é o ser humano. Há perspetivas ideológicas específicas para esta matéria.
Quando permitimos a um cidadão chinês que circule no espaço Schengen seja a título pessoal, seja a nível comercial livremente, estamos a conferir liberdade, a mesma que nós enquanto filhos da república portuguesa temos. Estamos a partilhar valores que a custo conquistámos. E perguntamo-nos: então, devemos dar asilo político a todas as populações de todos os regimes totalitários do mundo? Seria simples, não seria? É teoricamente impossível em qualquer cálculo, não nos divaguemos em realidades imaginárias. Com 500.000 euros cidadãos fora da UE podem obter liberdade de circulação no espaço Schengen. Fomenta a indústria imobiliária, promove a integração transnacional, fortalece laços diplomáticos. Infelizmente, para nós é muito dinheiro pelo que nos esforçamos por captar este investimento de forma extraordinária – estudamos mercados, construímos produto, formamos para o acolhimento de uma captação de investimento de fontes com as quais ainda lidamos pouco – como o é o investimento chinês.  Os atritos que surgem no seio destes cenários de mudança são precisamente as forças que muitas vezes são obstáculos à mudança. Visões simplistas como a de se comparar nos mesmos termos um imigrante de um pequeno negócio local com o imigrante que aproveita determinado enquadramento legal para certos movimentos financeiros, aliás, ambos estão a aproveitar os enquadramentos legais de um país dispõe. Sou uma mulher de esquerda porque tendo a concordar com políticas de integração social, mais do que com políticas da acumulação anárquica e descontextualizada do capital mas jamais assumiria a perspetiva fundamentalista que subentende que um rico é mau na sua essência. Não há maldade na individualidade individual e não há certamente maldade na emancipação, na imersão de um estado de subordinação ao poder para um estado de relativo controlo da sua liberdade individual.

Noutro ponto, tem que se parar com a tese de que é a crise que leva à adoção desta legislação. Quando o Canadá começou a impor restrições mais apertadas e prazos de candidatura à aquisição imobiliária com vantagens de residência foi por imperatividade. O Canadá não estava em crise.


A China como face do fim da hegemonia ocidental
Não estamos historicamente habituados a uma supremacia outra que não a do mundo ocidental civilizado. Quando uma etnia que pensamos nunca ter imperado se começa a determinar como economicamente superior existe medo perante o desconhecido. É errado pensar que a China não dominou já no passado o balanço financeiro mundial, a Guerra do Ópio surge no seguimento desse feito – século XVIII.

Argumentos recorrentes:

“Temos problemas com a ditadura” - compreendo – não compreendo como é que conferindo a cidadania portuguesa isso surge como argumento no caso dos vistos gold. O asilo político já enquadra esta noção.

“São culturalmente diferentes” – se estão a ler este blog e não entendem porque é que ser culturalmente diferente não deve ser um argumento contra a integração de alguém numa sociedade, não aconselho a continuação da leitura.

“Vão invadir-nos” – terei que ser sarcástica e dizer, em nome da industria imobiliária “quem nos dera!”. Não estamos na situação privilegiada em que esteve o Canadá quando começou com a legislação até a apertar e circunscrever por problemas de sobrepopulação ou de ameaça soberana. Preocupam-se com a problemática soberana, esta pode ser posta em causa quando serviços públicos essenciais são postos em causa. EDP e REN são neste caso mais conflituosas. Se Portugal tivesse uma promoção mais ativa no estrangeiro e fosse uma marca forte, ou seja, se fossemos a nível global um sítio extremamente solicitado enquanto primeira escolha, neste momento não teríamos em termos de captação de investimento as problemáticas no setor imobiliário com que todos os dias profissionais da imobiliária se deparam – o monopólio da captação de investidores por parte de duas ou três grandes corporações que obrigam os locais a repensarem as suas estratégias de venda com inflações e medidas que se sabem danosas a médio prazo para a própria industria. Há que perceber que nenhum mercado se quer autodestruir e que as opções estratégicas tomadas são feitas tendo em conta a gestão do “worst-case scenario”.

Com este artigo quero demonstrar que quem se sente estranho e apreensivo ao observar que muitos dos compradores de imobiliário de luxo em Portugal desde Março de 2013 são chineses é porque tem que lidar com problemáticas xenófoba e racistas no seu âmago. Acusar investidores estrangeiros de criminosos aleatoriamente não me parece um bom princípio. Não, ninguém atribui vistos de permanência a pessoas com registo criminal e depois dos três casos nas cinco centenas de vistos atribuídos acredito que as averiguações e precauções se tornaram ainda mais vigilantes.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Sem zeros à esquerda




Mais falado do que o próprio Livre, o Manifesto 3D tentou unir as forças políticas à esquerda. (BE, Livre, Renovação Comunista e Manifesto 3D) Parece-me que se tratou, de acordo com o tenho lido do Daniel Oliveira, uma tentativa que se fazia na sequência alargada da observação de outros movimentos como o Syriza na Grécia sob o realçou que o partido de Alexis Tsipras “multiplicou por seis (tinha 4,6%) a percentagem do seu partido, em apenas três anos”. 

A não convergência das forças da esquerda esteve assim em foco – não foi, certamente, surpreendente. Acredito mesmo que não foi um mecanismo inocente para realçar as falhas dos sistemas partidários à esquerda com uma intenção muito clara de tocar nas feridas organizacionais do BE. Com a demissão de Ana Drago da Comissão Política do BE realça-se o sentimento de que esta esquerda já não é mais a esquerda da Política XXI e de que os vários fragmentos intrapartidários que sempre preocuparam a opinião pública retomam a ordem do dia. As pessoas estão mais curiosas com o que se passa com o Bloco e isso deve-se também ao surgimento do 3D ou do recém-criado Livre. Fica-se com a sensação de que os clichés contra os quais sempre se lutou - os rótulos de “partido de protesto” e não “partido da ação” – são afinal realidades que a Plataforma Socialismo de Louçã e Semedo fazem viver na realidade política das forças de oposição. Espera-se o prometido novo sujeito político da esquerda. Está ele numa orgânica renovada como é a do partido de Rui Tavares?

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Da condição humana

Em Portugal há sem dúvida uma distinção entre o comentador político e o teórico político. Isto porque o teórico não se expõe por dificuldade de legibilidade dos conteúdos para a maioria da população. Contudo, a leitura de uma agenda política partidária não deveria ser suficiente para se construir uma posição política. Compreendo que se pretendam encontrar soluções para problemas concretos e imediados, mas o que fica por detrás é todo o legado civilizacional que nos pertence.



Para os romanos, provavelmente o mais político dos povos conhecidos, a palavra “viver” tinha por sinónimo “estar entre os homens” (inter homines esse). É aqui que começa o debate sobre as várias terminologias: a vita activa (labor, trabalho e ação), a contemplação, o discurso (lexis) a polis e o bios politikos. Por um lado absorve-se do pensamento clássico que a mortalidade é a categoria central do pensamento metafísico e que a natalidade, por seu lado, é a categoria central do pensamento político. A ação (praxis), torna-se na atividade política por excelência.

O livro “A condição humana” de Hannah Arendt deixa de lado o pensamento e a razão para se centrar na vita activa enquanto “vida dedicada aos assuntos públicos e políticos”. A ação necessária para manter o bios politikos. O conceito de contemplação surge como substituto da vita activa, principalmente por parte da igreja que defende uma necessária quietude. No entanto, para os filósofos: “Do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude, o que importa é que seja perturbada”.

Quando a preocupação com a eternidade e mortalidade chegou ao pensamento filosófico, Heráclito regista a sua crença de que apenas os melhores se poderão inscrever na eternidade. É um pensamento singular, não encontrado em mais escritos filosóficos clássicos. Contudo, o eterno surge como verdadeiro e o lado divino no homem está na sua inscrição no eterno. Num cosmos onde tudo é cíclico e imortal, o homem vê-se como único elemento mortal. 

Desta forma, a religião cristã que tomava para si todo o ocidente era apologista de uma vida contemplativa, fora da necessidade da vida entre os homens. É aqui que existe a separação entre vita contemplativa e vita ativa. A preocupação com a imortalidade que se sobrepôs a todas as outras está intimamente ligada à queda do Império Romano. Esta demonstrou claramente que nenhuma obra de mãos mortais poderá ser imortal e foi acompanhada pela promoção do evangelho cristão – uma vida individual eterna. Se qualquer busca de imortalidade terrena se tornava fútil e desnecessária, a vita activa e o bios politikos resumiam-se a servos da contemplação. 



“Nem mesmo a ascendência do secular na era moderna e a concomitante inversão da hierarquia tradicional entre ação e contemplação foram suficientes para fazer sair do esquecimento a procura da imortalidade que, originalmente, fora a fonte e o centro da vita activa”. (Arendt, 1958, 33) 

 A ação como prerrogativa exclusiva do homem, depende da constante presença de outros. Aristóteles chamava ao homem animal socialis e já Séneca aceitou como tradução consagrada “homo est naturaliter politicus, id est, socialis” (o homem é, por natureza, político, isto é, social). A vida em societas generis humani – sociedades humanas, traz ao termo “social” a sua posição de condição humana fundamental. Platão e Aristóteles apenas não consideravam que esta condição fosse essencial mas antes uma necessidade da vida biológica. O bios politiko é, de acordo com o pensamento grego, uma segunda oikia (casa) e família. Como se a partir de agora todo o cidadão tivesse duas ordens de existência que não apenas o privado. 

Dividem-se assim aquilo que lhe é próprio (idion) e aquilo que é comum (koinon). Não se tratava apenas de uma pensamento de Aristóteles mas da constatação de um facto. A partir do momento em que surge a polis, ou cidade-estado, ela destrói todas as organizações fundadas à base do parentesco. A esfera da Polis, pelo contrário, era a esfera da liberdade, e se havia uma relação entre essas duas esferas era a de que a vitória sobre as necessidades da vida em família constituía a condição natural para a liberdade na polis. A política não podia ser apenas um meio de proteger a sociedade – uma sociedade de fiei, como em Locke, ou uma sociedade inexoravelmente empenhada num processo de aquisição, como em Hobbes, ou uma sociedade de produtores, como em Marx, ou uma sociedade de operários como nos países socialistas e comunistas. 

Em todos estes exemplos é a liberdade da sociedade que limita a autoridade política. Assim a liberdade é já para a os filósofos clássicos um assunto que se situa na esfera política ou social e que a necessidade é um fenómeno pré-político, característico da organização do lar privado. A violência torna-se assim no ato pré-político de libertação da necessidade da vida para conquistar a liberdade no mundo. 

Contudo, o pensamento político do século XVII acredita que só é possível evitar a violência ao ser estabelecido um governo que, através do monopólio do poder, controle o temor. Pelo contrário, todo o conceito de domínio e submissão, de governo e poder no sentido que o concebemos hoje, assim como à sua ordem regulamentada, eram tidos como pré-políticos, pertencentes à esfera privada e não pública.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

A Primavera Árabe, Dois Anos Depois


O que acontece passado dois anos do início da Primavera Árabe? Algo ficou realmente diferente? Será que houve a transformação de paradigma que tantos de nós esperavam? Será que se pode falar em Excepcionalismo Árabe?
As teorias positivistas das RI levam-nos a crer que o que existia antigamente serve para compreender a realidade, mas isso não se aplica neste caso ao norte de África e Médio Oriente. Um dos principais motivos é o facto de não ter ainda havido a aprovação de novos textos constitucionais. Temos instituições representativas mas para já não podemos falar em transformação uma vez que corremos o risco de um retrocesso. Na chamada Primavera Árabe cada caso foi um caso, e a designação genérica que lhe aplicamos soa mais à expansão de um nacionalismo árabe do que àquilo que realmente foi: uma série de revoltas populares. Temos assim um conceito aglutinador que permite a identificação de um conjunto de processos de contestação, porém limita a compreensão dos casos e especificidades. Apesar de outros levantamentos dispersos (Marrocos, Líbano, Sudão), esta revolta teve uma incidência inquestionável na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Iémen e na Síria.  Uma reflexão mais alargada deveria ser feita quanto às autocracias liberais que constituem a maior parte destes regimes.
O Médio Oriente está dominado por autocracias liberais e por liberais entenda-se economicamente seguidoras dos preceitos do Acordo de Washington de 89. São regimes onde existe um conjunto de fatores interdependentes - institucionais, ideológicos, assim como uma ecologia adaptável à repressão, controlo e abertura parcial.
Daniel Brumberg em "Islamists and Identity Politics in the Arab Spring" defende que a ideologia, a religião mas sobretudo o nacionalismo árabe, diminui a possibilidade de promoção de pensamento alternativo.


Uma noção muito enraizada de legitimidade e subserviência contida nos regimes islâmicos e um sentido de liderança descentralizado não contribuem para a diversidade de pensamentos. Questão vai da Mauritânia-Marrocos até ao espaço geográfico concebido como Médio Oriente - deparamo-nos com estados profundamente centralizados no seu limite, existindo ou não uma estrutura de estado, existe certamente uma centralização da estrutura social. Para além destes elementos, algo a ter em conta é a dimensão geoestratégica entre promoção da democratização e ao mesmo tempo apoio a ditaduras. Não tendo válvulas de escape, estes aspetos são difíceis de gerir - o que pode explicar o que faz sobreviver uma ditadura nesta zona durante 30 a 40 anos. Uma vez que a legitimidade e o poder provém de uma esfera religiosa, ela não está nos cidadãos. De acordo com o Corão, quando os cidadãos percebem que o líder não está a cumprir com as suas responsabilidades do ponto de vista dos preceitos do Islão, podem derrubar o líder: teremos aqui o enquadramento teórico que despoletou mimetismos depois do mártir Mohamed Bouazizi?


A grande diferença entre estados com recursos energéticos e estados sem eles, condiciona enormemente o aparelho externo, isto é, condiciona os seus apoios e refiro-me tanto a apoios de outros estados - Europa, EUA, China - como dos intervencionismos de organizações como a ONU.
A condicionalidade política traduz-se da seguinte forma: quanto mais positivo for o comportamento nas práticas de governação - maior o financiamento. O acordo de paz entre os EUA e o Egito liberta muito dinheiro para o Egito que vive do turismo, das matérias primas, e não tem recursos. O aparelho externo torna-se mais significativo e este apoio estratégico dos EUA sempre controlou os apoio a zonas tão americo-convenientes como Israel. A história das Revoluções Árabes veio pelo menos afetar positivamente esse relacionamento, mesmo que a mudança de paradigma não se possa considerar de todo. Por pressão externa foi criada uma narrativa de legitimação dos estados. 
A circulação a toda a luz da informação dos últimos vinte anos obriga as lideranças políticas a tomarem medidas preventivas em troca de apoio político ou financiamento. A internet e as redes sociais têm o seu papel neste panorama mas ainda não chegam a toda a gente - terá sido mais a criação da estação televisiva Al Jazeera a possibilitar o olhar para fora e a comparação entre modos de viver completamente discrepantes e essencialmente revoltosamente desiguais.



As vulnerabilidades dos regimes por riscos e tensões internas tem consequências imprevisíveis. O Desenvolvimento Humano Árabe indicava que a PA estava prestes a acontecer e são estes meios de comunicação que permitem a mimetização de comportamentos - a capacidade de contaminação das revoltas populares. 
Contudo, como as revoltas não tiveram motivações partidária há uma enorme dificuldade destes partidos políticos existentes assimilarem os mecanismos de contestação pois estes são atos altamente desorganizados. Isso é particularmente visível na Líbia. A revolução na Líbia não tinha qualquer carater associativo, nem do ponto de vista religioso e face a essa desorganização desmorona-se o ideal de qualquer revolta, que é transformá-la numa estrutura governativa.


As monarquias da Jordânia e Marrocos não são afetadas de forma tão brutal devido às suas ações preventivas - com alteração de leis, controlo dos mercados, permissão de entrada condicionada no sistema representativo, etc. No caso da Arábia Saudita e dos Países do Golfo e descontentamento socio-económico não se verifica já que os príncipes do petróleo mantêm a população controlada, o que não acontece na Tunísia ou no Egito, onde os níveis de contestação são elevadíssimos.
Permanece a questão, é a falta de liberalismo da Síria e Líbia faz com que o conflito continue? Se acreditarmos são que os pressuposto para existência de processos de democratização passam por desenvolvimento, classe média e cultura cívica, provavelmente encararemos essa tese da paz pelo comércio como viável, contudo tendo a questionar todos estes pressupostos, sobretudo os que ao liberalismo dizem respeito ainda que compreenda o argumento face à globalização da economia. De uma maneira ou de outra, não parece a mudança de paradigma se tenha feito sentir de uma maneira total nos países mediterrânicos mas a história continua. É aguardar que o tempo a dite. Mas a nossa expectativa de que estes regimes se tornassem democracias liberais ao modo ocidental foram expectativas erradas e que revelam fragilidades do nosso lado.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

A liderança, back to Lord of the Flies

Já tentaram dominar um grupo de pessoas? Um grupo de amigos, um grupo de colegas, um grupo de trabalho. Felizmente nem todos vivemos segundo os moldes culturais americanos e não crescemos com noções claras sobre popularidade mas hoje em dia fala-se muito em empreendedorismo e liderança.


 Eu questiono-me, o que é realmente vital para que a liderança ocorra? Tive recentemente o desafio de criar um método de educação não formal que se enquadrasse no plano da democracia/cidadania. No meu grupo de trabalho alguém sugeriu ter-se como base a história de Lord of the Flies. Um grupo de pessoas encontra-se isolado numa ilha depois de um acidente de avião e diferentes pequenos grupos seguem diferentes lideranças. Para isto dávamos-lhes instruções. A ideia era termos por detrás vários backgrounds ideológicos ou diferentes estruturas de organização social mas dissimulados por uma breve descrição. Para que o role play tivesse mais piada, cada grupo teria diferentes recursos interdependentes, o que faria com que tivessem que chegar a um acordo em relação à liderança. Enfim, acabou por se testar o método que se revelou bastante pedagógico para os envolvidos. Já tínhamos previsto no grupo de trabalho possíveis associações – será que os teocráticos se juntam à democracia, será que os ecologistas cedem à ditadura, no grupo experimental a maioria dos participantes estava com dificuldade em compreender a diferença do grupo no qual nos inspiramos para a democracia e do grupo no qual nos inspirámos para ditadura (de contornos comunistas). Curioso.



Na realidade, no livro que nos deu este fundo teórico apercebemo-nos que quando confrontados com a estaca zero civilizacional, um grupo com frágeis reflexos sociais (como o são as crianças) facilmente cede à selvajaria. Claro que o objetivo deste método em particular era o de instruir para a cidadania e transmitir valores democráticos, preferencialmente aqueles que temos como basilares no velho continente.

Mas do social salto para o pessoal e é tão fácil apercebermo-nos que esse instinto selvagem de cedência ao simples e ao imediato é absolutamente presente. É interessante observar alguém que tenha um instinto natural para a liderança ou, pelo menos, para exercer influência sobre os outros. A forma como o populismo está presente, as ideias fortes deixam de ser assim tão fortes, o controlo das emoções, a compreensão empática da emoção dos outros e a racionalização da resposta esperada. Nada disto constitui o arsenal de conhecimento intelectual que nos fazem acreditar ser o conteúdo essencial para a liderança. Tudo isto requer muita possibilidade de prática mas no meu íntimo tenho a certeza de que há situações de completa impossibilidade. A capacidade de manipular é demasiado instintiva e dificilmente racionalizável. É por isso que esta obra é tão claramente fascinante.
Uma vez que o Piggy representa o espírito intelectual e lúcido dos bastiões da nossa construção social, o verdadeiro líder Ralph tem que ceder muito mais ao espírito massificado e funcionar com base numa certa condescendência. De outra forma, o líder intelectual é automaticamente suprimido pelo líder emocional, aquele que dirige as emoções e que pode (e que o faz tendencialmente) conduzir o grupo para a dissonância – como se diz em termos de inteligência emocional – apatia, paralisação e união pelo ódio. É o que faz o Jack. Bom, depois de ler uma obra destas e com algum espírito crítico e reflexivo facilmente chegamos a estas conclusões e por isso estes cursos intensivos em voga de “coaching” acabem por ser, honestamente, inúteis. Mas como quero manter um bom espírito de liderança, não vou fazer propaganda negativa que possa prejudicar os meus amigos psicólogos. 



Agora a minha reflexão em juntar o plano do psicológico com o da ascensão social ao qual a liderança pode levar, seja em termos políticos ou apenas dentro da nossa empresa ou instituição é o de que, o que é necessário não é necessariamente o que é ensinado.
É uma observação óbvia de se fazer mas menos fácil de expor analiticamente ou que requer pelo menos alguma disponibilidade mental para pensar sobre o que nos rodeia, o que acaba por ser algo que faço instintivamente e não porque tenha alguma meta delineada que me leve a fazê-lo. Isto reflete uma das características de Jack porque o verdadeiro líder é aquele que embarca o grupo naquilo que ele faz por instinto e puro prazer – o dele era caçar, matar, o bloodlust de que nos fala o livro. Mas podia ser outra coisa qualquer.
Na realidade, ter que obedecer a imposições e regras não é propriamente a coisa mais divertida de sempre e isso sente-se. É por isso que, à parte de todas as análises deste livro que é estudado em todas as escolas dos países anglo-saxónicos, a interpretação não é assim tão linear em reconhecer o bom e o mau. Isto porque o bom é alguém que não deixa de estar inserido num sistema e num formato.

Será que há algo de Jack em qualquer pessoa com tendência natural para a liderança? A ideia de símbolo, a noção de pertença/outcast.
É por isso que quando Jack começa a tentar camuflar-se na natureza com as suas pinturas faciais adquire um simbolismo de estilo a que ninguém consegue escapar o fascínio, a noção de pertença através de símbolos que nos fazem sentir maior do que nós, numa profunda ilusão de poder (bem representado mesmo no filme dos 90, o menos apreciado dos dois). Se virmos de um ponto de vista externo, quantos povos se definem por símbolos religiosos, quantas tribos recorrem à exuberância facial de guerra que os camufla com a natureza mas que os define de forma exclusiva para os unir como um grupo.
Quando estão num grupo de amigos e alguém tem um claro sentido de liderança que toca a ambição e a obsessão e o prazer pelo domínio, nunca repararam no tipo de sinais mais ou menos evidentes que surgem como que símbolos que nos identificam como pertencentes ou não? Coisas simples e simbólicas podem começar a minar a criação de subgrupos. Será chocante vermos em nós ou nos que nos rodeiam o poder manipulador que Jack representa?



Talvez esta linha de pensamento que se debruça sobre o descrédito pela ordem pré-definida em prol de uma lógica de poder e de submissão ao poder, no conduzisse a ideias como as da anarquia ou do niilismo no sentido filosófico para nos opormos a isto. Se não há regras e nada faz sentido então não há qualquer motivo para se acreditar na existência. Contudo, há na personagem de Simon uma esperança no valor intrínseco do Homem, a crença na possibilidade de se poder ser genuinamente bom, ou seja, aquilo que entendemos em termos de rótulo por humanismo. Simon é o primeiro a questionar o elemento de medo criado pelo sistema opressor de Jack, a existência de um monstro – o tal elemento externo que reforça o interno. Simon é aquele que não acredita na besta, é absolutamente destemido porque não acredita que tenha muito mais a perder, não acreditar em nada pode também traduzir-se por uma coragem movedora. No livro, este ser em comunhão com a sua essência é destruído pela brutalidade do grupo alienado. Uma prova de que sem a liderança correta, tudo pode ficar negro.



Há quem tenha recentemente comentado a semelhança deste livro com o recente The Hunger Games – que inevitavelmente vem associado ao Battle Royale. Mas não vejo o porquê da relação. Provavelmente só fazem este paralelismo para abordar o tópico das definições das idades da audiência em que os argumentos passam por: “Já que deixamos as nossas crianças analisarem na escola livros como Lord of the Flies, porque não deixá-las ver o The Hunger Games?” Na realidade, nem HG nem BR têm muito em comum com LOTF. Os primeiros têm em comum a crítica mediática, o conflito geracional, a ulta exposição e o sadismo de uma sociedade orientada para uma glamourização da violência. LOTF é uma reflexão pura sobre as dinâmicas de grupo e a fragilidade dos nossos sistemas democráticos, consensualmente os melhores ainda que, em perspetiva, ainda não perfeitos.



A reflexão real é em que medida esta luta pela liderança não é apenas mais uma forma de integrar um sistema perante o qual espíritos críticos vêem necessidade de reforma. Alimentar a noção de competitividade como solução, é de facto um caminho viável? Até que ponto precisamos da condescendia e, acima de tudo, até que ponto precisamos de ordem e até onde pode ir o nosso caos se ele representar uma superioridade intelectual definida – dialética de Marx, (não marxismo) ? Uma coisa é certa, sinto-me inserida numa linha de pensamento que se expressa por um lado pelo idealismo e por outro pelo pragmatismo decorrente da condição humana efémera, sem que dela derive um incontornável egoísmo já que há um sentido de comunidade que nos é intrinsecamente necessário. E quanto mais tentamos anular o nosso ego, é quando ele mais parece brilhar. É por isso que de todos os elementos representados no livro, o Simon é provavelmente aquele que me descreveria embora em quase tudo o que faço as reações convergem para o líder socialmente equilibrado que é Ralph. É o meu nível de fachada, é o meu nível de fazer o menos pior, num mundo onde o idealismo acaba por ser fatalmente confrontado com a morte da inocência.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Os conflitos internacionais e a moda



Quando passo em frente à sede do Bloco de Esquerda em Leiria penso sempre no quão talentoso é o partido para arranjar humoristas e designers. O merchandise é pormenorizado. T-shirts, pins e panfletos em geral satirizam situações e tentam transmitir a mensagem do partido. É engraçado mas na sua essência não passa disso: uma piada. O BE é um partido que tão jovem não se consegue descartar desta forma de protesto pelo gozo. Não acharia grave se os dirigentes não enveredassem por aí, mas infelizmente enveredam um bocado. Pessoalmente, compreendo o formato da campanha para ser mais apelativo mas acho que descredibiliza o partido quando o pensamos inserido na sociedade conservadora e envelhecida que é Portugal. Tem a mesma incapacidade de comunicar com os adultos como os adolescentes a têm e até os jovens adultos que se sentem a viver num planeta alheado do dos avós. O partido político deve precaver-se mais desta aversão geracional provocada por uma mera fachada, afinal os pins do Che Guevara e as piadolas com a troika não são relevante, relevantes são os programas partidários e as propostas para alteração de leis apresentadas em parlamento. 

Mas bom, isto para apontar para um dos pins que mais me fizeram sentir o romantismo da nossa esquerda. O pin pró-palestina. É interessante como a dimensão dos conflitos Israelo-Palestinianos se propagou. Quase toda a gente tem noção de que aquilo tem para ali uns conflitos sanguinários. Numa pesquisa mais aprofundada vemos que há muitos outros sítios do mundo com conflitos armados graves dos quais nunca ouvimos falar e dos quais não queremos tomar partido. Neste sim e a principal razão será provavelmente por causa de termos um apoio americano metido ao barulho. Não tenho a pretensão de escrever sobre este tópico em particular porque há para isso analistas e muitos calhamaços de opiniões e perspetivas sobre o assunto. Quero apenas falar da minha experiência pessoal.
Estando envolvida em associativismo que lida diretamente com as políticas europeias no campo da juventude (uma pequena fração de apoios da CE para organização de encontros juvenis internacionais) recentemente tive a oportunidade de estar num seminário que lida com um novo frame destas políticas. O da integração dos chamados Meda countries – os países mediterrâneos. É só por si uma designação abrangente – desde a Tunísia a Israel, passando pela Turquia e Malta, muitos países estão abrangidos por este enquadramento que se quis lato para facilitar cooperação dentro destes projetos. Neste seminário conheci um rapaz muito simpático chamado Roi. Para quem acaba por cair neste clash político com as melhores intenções do mundo ligados à energia da juventude, era difícil ver no meu amigo mais do que uma pessoa animada e divertida, com uma tendência estranha para se rir de tudo à sua volta como que nervoso com as reações dos outros. No meio dos nossos mecanismos de defesa naturais no processo de socialização a maioria das pessoas esquece-se de enquadrar a identidade dos outros num ponto de vista mais do que psicológico, mas nacional. O Roi é israelita e vive em Tel-Aviv. No seminário estavam alguns europeus e muitos árabes.

O seminário decorreu em Portugal porque somos um país neutro, não temos uma variedade étnica enorme e a nossa comunidade de muçulmanos ou de judeus é reduzida. As minhas alunas indonésias não estavam a dizer com leveza que não tinham escolhido França para os seus estudos porque queriam usar o véu à vontade. Estavam a falar bem a sério. É o nosso temperamento brando e amigável. Todos são bem-vindos e não nos metemos com ninguém. Também há coisas boas por cá!
Isto se a neutralidade não estiver intimamente ligada à insignificância, mas seria outro tópico! Entretanto, nestes programas que têm prioridades delineadas e que por isso atraem pessoas com perfis específicos, tenho conhecido algo que em Portugal nunca vi e não sei se existe, jovens académicos especialistas no médio oriente. A minha experiência com os estudos asiáticos e sobretudo com a China já me deu uma perspetiva genérica de como os estudos internacionais se encontram subdesenvolvidos em Portugal. Os estudos chineses, por exemplo, em estado de maturidade avançada em muitos outros países europeus, assim como nos Estados Unidos, ainda se encontram na sua forma embrionário ligeiramente exotérica em Portugal. Felizmente a economia veio aí impor a sua importância no meio do academismo e a língua chinesa já se ensina e já se estuda com a seriedade de qualquer outra.

O estudo do árabe, no entanto, ainda não tem uma aplicação prática tão evidente neste mundo de capital e por isso é apenas semi-existente. Existe enquanto língua e pouco mais. Um amigo polaco dizia-me que eu era realmente extraordinária porque ele nunca tinha encontrado alguém do sul da europa que percebesse patavina de política internacional. Não soube se devia ficar contente com o elogio pessoal ou ofendida com o preconceito. Depois da Merkel nos ter chamado preguiçosos, oficializando assim uma distinção bairrista norte-sul, custa sempre ouvir os northerns dizerem seja o que for sobre nós. Mas será uma realidade? Claro que no leste e no norte se fala mais de política, se o trauma deles é tão recente, existe neste momento uma geração pouco mais velha do que eu encontrada a crescer entre transições de sistemas que se traduzem em transições de realidades. E quando pensamos na Polónia só temos pena. Mas o certo é que ainda não foram atingidos com esta onda anti-sul dos mercados e das economias internacionais, pelo contrário, estão a crescer e o facto de não terem aderido ao euro talvez seja relevante (!). “Falar de políticas é o dia-a-dia do norte” dizia ele enquanto me descrevia a forma como o avô era popular durante a guerra fria por ser o homem que tinha papel higiénico.
Agora o porquê deste nome do artigo. Depois deste seminário com os países mediterrâneos num meio a este semelhante conheci a Reem. Simpática e divertida, veio representar o Reino Unido mas na noite da comida intercultural presenteou-nos com comida da Palestina. A Reem é palestiniana a estudar em Oxford e foi o que me disse quando nos encontrámos pela primeira vez. Não me lembro como reagi em concreto mas sei que a assustei um bocado. Não tendo o que dizer e querendo dizer algo ao fim de dois dedos de conversa em privado disse-lhe ‘Eu apoio a vossa causa’. Ela olhou para mim com um ar cansado e agradeceu ou tentou agradecer. Não era desprezo mas sei que não gostou da minha associação imediata. 



Mas era demasiado pouco tempo e eu tenho demasiada curiosidade. Aprendo mais com as pessoas do que com os livros e a minha provocação acabou por ser consciente. No dia a seguir passou-me um livro para mãos – ainda tínhamos uns dias juntos – “I Shall Not Hate” de Izzeldin Abuelaish. “Agradeço o interesse. Muitas pessoas na Europa não têm sequer consciência e não temos advogados internacionais. Mas não acredito em divisões” depois de vários dias com as mesmas pessoas a falar de temas complexos e que apelam ao nosso lado mais emotivo, os laços estreitam-se. É um efeito big brother mas intelectual. Passei muitas horas a falar com a Reem e tudo o que ela me disse vai ao encontro daquilo que li no livro que me recomendou. Não há anti ou pró. Os ativistas que tenho conhecido têm-me familiarizado com o conceito da coexistência. Trabalhar para a paz nunca é tomar uma posição de ódio e é essa mensagem de Izzeldin. Tendo crescido num campo de refugiados na faixa de gaza, Izzeldin descreve neste livro como acreditou no poder da educação para melhorar a sua situação pessoal num primeiro nível e a situação do seu povo, num segundo (ou a tentativa de). O livro relata a sua experiência de vida e deixa-nos mergulhar no terror que é conviver com o terror. Coisas simples como passar as fronteiras ou obter tratamento médico adequado. A forma como teve que abandonar a casa por ordem israelita, a discriminação. Mas aquilo de que Izzeldin fala também é do conservadorismo do Islão, da desigualdade dos géneros, da forma como a mãe era ostracizada por não ser a primeira esposa do marido e como ele conviveu com isso. A bombista suicida que se armou para tentar explodir um hospital em Israel onde Izzeldin e médicos israelitas a tinham ajudado a tratar-se. A forma como o Hamas cria conflitos civis armados e instala o terror no território palestiniano. Ou seja, o que vemos aqui é uma perspetiva não sectária, não há partes definidas no branco e no preto de quem deve ganhar ou perder porque não há vitórias. Há uma situação complexa.



É inevitável que conhecendo o dia-a-dia de um campo de refugiados em gaza não nos indignemos contra a ocupação brutal de Israel, com a prepotência, com tudo aquilo que representa na luta das classes, o embargo, a humilhação, a forma como ocuparam um espaço e o tornaram fértil injetando-lhe dinheiro à custa do lobbismo americano enquanto alimentam descaradamente um estigma à volta daqueles que inevitavelmente, no meio da miséria, não lhes conseguiram evitar o ódio. Este médico, contudo, acredita na coexistência e ao longo do livro aponta constantemente para a forma como os árabes e os judeus têm muito mais em comum do que de diferente. É um tratado filosófico onde demonstra que, apesar de toda a tragédia que lhe rodeia a existência desde que nasceu e que culmina no bombardeamento do quarto das filhas, é parte da natureza humana ser-se genuinamente bom e positivo. É um relato de vida comovedor que para muitos pode não passar disso mas que para mim é a representação ideal daqueles que têm colaborado com todas as suas forças para formar uma ideologia de coexistência e não de ódio. Ser pró-palestina pode estar em voga mas o que nunca deveria estar em voga é a imaturidade e as ideias formadas a partir de meia dúzia de websites com teorias conspiratórias e explicações simplistas que tocam o antissemitismo. Isto porque o entendimento das religiões em si não devia sequer ser confundido com as etnias ou as várias formas de aplicação socio-política, ainda que religiões como o Islão possam estar orientadas para essa vertente de organização social – como o confucionismo o está, por exemplo. Mas são este tipo de coisas que me irritam nos militantes mais extremos – como o eram os Roptura/Fer com as suas ideias de se juntarem a milícias talibãs no Afeganistão. Contudo, não sou feminista para a seguir vir defender estados islâmicos conservadores. Não sou democrática para a seguir vir manifestar a minha simpatia por tiranias por oposição ao apoio que o capitalismo americano que lhe faz. É isso que às vezes me chateia nos pins pró-palestina, esta ideia por detrás de que as coisas podem ter explicações simples e uma fação clara. A minha ideia é a mesma que a deste senhor levemente desconhecido mas que tanto fez por esta causa: militem se querem militar, mas militem pela paz.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O Pensamento

Fui parar à educação não formal de para-quedas. Aliás, fui parar à educação de para-quedas. Quando dei por mim, estava do outro lado da sala. Os papéis invertem-se e o mundo que pensamos conhecer, passa a ser algo de completamente novo. Não é que não seja uma realidade que deixo de encarar como natural, é quando automaticamente nos propomos a fazer aquilo que sempre achámos que deveria ser feito e é aí que surge verdadeiramente o desafio, confrontamo-nos com a condição de preceptor nos mais variados aspetos: éticos, formais, cívicos e, obviamente, pedagógicos. Os jovens professores tendem a seguir os modelos que tiveram. O que é natural. Toda a construção é um conjunto de influências e uma aula é uma construção. Mas não vou entrar por discussões pedagógicas, não é sequer a minha praia, há muito escrito sobre a teoria da pedagogia, andragogia, entre outros. Muitos métodos, muitas técnicas, aquilo que qualquer pessoa aborda quando tira um CAP – mas que infelizmente pouco ou nada tenta em termos de aplicação experimental do que aprende.



Mas muitas vezes senti que o facto de ter ido parar ao ensino sem o ter propriamente planeado foi uma espécie de provocação do destino que me quis pôr à prova, sendo eu uma aluna tão crítica e, por vezes, severa e intolerantemente crítica, foi como se me dissesse “então e agora, na hora da verdade, achas que vais realmente fazer melhor? Vais marcar a diferença?”. A aprendizagem do formador é também uma forma de aprendizagem. Aprender a ensinar passa por uma aprendizagem. Aprendi numa formação de educação não formal que Kolb fala do Experiential Learning. Da experiência concreta passa-se à observação e reflexão, formam-se conceitos abstratos e isso conduz naturalmente ao teste de situações novas. Ensinar passa basicamente por isto. Por uma aprendizagem constante daquilo que é o ensino daquilo que é o método. Acredito que a ética, as formalidades são algo que se vai estabelecendo, mas a forma de chegar aos alunos com eficiência é um processo que de tão complexo se torna um permanente study case. Uma das coisas mais relevantes que aprendi num treino sobre educação não formal foi que o Mentor/Professor/Perceptor/Trainee (como lhe chamam internacionalmente quando se referem a educação não formal) é alguém que terá que conduzir um manancial de condições psicológicas e conseguir lidar com elas. Isto é, o meu perfil – mais concreto, experimental ou então não, mais abstrato e conceptual – terá que ser equilibrado com os inúmeros universos psicológicos que terei à minha frente.



Mas o meu objetivo com este texto é questionar, o que é a formação? O que é a qualificação, o que é conhecimento? Não foi em vão que comecei o texto com a expressão ‘educação não formal’. Em termos teóricos e políticos a educação não-formal é algo que é implementado através de políticas de apoio do estado ou de estados membros, como o caso de projetos apoiados pela União Europeia em secções que preveem um acesso livre ao conhecimento e à experiência multicultural de forma a promover o humanismo e a aproximação das pessoas. Tudo isto munindo as pessoas de saberes e conhecimentos não certificados. É educação não formal. Posso ter aprendido bastante sobre uma determinada área – normalmente humanística, política ou de outro caráter multicultural e social – mas ninguém me dá um diploma que seja academicamente válido. É um pequeno extra num currículo mas não é formalizado. Numa altura em que o debate sobre a Europa está na ordem do dia e em que mais do que nunca Portugal parece vitimizado pela sua pertença a este sistema que está neste momento a colapsar e a desviar-se completamente dos seus objetivos fundadores, estes apoios de privilégio ao multiculturismo, sensação de pertença a um universo global estão à beira da extinção. E porquê? Qual é o valor das ideias no mundo atual? Aceitamos que não passamos de produtores de bens e serviços. “Não são coisas práticas” diz alguém numa conversa de café e dizem muitos políticos à frente destes estados membros. Seria interessante que se conhecesse que foram estes programas em parcerias com os países árabes mediterrâneos com os quais temos parcerias que despoletaram, por exemplo, grande parte da consciência política que levou à primavera árabe na Tunísia. Se isto não é mudar o mundo pelo pensamento, então é o quê?



Acaba por haver esta necessidade de sistematização permanente, institucionalização permanente. Esta época acabou! Estamos na época do acesso facilitado ao conhecimento. Educação não formal? Estou a utilizar uma neste momento. Mais acessível ainda porque é de todo gratuito, é o acesso a uma biblioteca. A educação não formal passa por uma iniciativa coletiva mas também individual. A informação está aí, mais disponível do que nunca. Não deixamos de ser multados por um polícia por alegarmos não conhecer a lei e não podemos no mundo ocidental deixar de ser culpados pela nossa própria ignorância. Se não sabemos foi porque não quisemos saber. A maioria dos problemas sociais na história do mundo, adveio da ignorância.
Em Portugal, há muito esta tendência de sobrevalorizar graus, sobrevalorizar títulos. É como que uma forma de arrumar as coisas em caixas de uma forma simples, que todos possam perceber. Acredito na especialização, na qualificação científica e académica nos moldes clássicos mas acredito, essencialmente, numa incitação à curiosidade, incitação ao espírito crítico, à criatividade e à lógica racional no seu sentido mais filosófico. Sim, no sentido filosófico! Tenho ouvido tantas conversas de gabinete sobre a “pouca importância pragmática de certas disciplinas”. Claro que não vamos desviar cursos a cem porcento os objetivos tecnológicos de uma formação mas o valor das ideias é algo que não advém de nenhuma massificação do ensino. Uma professora numas jornadas de línguas aplicadas em que participei dizia “Ao fim dos vários doutoramentos, percebi que a minha capacidade profissional estava principalmente relacionada com o meu fascínio pelo ballet desde os 6 anos”. O pensamento, a reflexão conduzem-nos para a construção. Somos mais competentes quanto mais racionais, quanto mais conscientes somos da realidade que vivemos, quanto mais enquadramento teórico lhe damos. Não é por acaso que esta Professora que ouvi e tanto admirei numa palestra e com quem não tinha qualquer contacto, tal era o distanciamento que o respeito por ela me provocava, se veio a revelar minha colega de trabalho, meses mais tarde, pelas circunstâncias. Pelas circunstâncias mas há uma consequência natural da incitação ao pensamento, aqui ilustrada desta forma.



Depois há aquelas pessoas que acham que uma pessoa só se preocupa com uma condição social quando é miserável, são os defensores da inveja. Meus caros, não, não é por ter preocupações sociais que isso significa que eu pessoalmente vivo em condições menos privilegiadas dos que as vossas. Se repararem ao longo da história da humanidade e do estudo da sociologia, as principais revoluções sociais advieram dos filhos dos burgueses. Aqueles que tinham acesso ao conhecimento e que não suportavam as ideologias dos pais. Na minha vida pessoal posso estar feliz, na minha vida enquanto cidadã tenho um dever de velar pelo estado do mundo em geral e do meu espaço em particular. É um dever cívico, são os valores da democracia, são os valores do estado de lei que fomos conquistando ao longo de milénios. Isto não é pessimismo.
Depois são estas coisas que me levam a odiar discursos motivacionais baseados em formas ilusórias de perspetivar a realidade e que desprezam visceralmente o meio que os rodeia e chamam isso “ótica otimista” e que depois se revelam esquemas maquiavélicos que se aproveitam da ingenuidade dos arrivistas (coisas como a ACN do Donald Trump, entre outras coisas desse tipo). Não há otimismo nem pessimismo. Há uma avaliação analítica das circunstâncias e uma visão concreta de como podemos contribuir.
Não é preciso ter um grau académico ligado à política, nem às relações internacionais, nem à história nem ao cinema e, no entanto, posso elaborar o meu pensamento, posso expô-lo perante os factos que possuo, as deduções que faço, as ligações que construo, posso dissecar, membro a membro, todos os alicerces que compõe a minha forma de perspetivar o mundo. E isso é algo que nem todos os professores vão transmitir mas é o que vai estruturar a nossa realidade. Posto isto, a educação tem o papel que tem, social, estrutural mas o valor do pensamento e das ideias vale por si só, não requer um prestígio devidamente institucionalizado por um título. E um título sem conteúdos, é precisamente isso, um título, e qualquer cidadão tem todo o direito de pôr em causa o que esse título nos tenta transmitir como verdade única.

domingo, 25 de dezembro de 2011

Is This Christmas?

Prendas caríssimas, comida e muita champanhe a acompanhar discussões familiares sobre perspetivas completamente opostas sobre o mundo em que toda a gente acaba aos gritos. Natal... :)

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

15 de Outubro: Indignados

About 50,000 people took to the streets of Lisbon. "We are victims of financial speculation and this austerity programme is going to ruin us. We have to change this rotten system," 25-year-old Mathieu Rego said in the Portuguese capital.
IN NZHerald
http://www.nzherald.co.nz/world/news/article.cfm?c_id=2&objectid=10759493 














http://www.skynews.com.au/world/article.aspx?id=674096&vId=2779385&cId=World
http://www.elpais.com.uy/111015/ultmo-600005/ultimo-momento/presos-y-heridos-en-primera-jornada-mundial-de-los-indignados-/
http://paktribune.com/news/Global-rallies-against-capitalism-244403.html
http://www.nzherald.co.nz/world/news/article.cfm?c_id=2&objectid=10759493
http://www.theaustralian.com.au/news/world/violence-mars-worldwide-anti-greed-protests/story-e6frg6so-1226167981510
http://www.lematindz.net/news/5846-indignes-de-tous-les-pays-unis-dans-la-rue.html
http://www.15min.lt/naujiena/aktualu/pasaulis/kaip-pasipiktinimas-krize-virsta-pasauliniu-judejimu-mes-esame-finansiniu-spekuliaciju-aukos-57-175024
http://nld.com.vn/20111016103857830p0c1006/the-gioi-soi-suc-chong-thoi-tham-lam.htm
http://feeds.univision.com/feeds/article/2011-10-15/violencia-en-roma-en-la-1?refPath=/noticias/ultimas-noticias/
http://www.freiepresse.de/NACHRICHTEN/WELT/Krawalle-ueberschatten-weltweite-Proteste-gegen-Banken-artikel7790503.php
http://www.lhrtimes.com/2011/10/15/rome-clashes-mar-global-day-of-protests/
http://mobile.shanghaidaily.com/article/?id=484874
http://eupolitics.einnews.com/montenegro/
http://pressenza.com/npermalink/italiax-marcha-dos-indignados-deixa-70-feridos-e-12-detidos
http://www.interaksyon.com/article/15255/anti-crisis-anger-turns-into-global-movement-against-greed
http://www.france24.com/en/20111016-anti-capitalist-protests-turn-global-movement-1
http://www.naharnet.com/stories/en/17630-anti-capitalist-protests-turn-into-global-movement
http://www.onlinenews.com.pk/details.php?id=184661
http://www.asianage.com/international/rome-clashes-mar-global-day-protests-883
http://uk.finance.yahoo.com/news/Rome-clashes-mar-global-day-afp-3535894299.html?x=0


http://bourse.lalibre.be/actualites.html?id=20111015T175222Z&genre=AFP&ticker&pays&source=afp