Um ser é um universo e os universos possuem recantos, por
vezes difíceis de encontrar porque muitas vezes inexplorados. Em última
análise, conhecer alguém é uma forma de invasão. Mas a descoberta deve ser prudente,
uma vez que qualquer aventura implica riscos. Quando o corpo viaja, a mente
antecipa-se e viajar é atravessar diversas paisagens humanas. Tendemos a
analisar a diversidade comportamental com a localização geográfica. Aprendemos
a evitar estereótipos mas somos seus cúmplices, a mente humana vai
inevitavelmente procurar padrões, mesmo que esses padrões existam apenas numa
tese, uma hipótese formulada racionalmente para nos ajudar a apreender aquilo
que observamos. Dividimos esses estereótipos em grupos vizinhos. Faz sentido
porque a socialização é feita de várias fases miméticas, assimilamos e
reproduzimos e dessa forma comunicamos. É aí que nos encontramos. A distinção é
aqui uma forma de reencontro com o ser que nos habita, também ele complexo e
infinitamente inexplorado. A viagem, no seu sentido mais purista, não pode
deixar de ser uma expedição da alma, tanto à procura do eu como do outro e que
resulta numa combinação que se torna gradualmente indistinta. Em cada pessoa diferente existe um elo comum, mesmo que essa descoberta possa representar um desafio. As diferenças culturais e a análise sociológica explicam apenas uma parte da complexidade da psicologia humana. Há um misticismo
inerente à viagem porque é a área do desconhecido mas esta percepção não deve
ser ingénua: sair é desconforto e a realidade é que esse desconforto é
precioso. Apenas não temos a capacidade de apreciar o desconforto a curto
prazo. Há uma lentidão necessária, nem sempre agradável. Sabemos o que somos
por oposição ao outro enquanto descobrimos que essa oposição é paradoxalmente
inexistente ou pode existir mas apenas enquanto tese. Somos únicos e somos toda
a possibilidade.
segunda-feira, 22 de dezembro de 2014
domingo, 7 de dezembro de 2014
Comentário é conteúdo
Neste post não vou refletir sobre o carater aleatório deste
blog, embora a minha mente tendencialmente organizada me faça sempre começar
por aí. Talvez tenha que assumir que este espaço não tem propósito intelectual
mas antes um propósito emocional, sou eu que me conecto comigo. Para mais, nos
dias de hoje, “comment is the content” e estou a citar o último episódio de
South Park, já disponível online, e se aparece em South Park, é porque é
oficial. E é verdade, é tão verdade para o meu sobrinho de 6 anos que é viciado
em comentadores de jogos no youtube, como é verdade para todo o tipo de
informação que recebemos hoje em dia. Eu acho que com isso – não sei se gosto
muito desta forma do meu sobrinho passar grande parte do seu tempo – mas é
verdade que o aumento da influência da socialização das redes disponibilizou
para o utilizador uma leitura de várias camadas, mais transversal, espontânea e
livre. De facto, o comentário ao conteúdo é conteúdo por si mesmo. Isto faz com
que o conteúdo esteja sempre em permanente vigilância e acredito que há valores
positivos que advém desta nova experiência – nunca vi tanta denúncia de misoginia
presente em livros, filmes e músicas como vejo agora pela internet a fora.
Parece que todos somos convidados a opinar e essa massa opinativa tem também o
propósito de ser geradora dos próximos conteúdos, desejavelmente adaptados às
exigências com que se depara. Nunca foi tão fácil perceber o que pensa o
consumidor final dos produtos culturais.
Começo a notar que o mês de Dezembro é muito profícuo em
reflexões. É uma espécie de melancolia metódica que coincide com o fim do ano
civil. Serão as luzes fluorescentes nos pinheiros? Será o Pai Natal um espírito
de uma realidade com 5 dimensões onde o tempo é não só um círculo plano como a
parte de trás de uma estante – é tão lamentável mas eu fico sempre …
entusiasmada… vamos dizer assim, com estas MMR (Matthew Mcconaughey References).
Também é uma fase em que fico muitas vezes com tempo livre e não preciso de
dormir e assim sendo posso instruir-me mais tanto passiva como ativamente
através da escrita que é, essencialmente, uma questão de prática como as
outras. Ou até através de uma atividade que faz muito bem que porventura pessoas que leem
este blog, certamente não praticam o suficiente que é o convívio com pessoas,
tipo sair com elas e conversar, como todo o tipo de pessoas em termos de feitio, idade,
nacionalidade, orientação sexual, etc e nem sempre recorrendo a estupefacientes
ou álcool para o efeito. Nem sempre, mas às vezes ajuda. Viajar também é uma
forma ativa de reflexão mas é sempre diferente se se viaja sozinho/a ou se viajamos a dois ou com grupos de pessoas
e atividades definidas. Todas estas condutas são bem-vindas para alimentar o
bichinho do pensamento que é uma forma querida e quase infantil de dizer preencher o vazio existencial camusiano que invade inusitadamente os sentidos na quadra festiva.
É provável que eu venha a escrever novamente em breve mas se
não acontecer, lembrem-se de ter um período festivo repleto de todas estas
dicas que vos dei: boa continuação de produção de não-conteúdo
para todos!
domingo, 16 de novembro de 2014
Nightcrawler / Repórter na Noite: provavelmente o melhor filme de 2014
Um sociopata é uma pessoa incapaz de sentir empatia. A
empatia é o que nos permite identificarmo-nos emocionalmente com os outros, é o
que nos faz ter sensibilidade emocional e é a base para nos relacionarmos socialmente.
Clinicamente, os sociopatas são incapazes de dar respostas emocionais ajustadas
às situações, por outro lado, são dotados de uma grande habilidade intelectual
e, apesar de não serem capazes de dar repostas emocionais adequadas, a sua
capacidade racional apetrecha-os de um dom muito próprio de mimetismo dos comportamentos humanos, o que os ajuda a misturarem-se sem serem identificados. 4% da
população americana é sociopata, mais ou menos 12 milhões de pessoas. O que é
que esta gente faz? Eu acho que muitos deles estão provavelmente à frente de
cadeias televisivas e jornais de algibeira. Tendo em conta que o sociopata se
conduz por instintos de megalomania e arrivismo extremo, é bem provável que
muitos deles cheguem a lugares de chefia.
Quando acabei de ver o Nightcrawler a realidade à minha
volta parecia distorcida, foi como se tivesse visto um filme de terror. Olhei para
a mulher ao meu lado na casa de banho a lavar as mãos com alguma suspeita. Afinal,
quem são os sociopatas desta sociedade que desfilam com impunidade perante
todos nós? Mas este não é um terror de uma faca atrás de uma vítima, é um
terror psicológico, cinematograficamente impecavelmente estilizado a
transbordar humor e ainda assim refletindo uma realidade tão estupidamente próxima
e familiar. O filme explora o ambiente suburbano de Los Angeles mas podia
explorar qualquer outra grande cidade, podia ser sobre a Damaia ou os Olivais. É
bastante negro e bastante gráfico. Críticos alegam que esta sátira ao lado
macabro dos media não é novo, já foi feito, pois eu acho que precisávamos de
mais um olhar sobre isso neste ano de 2014 e foi isso que este filme fez. Uma exposição
do que de mais grotesco encontramos entre as pessoas que dirigem as imagens que
nos chegam a casa todos os dias pelo pequeno ecrã, com interpretações brutais,
um ambiente noir, estilo Drive, estilo Taxi Driver mas com um protagonista distinto,
um Jake Gyllenhaal a transpirar carisma numa atuação brilhante.
Este é um filme de diálogos de culto que destrói a dialética
do sucesso na nossa época: pega nela, espezinha-a e arrasta-a pelo chão a
sangrar. De facto, não sei o que me perturbou mais: se o grafismo dos corpos
assassinados ou a linguagem corporativa do Lou Bloom, ambas as coisas são
macabras. Entre uma fratura exposta ou
alguém a dizer-me como me devo comportar em sociedade para atingir o sucesso, venha
o diabo e escolha!
Acho que o perfil do sociopata está extremamente
bem definido na personagem principal, assim como na diretora de emissão (Rene Russo). Os
diálogos deliciosamente escritos mergulhados em humor negro a cinematografia
das perseguições, são alguns dos elementos que fazem deste filme provavelmente o
melhor de 2014.
Para o ver numa sala de cinema, tive que me dirigir a um Cinema City, acho que devia estar melhor divulgado. Em Lisboa não terão certamente problemas em encontrá-lo, o mesmo não se pode dizer em relação ao resto do país.
Para o ver numa sala de cinema, tive que me dirigir a um Cinema City, acho que devia estar melhor divulgado. Em Lisboa não terão certamente problemas em encontrá-lo, o mesmo não se pode dizer em relação ao resto do país.
Acho que todos os defensores do empreendedorismo de cordel e
dos ideais puros da ideia de “self-made men” possam sair deste filme a dizer:
“Who am I?
I'm a hard worker. I set high goals and I've been told that I'm persistent. Now I know that today's work culture no longer
caters to the job loyalty that could be promised to earlier generations. But I
believe that good things come to those who work their asses off and that good
people who reach the top of the mountain, didn't just fall there.”
Lou Bloom
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sábado, 22 de fevereiro de 2014
Os Chineses que investem em Portugal e o racismo português que investe em chatear-me
O que há de realmente polémico em relação a esta nova
legislação sugerida por Paulo Portas no início do ano transato? Se existe
efetivamente alguma dúvida ética no que concerne a este formato que conjuga
investimento com um pacote de acesso livre ao espaço Schengen ela pode começar
pelo visto de residência e acabar no questionamento dos princípios da
república, pois existe a possibilidade de obtenção de um passaporte português
mediante determinados requisitos – como o linguístico. O que é interessante em
toda a mística dos vistos dourados é que ela advém em grande parte devido à
ignorância que existe em relação à legislação em geral. Não enveredando
exclusivamente por uma lógica histórica, dando a conhecer os países por este
mundo a fora que adotaram legislações dentro do mesmo domínio, renego-me à perspetiva conceptual.
Salvaguardando o facto de Paulo Portas não ter feito mais do que copiar o que
alguém lhe recomendou.
Conceptualmente, a aquisição de um bem imobiliário conduz
necessariamente a uma noção de residência. Quando essa noção de residência embate
em políticas nacionais e transnacionais de circunscrição de um cidadão à sua
área soberana, a liberdade individual do sujeito que, a) deve ter liberdade de
escolha em relação ao seu país de residência e b) tem liberdade de investimento
ativo e de aquisição de produtos em qualquer parte do globo de acordo com as
leis do comércio internacional, é de liberdade que estamos a falar. Emigrar não
é fácil mas é muitas vezes desejável. Na atualidade, quantos portugueses sonham
em emigrar para um país menos corrupto, um país onde existe uma conservação do
estado social, onde o que se consegue amealhar pode vir a constituir património
ou nem chegando a isso, onde trabalhar sirva, em último caso, para a sua
sustentação. A vontade de partir para uma realidade mais aliciante pode ter
várias origens, sendo que a ascensão social se afigura como motivo primário
numa análise superficial. Sim, é difícil partir quando a instabilidade financeira
se impõe. Difícil é também partir quando as restrições políticas assim o
impedem.
Suponhamos que um português de classe média decide mover-se
para outra parte do mundo para investir num futuro mais lucrativo. É justo. Não
vou negar a vertente capitalista deste enquadramento, vivemos em liberdade de
movimento mas também de capital. Para quem toma a democracia por garantida é
difícil pôr-se no lugar daqueles a quem a liberdade de expressão ainda não foi
dada, aqueles que ainda vivem ao albergue de estados opressores, que nascem
debaixo de céus menos abertos. Não escolhemos onde nascemos e não escolhemos a
que leis do poder nos sujeitamos.
A sensibilidade às discrepâncias sociais deveria ser uma
aptidão inata ao ser que olha em seu redor. Mas quando falamos em vistos gold
para apontar problemáticas marxistas estamos a misturar alhos com bugalhos. Acredito
na emancipação através do capital, foi a única que até agora promoveu o
bem-estar social assim como o desenvolvimento tecnológico e científico desta
espécie em permanente conflito e evolução que é o ser humano. Há perspetivas
ideológicas específicas para esta matéria.
Quando permitimos a um cidadão chinês que circule no espaço
Schengen seja a título pessoal, seja a nível comercial livremente, estamos a
conferir liberdade, a mesma que nós enquanto filhos da república portuguesa
temos. Estamos a partilhar valores que a custo conquistámos. E perguntamo-nos:
então, devemos dar asilo político a todas as populações de todos os regimes
totalitários do mundo? Seria simples, não seria? É teoricamente impossível em
qualquer cálculo, não nos divaguemos em realidades imaginárias. Com 500.000
euros cidadãos fora da UE podem obter liberdade de circulação no espaço
Schengen. Fomenta a indústria imobiliária, promove a integração transnacional,
fortalece laços diplomáticos. Infelizmente, para nós é muito dinheiro pelo que
nos esforçamos por captar este investimento de forma extraordinária – estudamos
mercados, construímos produto, formamos para o acolhimento de uma captação de
investimento de fontes com as quais ainda lidamos pouco – como o é o
investimento chinês. Os atritos que
surgem no seio destes cenários de mudança são precisamente as forças que muitas
vezes são obstáculos à mudança. Visões simplistas como a de se comparar nos
mesmos termos um imigrante de um pequeno negócio local com o imigrante que
aproveita determinado enquadramento legal para certos movimentos financeiros,
aliás, ambos estão a aproveitar os enquadramentos legais de um país dispõe. Sou
uma mulher de esquerda porque tendo a concordar com políticas de integração
social, mais do que com políticas da acumulação anárquica e descontextualizada
do capital mas jamais assumiria a perspetiva fundamentalista que subentende que
um rico é mau na sua essência. Não há maldade na individualidade individual e
não há certamente maldade na emancipação, na imersão de um estado de
subordinação ao poder para um estado de relativo controlo da sua liberdade
individual.
Noutro ponto, tem que se parar com a tese de que é a crise
que leva à adoção desta legislação. Quando o Canadá começou a impor restrições
mais apertadas e prazos de candidatura à aquisição imobiliária com vantagens de
residência foi por imperatividade. O Canadá não estava em crise.
A China como face do
fim da hegemonia ocidental
Não estamos historicamente habituados a uma supremacia outra
que não a do mundo ocidental civilizado. Quando uma etnia que pensamos nunca
ter imperado se começa a determinar como economicamente superior existe medo
perante o desconhecido. É errado pensar que a China não dominou já no passado o
balanço financeiro mundial, a Guerra do Ópio surge no seguimento desse feito –
século XVIII.
Argumentos
recorrentes:
“Temos problemas com a ditadura” - compreendo – não
compreendo como é que conferindo a cidadania portuguesa isso surge como
argumento no caso dos vistos gold. O asilo político já enquadra esta noção.
“São culturalmente diferentes” – se estão a ler este blog e
não entendem porque é que ser culturalmente diferente não deve ser um argumento
contra a integração de alguém numa sociedade, não aconselho a continuação da
leitura.
“Vão invadir-nos” – terei que ser sarcástica e dizer, em
nome da industria imobiliária “quem nos dera!”. Não estamos na situação
privilegiada em que esteve o Canadá quando começou com a legislação até a
apertar e circunscrever por problemas de sobrepopulação ou de ameaça soberana. Preocupam-se
com a problemática soberana, esta pode ser posta em causa quando serviços
públicos essenciais são postos em causa. EDP e REN são neste caso mais
conflituosas. Se Portugal tivesse uma promoção mais ativa no estrangeiro e
fosse uma marca forte, ou seja, se fossemos a nível global um sítio
extremamente solicitado enquanto primeira escolha, neste momento não teríamos
em termos de captação de investimento as problemáticas no setor imobiliário com
que todos os dias profissionais da imobiliária se deparam – o monopólio da
captação de investidores por parte de duas ou três grandes corporações que
obrigam os locais a repensarem as suas estratégias de venda com inflações e
medidas que se sabem danosas a médio prazo para a própria industria. Há que
perceber que nenhum mercado se quer autodestruir e que as opções estratégicas
tomadas são feitas tendo em conta a gestão do “worst-case scenario”.
Com este artigo quero demonstrar que quem se sente estranho e
apreensivo ao observar que muitos dos compradores de imobiliário de luxo em
Portugal desde Março de 2013 são chineses é porque tem que lidar com
problemáticas xenófoba e racistas no seu âmago. Acusar investidores
estrangeiros de criminosos aleatoriamente não me parece um bom princípio. Não,
ninguém atribui vistos de permanência a pessoas com registo criminal e depois
dos três casos nas cinco centenas de vistos atribuídos acredito que as
averiguações e precauções se tornaram ainda mais vigilantes.
terça-feira, 4 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
Sem zeros à esquerda
Mais falado do que o próprio Livre, o Manifesto 3D tentou unir as forças políticas à esquerda. (BE, Livre, Renovação Comunista e Manifesto 3D) Parece-me que se tratou, de acordo com o tenho lido do Daniel Oliveira, uma tentativa que se fazia na sequência alargada da observação de outros movimentos como o Syriza na Grécia sob o realçou que o partido de Alexis Tsipras “multiplicou por seis (tinha 4,6%) a percentagem do seu partido, em apenas três anos”.
A não convergência das forças da esquerda esteve assim em foco – não foi, certamente, surpreendente. Acredito mesmo que não foi um mecanismo inocente para realçar as falhas dos sistemas partidários à esquerda com uma intenção muito clara de tocar nas feridas organizacionais do BE. Com a demissão de Ana Drago da Comissão Política do BE realça-se o sentimento de que esta esquerda já não é mais a esquerda da Política XXI e de que os vários fragmentos intrapartidários que sempre preocuparam a opinião pública retomam a ordem do dia. As pessoas estão mais curiosas com o que se passa com o Bloco e isso deve-se também ao surgimento do 3D ou do recém-criado Livre. Fica-se com a sensação de que os clichés contra os quais sempre se lutou - os rótulos de “partido de protesto” e não “partido da ação” – são afinal realidades que a Plataforma Socialismo de Louçã e Semedo fazem viver na realidade política das forças de oposição. Espera-se o prometido novo sujeito político da esquerda. Está ele numa orgânica renovada como é a do partido de Rui Tavares?
A não convergência das forças da esquerda esteve assim em foco – não foi, certamente, surpreendente. Acredito mesmo que não foi um mecanismo inocente para realçar as falhas dos sistemas partidários à esquerda com uma intenção muito clara de tocar nas feridas organizacionais do BE. Com a demissão de Ana Drago da Comissão Política do BE realça-se o sentimento de que esta esquerda já não é mais a esquerda da Política XXI e de que os vários fragmentos intrapartidários que sempre preocuparam a opinião pública retomam a ordem do dia. As pessoas estão mais curiosas com o que se passa com o Bloco e isso deve-se também ao surgimento do 3D ou do recém-criado Livre. Fica-se com a sensação de que os clichés contra os quais sempre se lutou - os rótulos de “partido de protesto” e não “partido da ação” – são afinal realidades que a Plataforma Socialismo de Louçã e Semedo fazem viver na realidade política das forças de oposição. Espera-se o prometido novo sujeito político da esquerda. Está ele numa orgânica renovada como é a do partido de Rui Tavares?
quarta-feira, 27 de novembro de 2013
Torres de Ouro
Vou
escrever genericamente com ornamentos abstratos de forma a tentar atrair as atenções
dos amantes da leitura que não tolerariam, obviamente, um desabafo ressabiado
de um ou de uma qualquer transeunte inútil com mágoas de cabeceira para
partilhar com uma audiência imaginária. É contudo óbvio que o que se segue são rastos
de experiência pessoal acumulados num inconsciente escoriado, a cicatrizar
lentamente usando o tempo como pomada hidratante reconstrutora dos tecidos do
bem-estar diário.
Não há lugar algum onde padrões de comportamento registados
entre indivíduos da mesma sociedade possuam interpretações lineares. As
ciências sociais e até as ciências humanas possuem assim este caráter místico,
de uma imensidade de explicações e planos teóricos altamente improváveis
(impossíveis?) de serem testados. Mas vamos voltar a mim porque a vitalidade de
uma personagem é o que torna a ficção um lugar menos árido do que o texto académico.
Ah, esta última palavra, o academismo. Qual o desapontamento de me aperceber
que os académicos nas melhores universidades deste país vivem ainda inacreditavelmente em
torres de marfim. (A expressão Torre de Marfim designa um mundo ou atmosfera
onde intelectuais se envolvem em questionamentos desvinculados das preocupações
práticas do dia-a-dia.) Suponhamos que vou falar de economia ou do estado
social. Quero descrever violência estrutural mas a única forma de violência que
experienciei foi o arrivismo intelectual no qual me asfixio de forma a ter um
lugar garantido num pedestal de prestígio que me refugia de qualquer realidade.
Faz sentido? Não, não faz. O entendimento do mundo deve ser visceral antes de
ser teórico e não quero usar a palavra empirismo porque não é de empirismo que
se trata porque esta porcaria do empirismo é a forma que os académicos usam
para dizer conhecimento pragmático. Pragmatismo é sujar as mãos. Sim, sou
maluca – está diagnosticado. Há em mim uma necessidade ridícula de compreender
as coisas em profundidade, mas não é essa profundidade intrínseca de
literaturas infinitas que compõe o espólio intelectual de um académico. Claro
que sim, claro que o conhecimento é o aspeto basilar da compreensão da
realidade. Está para mim fora de questão pôr em causa o papel do conhecimento
teórico e do papel da educação. O que ponho em causa, contudo, é a hipocrisia.
A hipocrisia de se falar em responsabilidade social e de se desprezar
frontalmente a responsabilidade que um professor tem, por exemplo, perante um
aluno, dispensa o seu tempo e paga propinas e tem expectativas, o que é
compreensível. Mas o tutor com a sua inquestionável notoriedade no seu grupo de
pares, no seu grupo de estrategas do poder tem que publicar, porque tem que
debater ideias num colóquio internacional e aproveita para pôr umas fotos no
facebook a dizer como é bom estar em Nova Iorque a passear num intervalo de um
debate interessantíssimo sobre os conflitos no Sudão ou as discrepâncias
sociais na Rússia. E vamos falar de hipocrisia como ela deve ser falada, todos
somos uns potenciais exibicionistas e foi a internet que o comprovou. Acho que
já dei este exemplo mas continuo a gostar dele. Era Orwell que falava do medo
de sermos constantemente controlados por um estado totalitário que não nos dava
liberdade de ação sem supervisão. O que vemos, no entanto, com o advento da
ultra-exposição, numa explosão de ecrãs é que ela é procurada incessantemente.
As luzes ligam-se, as câmaras estão a filmar e quem não se quer pôr à frente delas?
Sobretudo se é para realçar as necessidades que o nosso ego foi construindo –
porque o ego é uma construção social – temos todos necessidade de
reconhecimento, necessidade de prestígio – não vou descer tão baixo ao ponto de
falar de fama mas é mais ou menos o mesmo - são todas essas palavras utilizadas
diariamente em todos os meios de comunicação e que nos incutem uma forma
coerente de perspetivar a realidade com base em valores que outros definiram. Esta
experiência universitária começa desde o primeiro ano de qualquer espaço de
ensino superior, mas naturalmente que se intensifica em patamares da pesquisa
académica mais avançados. E é claro, vão-me dizer, metes-te em meios competitivos,
estás à espera do quê? É sempre esta inocência parva que me caracteriza que me
faz acreditar que o mundo não é como uma série americana onde o Kevin Spacey é
um sociopata homicida em nome do poder. Se é para perceber de poder, as teorias
do poder segundo Foucault são mais esclarecedoras do que qualquer coisa filmada
e nisso estou de acordo com qualquer marfim em qualquer torre. Este texto não
tem o intuito de ser moralista porque como dizia alguém estou-me a borrifar
para o moralismo ou até se calhar mesmo para a moral. Sobretudo para a moral da
história. Mas é acima de tudo a hipocrisia que me irrita e é a irritação é uma
das melhores combustões para os meus textos, deve ser o meu lado de animal
político ou talvez haja uma distinção essencial entre sociabilidade e política
como dizia a Arendt. O que importa? Uma das coisas que aprendi em relação ao
texto académico: há regras mas essas regras não são ensinadas. É um bocado como
quando o meu treinador de viet vo dao me dizia que ele aprendeu tudo o que
sabia sem que ninguém lhe explicasse. O mestre dele limitava-se a fazer o
exercício uma vez e a exigir que o aprendiz descobrisse como é que aquilo se
executava, sem qualquer orientação, a partir do absoluto vazio. Há uma lógica
taoista muito interessante, é certo. Mas é isto um texto académico? Uma
professora dizia ‘olhem, a mim só me explicaram isto no último ano, mas eu
estou a explicar-vos logo no primeiro… olhem que sorte!’. É exatamente como o
meu mestre de artes marciais me dizia ‘eu estou aqui a dar-te a papinha toda
feita, a explicar com metodologia e orientação todos os passos que deves dar
para executar o exercício, mas olha que o meu mestre não me dizia nada… olha
que sorte que tu tens!’. Agora, das duas uma: ou vocês estão a gozar com a
minha cara e isto de redigir um texto “científico” é tão rigoroso como uma
prática esotérica ou então há uma hipótese bem mais perversa e bem mais
ofensiva, não querem que o aluno chegue aí ao lugar onde vocês estão? Não quer
o mestre que o discípulo o substitua? Se é esta última, não há nada a dizer a
não ser, é triste. Não é por aqui que se quer andar quando se procuram
verdades. Sejam elas quais forem. Acerca da condição humana ou da cura para o
cancro. Um professor que não quer ensinar devia estar a fazer outra coisa
qualquer.
Bom, a minha ideia era falar da minha experiência
corporativa e ainda não saí dos traumas da escola e falta-me tocar no tendenciosismo
ideológico e incapacidade de imparcialidade de vários profissionais com os
quais me cruzei, que é mais grave do que isto tudo. Vamos esperar por um
próximo capítulo porque o lorazepam está prestes a fazer efeito. Para concluir,
eu entendo que qualquer entidade ou organização institucional onde existem
pessoas com aspirações se possa tornar num sítio tomado por estratégias de
manipulação e disputas por um lugar de sabe-se lá o quê – muitas vezes nem
sequer é uma coisa tão concreta como ‘dinheiro’, embora o materialismo seja
para mim uma fonte de justificações para o comportamento coletivo mas nem
sempre para o individual. Parenteses à parte, é honestamente triste ver que a
meritocracia está neste país altamente baseada em preconceitos e jogos de
influência – o que anula o conceito de “meritocracia” - irónico. É a minha dose de ironia por hoje.
quinta-feira, 31 de outubro de 2013
Blue Jasmine
No mais recente filme de Woody Allen, produzido entre San
Fracisco e New York, Allen recorre a uma temática típica da segmentação de
classes, da forma como as pessoas vivem tentando perceber, em última instância,
onde se encontra afinal a felicidade.
Muitos foram já os elogios à absolutamente fantástica
performance de Cate Blanchett de comentadores que declararam esta obra senão uma das, a
(inesperada) obra-prima de Allen.
Jasmine (Blanchett) é aqui um anjo caído da
socialite e a vida gira em torno da comparação entre a 'gifted' elegante loira
com um gosto requintado e Ginger (Sally Hawkins) que prefere um homem sexy ao
homem rico e vive ao seu ritmo, sem particulares ambições, a trabalhar na caixa
de um supermercado e sem perspetivas de grandes mudanças - nem em homens nem em
carreira.
O filme enfatiza o fim pseudo-trágico ou no mínimo
humilhante da protagonista. Caída numa tremenda depressão devido ao facto do
seu ex-marido (Alec Baldwin) não só ser permanentemente infiel mas ter cometido
grandes lavagens de dinheiro com as suas construções de resorts um pouco por
todo o mundo.
Os conflitos de Jasmine com o parceiro da irmã adotada,
Chili (Bobby Cannavale) demonstram um permanente conflito entre estereótipos,
sem uma réstia de empatia de parte a parte. Ginger fica ali no meio dos dois,
cada um a puxar para o seu lado e ambos a precisarem dela naquele momento.
A narrativa chega a uma altura que se desenrola em
semi-círculo. Jasmine acredita que nasceu para ser diva e percorre esse sonho,
Ginger sempre se conformou com o que fosse que a vida lhe trouxesse. Quando
Jasmine encontra um novo candidato a marido rico com futuro na política local a
precisar de uma mulher-troféu para as ocasiões sociais, há qualquer coisa nas
mentiras de Jasmine que parece fazer sentido. Ginger decide aventurar-se em
alguma coisa diferente, em vez de sexy, que tenha algum dinheiro (ator
conhecido devido ao exito de humor Lucky Louie). Mas o homem em quem criara
certas expectativas não estava propriamente na mesma linha de pensamento,
enquanto Ginger procurava estabilidade, a ideia dele era a de pura diversão.
A certa altura começamos a acreditar que as duas vão acabar
como lhes era pré-destinado, uma com os bons germes outra com o maus. A certa
altura a narrativa em círculo faz um oito. Será que é realmente a atitude que
conta? Quando Jasmine parece voltar a reviver o sonho de socialite frívola mas
com todos os privilégios do dinheiro, somos levados a crer que algo se passa.
Mas Allen foi sádico com esta personagem. Nos filmes de WA a classe média-alta
é sempre abordada de uma maneira ou outra, por vezes com mensagens mais ténues
do que noutras. Aqui, a personagem de Blanchett, depressiva, neurótica e
incapaz de encarar um mundo em que ela não é superior aos outros torna-se quase
uma vingança. Quantas mulheres conhece o realizador de cinema que
"subiram" na vida à custa da frivolidade da sua atitude e da
complacência com a corrupção do universo das grandes fortunas? Há necessidade de humilhar esta personagens
chega a um cume devastador até para quem está a ver. Os conflitos permanentes
da Jamsmine com o Chili que a enfrenta sem piedade levam a pensar que mesmo
esse homem, sem dinheiro ou a melhor educação, mesmo um homem que a ela só
poderia causar repugnância, é no fundo, melhor do que qualquer coisa que ela
pudesse vir a ter.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2013
Django Unchained
Tarantino’s Django Unchained takes the shape of western spaghetti and adds to it a bit of a racial struggle during the year of 1858, just two years before the American Civil War. For me, the movie was all about something that Tarantino is just perfect at: the creation of tension and the always good mise-en-scène that makes us fly through cinema itself being attached to an old-style kind of movies with which Tarantino is familiar with – he tries to bring pop and mainstream references of other decades into something more deep and modern artistic.
Something about Tarantino is that for me he represents a new generation of movie fans, the ones that are affectionate to it in a different perspective from the other ones, more alternative, who would rather go to a cult session watch some old Fellini’s movie.I think that Tarantino does that because he wants to keep the distance between art and reality and that leads me to the next point of discussion.Although, Django Unchained is a representation of racial struggle in the South of USA in 1858, where slavery was still running as a normal thing, I would like to detached my perception of the critic historical episode that seemed to me as something that the director really wanted to show.
I say this because I know that a lot of people reacted to this movie either because they were white Americans or because they were Afro-Americans – I must admit that I find it interesting how Christoph Waltz’s character performs. Is the wise foreigner from Germany – good one to conciliate the fans from the Inglorious Bastard’s approach to Germany. But what I mean is that for me this was an episode contextualized and I don’t identify myself with any characters. I also believe that Tarantino was sensitive about the subject – as we know that America is sensitive about this black-white relation subject. In the past movies I saw girls getting bloody revenges (Kill Bill, Death Proof) or simply Nazis being insane, mafia serial killers, etc. This time, the historical approach is quite accurate in a lot of details and by that I don't mean the use of sunglasses but merely the historical contextualization of the previous civil war period.
Personally, I found this movie a lot of fun to watch, I loved how it played with the sound-track (I even recognized a song that was in Battle Royale) and I find the violence scenes very well conducted and balanced. I like the bloody style. It's not realistic, it's not suppose to be for him, that's how he distances reality from cinema. It's also his mark and it's what makes a lot of people hate him. I suppose we need to understand the spectacular part of the bloodbath as a cinema show. We know that people don't have such exaggerated blood squirt or as in one of the last scenes when the sister is projected into another room with a shot gun, it's like, what?! But still...
I liked the message, even if I usually don’t approve in realistic terms the will of revenge that is always in Tarantino’s work, but we know that this revenge works in a classical way of relieve that is really well done in this movie. I love the humour. Django’s character is a lot of fun, the love story, the good German the evil black butler – the good and the evil in human’s heart despite the color of the skin. Basically, a very good Tarantino’s. I missed you very much! Please come back again soon!
Here the original inspiration:
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quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
your sense of humour is just like Family Guy
(...)
Cartman: Do you have any idea what it's like? Everywhere I go: 'Hey Cartman you must like Family Guy, right?' 'Hey, your sense of humor reminds me of Family Guy, Cartman!' I am NOTHING like Family Guy! When I make jokes they are inherent to a story! Deep situational and emotional jokes based on what is relevant and has a point, not just one random interchangable joke after another!
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
Da condição humana
Em Portugal há sem dúvida uma distinção entre o comentador político e o teórico político. Isto porque o teórico não se expõe por dificuldade de legibilidade dos conteúdos para a maioria da população. Contudo, a leitura de uma agenda política partidária não deveria ser suficiente para se construir uma posição política. Compreendo que se pretendam encontrar soluções para problemas concretos e imediados, mas o que fica por detrás é todo o legado civilizacional que nos pertence.
Para os romanos, provavelmente o mais político dos povos conhecidos, a palavra “viver” tinha por sinónimo “estar entre os homens” (inter homines esse). É aqui que começa o debate sobre as várias terminologias: a vita activa (labor, trabalho e ação), a contemplação, o discurso (lexis) a polis e o bios politikos.
Por um lado absorve-se do pensamento clássico que a mortalidade é a categoria central do pensamento metafísico e que a natalidade, por seu lado, é a categoria central do pensamento político. A ação (praxis), torna-se na atividade política por excelência.
O livro “A condição humana” de Hannah Arendt deixa de lado o pensamento e a razão para se centrar na vita activa enquanto “vida dedicada aos assuntos públicos e políticos”. A ação necessária para manter o bios politikos.
O conceito de contemplação surge como substituto da vita activa, principalmente por parte da igreja que defende uma necessária quietude. No entanto, para os filósofos: “Do ponto de vista da contemplação, não importa o que perturba a necessária quietude, o que importa é que seja perturbada”.
Quando a preocupação com a eternidade e mortalidade chegou ao pensamento filosófico, Heráclito regista a sua crença de que apenas os melhores se poderão inscrever na eternidade. É um pensamento singular, não encontrado em mais escritos filosóficos clássicos. Contudo, o eterno surge como verdadeiro e o lado divino no homem está na sua inscrição no eterno. Num cosmos onde tudo é cíclico e imortal, o homem vê-se como único elemento mortal.
Quando a preocupação com a eternidade e mortalidade chegou ao pensamento filosófico, Heráclito regista a sua crença de que apenas os melhores se poderão inscrever na eternidade. É um pensamento singular, não encontrado em mais escritos filosóficos clássicos. Contudo, o eterno surge como verdadeiro e o lado divino no homem está na sua inscrição no eterno. Num cosmos onde tudo é cíclico e imortal, o homem vê-se como único elemento mortal.
Desta forma, a religião cristã que tomava para si todo o ocidente era apologista de uma vida contemplativa, fora da necessidade da vida entre os homens. É aqui que existe a separação entre vita contemplativa e vita ativa.
A preocupação com a imortalidade que se sobrepôs a todas as outras está intimamente ligada à queda do Império Romano. Esta demonstrou claramente que nenhuma obra de mãos mortais poderá ser imortal e foi acompanhada pela promoção do evangelho cristão – uma vida individual eterna. Se qualquer busca de imortalidade terrena se tornava fútil e desnecessária, a vita activa e o bios politikos resumiam-se a servos da contemplação.
“Nem mesmo a ascendência do secular na era moderna e a concomitante inversão da hierarquia tradicional entre ação e contemplação foram suficientes para fazer sair do esquecimento a procura da imortalidade que, originalmente, fora a fonte e o centro da vita activa”. (Arendt, 1958, 33)
A ação como prerrogativa exclusiva do homem, depende da constante presença de outros. Aristóteles chamava ao homem animal socialis e já Séneca aceitou como tradução consagrada “homo est naturaliter politicus, id est, socialis” (o homem é, por natureza, político, isto é, social). A vida em societas generis humani – sociedades humanas, traz ao termo “social” a sua posição de condição humana fundamental. Platão e Aristóteles apenas não consideravam que esta condição fosse essencial mas antes uma necessidade da vida biológica.
O bios politiko é, de acordo com o pensamento grego, uma segunda oikia (casa) e família. Como se a partir de agora todo o cidadão tivesse duas ordens de existência que não apenas o privado.
Dividem-se assim aquilo que lhe é próprio (idion) e aquilo que é comum (koinon). Não se tratava apenas de uma pensamento de Aristóteles mas da constatação de um facto. A partir do momento em que surge a polis, ou cidade-estado, ela destrói todas as organizações fundadas à base do parentesco.
A esfera da Polis, pelo contrário, era a esfera da liberdade, e se havia uma relação entre essas duas esferas era a de que a vitória sobre as necessidades da vida em família constituía a condição natural para a liberdade na polis. A política não podia ser apenas um meio de proteger a sociedade – uma sociedade de fiei, como em Locke, ou uma sociedade inexoravelmente empenhada num processo de aquisição, como em Hobbes, ou uma sociedade de produtores, como em Marx, ou uma sociedade de operários como nos países socialistas e comunistas.
Em todos estes exemplos é a liberdade da sociedade que limita a autoridade política. Assim a liberdade é já para a os filósofos clássicos um assunto que se situa na esfera política ou social e que a necessidade é um fenómeno pré-político, característico da organização do lar privado. A violência torna-se assim no ato pré-político de libertação da necessidade da vida para conquistar a liberdade no mundo.
Contudo, o pensamento político do século XVII acredita que só é possível evitar a violência ao ser estabelecido um governo que, através do monopólio do poder, controle o temor. Pelo contrário, todo o conceito de domínio e submissão, de governo e poder no sentido que o concebemos hoje, assim como à sua ordem regulamentada, eram tidos como pré-políticos, pertencentes à esfera privada e não pública.
Contudo, o pensamento político do século XVII acredita que só é possível evitar a violência ao ser estabelecido um governo que, através do monopólio do poder, controle o temor. Pelo contrário, todo o conceito de domínio e submissão, de governo e poder no sentido que o concebemos hoje, assim como à sua ordem regulamentada, eram tidos como pré-políticos, pertencentes à esfera privada e não pública.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2012
A Primavera Árabe, Dois Anos Depois
O que acontece passado dois anos do início da Primavera Árabe? Algo ficou realmente diferente? Será que houve a transformação de paradigma que tantos de nós esperavam? Será que se pode falar em Excepcionalismo Árabe?
As teorias positivistas das RI levam-nos a crer que o que existia antigamente serve para compreender a realidade, mas isso não se aplica neste caso ao norte de África e Médio Oriente. Um dos principais motivos é o facto de não ter ainda havido a aprovação de novos textos constitucionais. Temos instituições representativas mas para já não podemos falar em transformação uma vez que corremos o risco de um retrocesso. Na chamada Primavera Árabe cada caso foi um caso, e a designação genérica que lhe aplicamos soa mais à expansão de um nacionalismo árabe do que àquilo que realmente foi: uma série de revoltas populares. Temos assim um conceito aglutinador que permite a identificação de um conjunto de processos de contestação, porém limita a compreensão dos casos e especificidades. Apesar de outros levantamentos dispersos (Marrocos, Líbano, Sudão), esta revolta teve uma incidência inquestionável na Tunísia, no Egito, na Líbia, no Iémen e na Síria. Uma reflexão mais alargada deveria ser feita quanto às autocracias liberais que constituem a maior parte destes regimes.
O Médio Oriente está dominado por autocracias liberais e por liberais entenda-se economicamente seguidoras dos preceitos do Acordo de Washington de 89. São regimes onde existe um conjunto de fatores interdependentes - institucionais, ideológicos, assim como uma ecologia adaptável à repressão, controlo e abertura parcial.
Daniel Brumberg em "Islamists and Identity Politics in the Arab Spring" defende que a ideologia, a religião mas sobretudo o nacionalismo árabe, diminui a possibilidade de promoção de pensamento alternativo.
Uma noção muito enraizada de legitimidade e subserviência contida nos regimes islâmicos e um sentido de liderança descentralizado não contribuem para a diversidade de pensamentos. Questão vai da Mauritânia-Marrocos até ao espaço geográfico concebido como Médio Oriente - deparamo-nos com estados profundamente centralizados no seu limite, existindo ou não uma estrutura de estado, existe certamente uma centralização da estrutura social. Para além destes elementos, algo a ter em conta é a dimensão geoestratégica entre promoção da democratização e ao mesmo tempo apoio a ditaduras. Não tendo válvulas de escape, estes aspetos são difíceis de gerir - o que pode explicar o que faz sobreviver uma ditadura nesta zona durante 30 a 40 anos. Uma vez que a legitimidade e o poder provém de uma esfera religiosa, ela não está nos cidadãos. De acordo com o Corão, quando os cidadãos percebem que o líder não está a cumprir com as suas responsabilidades do ponto de vista dos preceitos do Islão, podem derrubar o líder: teremos aqui o enquadramento teórico que despoletou mimetismos depois do mártir Mohamed Bouazizi?
A grande diferença entre estados com recursos energéticos e estados sem eles, condiciona enormemente o aparelho externo, isto é, condiciona os seus apoios e refiro-me tanto a apoios de outros estados - Europa, EUA, China - como dos intervencionismos de organizações como a ONU.
A condicionalidade política traduz-se da seguinte forma: quanto mais positivo for o comportamento nas práticas de governação - maior o financiamento. O acordo de paz entre os EUA e o Egito liberta muito dinheiro para o Egito que vive do turismo, das matérias primas, e não tem recursos. O aparelho externo torna-se mais significativo e este apoio estratégico dos EUA sempre controlou os apoio a zonas tão americo-convenientes como Israel. A história das Revoluções Árabes veio pelo menos afetar positivamente esse relacionamento, mesmo que a mudança de paradigma não se possa considerar de todo. Por pressão externa foi criada uma narrativa de legitimação dos estados.
A circulação a toda a luz da informação dos últimos vinte anos obriga as lideranças políticas a tomarem medidas preventivas em troca de apoio político ou financiamento. A internet e as redes sociais têm o seu papel neste panorama mas ainda não chegam a toda a gente - terá sido mais a criação da estação televisiva Al Jazeera a possibilitar o olhar para fora e a comparação entre modos de viver completamente discrepantes e essencialmente revoltosamente desiguais.
As vulnerabilidades dos regimes por riscos e tensões internas tem consequências imprevisíveis. O Desenvolvimento Humano Árabe indicava que a PA estava prestes a acontecer e são estes meios de comunicação que permitem a mimetização de comportamentos - a capacidade de contaminação das revoltas populares.
Contudo, como as revoltas não tiveram motivações partidária há uma enorme dificuldade destes partidos políticos existentes assimilarem os mecanismos de contestação pois estes são atos altamente desorganizados. Isso é particularmente visível na Líbia. A revolução na Líbia não tinha qualquer carater associativo, nem do ponto de vista religioso e face a essa desorganização desmorona-se o ideal de qualquer revolta, que é transformá-la numa estrutura governativa.
As monarquias da Jordânia e Marrocos não são afetadas de forma tão brutal devido às suas ações preventivas - com alteração de leis, controlo dos mercados, permissão de entrada condicionada no sistema representativo, etc. No caso da Arábia Saudita e dos Países do Golfo e descontentamento socio-económico não se verifica já que os príncipes do petróleo mantêm a população controlada, o que não acontece na Tunísia ou no Egito, onde os níveis de contestação são elevadíssimos.
Permanece a questão, é a falta de liberalismo da Síria e Líbia faz com que o conflito continue? Se acreditarmos são que os pressuposto para existência de processos de democratização passam por desenvolvimento, classe média e cultura cívica, provavelmente encararemos essa tese da paz pelo comércio como viável, contudo tendo a questionar todos estes pressupostos, sobretudo os que ao liberalismo dizem respeito ainda que compreenda o argumento face à globalização da economia. De uma maneira ou de outra, não parece a mudança de paradigma se tenha feito sentir de uma maneira total nos países mediterrânicos mas a história continua. É aguardar que o tempo a dite. Mas a nossa expectativa de que estes regimes se tornassem democracias liberais ao modo ocidental foram expectativas erradas e que revelam fragilidades do nosso lado.
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terça-feira, 27 de novembro de 2012
Miguel Gonçalves e o empreendedorismo de cordel
Como dizia o meu Professor José Manuel Pureza, citando um amigo "Confiança é acordar todos os dias e achar que a troika está mesmo a ajudar o país." Ámen
Miguel Gonçalves é um fulano com o QI de uma ervilha que anda a vender cursos de auto-estima de empreendedorismo de cordel. Organiza uma treta tipo the biggest looser mas para criação de empresas que até agora nunca ninguém ouviu falar, tipo vencedor dos ídolos, alguém vai ser o próximo ídolo de Portugal mas passadas várias edições nunca ninguém ouve mais falar dos vencedores. É o aproveitamento do desespero. É isto e a ACN. O problema é conhecê-lo pessoalmente e saber o quão néscio é o sujeito. E não estou para usar argumentos requintados. É um parolo de primeira.
Já participei numa formação de "coaching" no âmbito de um curso de Recursos Humanos e Organização Empresarial, eu pessoalmente saí com vómitos depois daquela pseudo-formação para nos tornarmos gurus da auto-estima mas no campo do empreendedorismo de cordel. Acho fabulosos os casos de sucesso que o jornalismo traz para as reportagens sobre artesanato e confeção de bolos. Pensar em criar consciência política e económica é demasiado arriscado para o plano neo-liberal do norte. Vamos pôs uns pins nuns calções e vender num blog e ser empresários.
Cito alguém que se expressava no Facebook deixando a sua identidade anónima:
"O Charlatão de Braga ganhou o seu documentário messiânico na SIC. O Poder do empreendedorismo com sotaque de Minhoto esconde mal a realidade de um estudante de psicologia a surfar na onda do coaching de banalidades num país devastado pela falta de emprego. A Proximidade e conhecimento mais pessoal que tenho deste individuo fazem-me de facto pensar na forma como a televisão pode criar ídolos e colocar na ribalta os arrivistas mais vulgarmente pintados pela simples necessidade de preencher a lista de rótulos. São estes despertares que de facto nos desligam dessa assimilação inquestionável da narrativa da comunicação social e nos obrigam a questionar mais aquilo que aceitamos sem nos apercebemos. Questionem-se, fora os políticos, quais são as personalidades questionadas sobre as palavras que formulam?"
domingo, 4 de novembro de 2012
“Heart of darkness” de Joseph Conrad
“Heart of Darkness” de Joseph
Conrad, publicado em três fases durante o início do século XX, é um livro
razoavelmente curto mas canónico na tradição literária dita ocidental.
Às
multiplas camadas de narrativa junta-se uma linguagem visceral frequentemente
sensorial e que nos descreve um universo pouco colorido, dir-se-ia mesmo um
universo onde a luz é inetivalmente absorvida. Para além das qualidades
literárias intrínsecas da forma, o impetuoso simbolismo da mensagem justifica
esta canonização. Esta jornada a lugares considerados exóticos não ganha proporções
épicas mas antes ilustra o nengrume presente na perceção de Marlow face ao
conhecimento de um mítico reinado instaurado por “Kurtz” um homem “de elevado
gosto e espantosa eloquência”.
Heart of Darkness é baseado numa
jornada do próprio Joseph Conrad ao Congo como comandante marítimo.Em 1878, as
entidades belgas que colonizavam o Congo com pretextos supostamente
filantrópicos para o desenvolvimento rural anunciam a criação de um novo
estado, o Estado Livre do Congo. Na realidade, tudo não passava de um esquema
montado por Leopoldo II para a exploração do marfim. O povo local era
sistematicamente roubado, escravizado e sujeito a trabalho forçado nas minas.
Aqueles que não trabalhassem devidamente eram punidos com amputações de
membros. Centenas de milhares de escravos morriam devido a exaustão, doença ou
fome.
Grande parte do interesse da obra
de Conrad deve-se ao seu enquadramento temporal. Em 1902, o termo “racismo” não
tinha sequer uma conotação pejorativa. No entanto, no seu livro encontramos o narrador Marlow
a refletir várias vezes sobre a possível humanidade presente “naquelas criaturas”:They were not enemies, they were not
criminals, they were nothing earthly now, nothing but black shadows of disease
and starvation, lying confusedly in the greenish gloom. (Conrad
14)
O reino de Kurtz, instaurado sobre
o pretexto de uma suposta civilização dos povos face à presumivel superioridade
europeia torna-se num conto fantasmagórico na qual o conceito de civilização é
invertdo. Perante a ausência de lei, o reinado que Kurtz pensava controlar
estava antes a controlá-lo a ele num ilusionismo febril. Fora do seu estado de princípios,
Kurtz implementa o mais primitivo dos sistemas mas considera-se a ele superior
porque a lei dos homens não se confunde com a lei primitiva da natureza.
Contudo, é do reconhecimento dos ocupantes de que “ali não há leis” e que“podemos
matar se necessário”. A selvajaria é
assim instaurada pelos mensageiros da civilização, por homens brancos de
estados hegemónicos.
Este regresso à selvajaria relembra
outro clássico, o posterior “Lord of the flies” de William Golding. Em ambas as
obras a reflexão sobre civilização e selvajaria demonstra que a assunção de
superioridade cultural e civilizacional é facilmente posta em causa aquando da
ausência de regulações e imperativos externos. A terra de ninguém é assim a terra da lei do mais forte.
A viagem ao coração das trevas é na
realidade uma viagem ao lado mais sombrio do coração humano.
Conrad, Joseph, Heart of Darkness, first published in 1902,
published in Penguin Classics1994
sábado, 3 de novembro de 2012
A paz e a violência
A paz e a
violência de acordo com a tradição moderna
A
solidez do sistema internacional depende em larga medida da eventualidade de um
confronto ou da possibilidade da manutenção da paz. Para Donald Kagan, de
acordo com uma análise histórica comparatista que levou a cabo, a guerra é o
resultado de uma competição pelo poder. Contudo, o conflito não se pode reduzir
exclusivamente à competição, uma vez que ele ocorre efetivamente quando uma
parte pretende alcançar os seus objetivos prejudicando a outra.
A
noção de conflito foi muitas vezes enunciada numa narrativa que tende a cair
numa abordagem realista e Hobbesiana que relata um ciclo conflituoso e,
consequentemente, uma narrativa do conflito. Na perspectiva de Maria Raquel
Freire e Paula Duarte Lopes “This
narrative confines and directs strategies, instruments and actors to conflict. For peace
studies, violence is the problem, but if the framework of action is bounded and
rooted in conflict, the outcomes can hardly be framed outside a
conflict-oriented narrative”. [i]
O
discurso do conflito tende, portanto, a substituir o discurso da violência.
Isto é, a violência deve ser encarada como um continuum. Esse continuum de pazes e violências possui um carater facultativo, depende
de uma escolha de implementação de uma ou outra cultura, sendo a cultura da paz
o objetivo primordial como “a virtue, a state of mind, a disposition for
benevolence, confidence, justice” nas palavras de Baruch Spinoza (1670).
Neste
ensaio pretendo analisar as conceções de paz e violência à luz das teorias
dominantes das relações internacionais, as quais intitulei de “tradição
moderna”.
Se,
por um lado, o tratado de Vestefália conferiu aos estados um papel central e
soberano na compreensão das relações internacionais, por outro, os estudos da
paz colocam em causa esse consenso da elaboração do terreno pacífico como
aquele que apenas é intrínseco ao sistema estatal.
Refiro-me
a consenso porque essa definição é transversal às duas principais correntes da
tradição moderna das Relações Internacionais: o realismo e o liberalismo. Estas
duas escolas de pensamento continuam a oferecer perspetivas acerca do
comportamento dos estados e respetivas consequências na manutenção da paz.
Por
um lado, os liberais advogam a liberdade individual, acreditando na conceção
rousseana
de que os homens são bons por natureza. O foco principal reside assim no
individualismo, nos direitos humanos, na universilidade, no desapego à
autoridade, no tratamento igualitário perante a lei e na liberdade pela ação
social. Mantém um elevado nível de otimismo e confiança. Intimamente
relacionada com a teoria liberal encontra-se a teoria da paz democrática e a
crença nas democracias representativas. Várias teorias liberais apontam ainda
para a relação da paz com o crescimento económico e defendem vincadamente a liberdade para a ação económica
independente de qualquer interferência do estado (Fukuyama,
1992, p.44). A paz é nesta perspetiva descrita por Oliver P. Richmond como refletindo
o pensamento Augustiano da “tranquilidade da ordem”, realçando a contradição
Hobbesiana em conter o estado natutal do homem e realçando o projeto enunciado
por Quincy Wright, para quem a paz é representada por um comunidade onde a lei
e a ordem prevalecem.[ii] Para além do mais, a paz
liberal reclama para si o estatuto de ideal platónico que dá a forma a um
imperativo kantiano.
Por outro lado, a proposta
realista assume uma visão mais pessimista em relação à natureza humana. Ainda Oliver
P. Richmond na sua “epistemologia negativa” refere-se à corrente realista concebendo
a paz como episódica, momentânea. Realça ainda que a paz só é paz para o
vencedor e que esta só é alcançável pela hegemonia e garantida pela força. Paz
é neste sentido uma expressão de poder. É muitas vezes referida como uma paz
negativa, uma vez que a sua definição se prende com o silêncio das armas, isto
é, a ausência de conflito aberto. Grandes vultos do realismo dos anos 40 e 50
do século XX chegam mesmo a estar filiados a uma visão marxista da sociedade.
O continuum de pazes e
violências deve assim ser gerido de forma a evitar o confronto, ou seja, a
guerra. Um dos grandes desafios dos teóricos, realistas, liberais ou neo-neo é
o de tentar decifrar no tecido heterogéneo da história padrões explicativos das
causas de conduzem à guerra.
Apesar
de todos os debates e divergências teóricas em torno destas correntes, elas
acabam por convergir quanto à assunção estato-cêntrica das relações
internacionais. Todas encaram os estados como unidades pacíficas e o campo
externo, o território internacional como o domínio da guerra, aquele onde não
existem contratos sociais e onde o caos e a anarquia predominam. Esta é a raiz
comum destes dois pensamentos, aquela em que a política como paz se opõe às
relações internacionais como guerra.
Os
estudos da paz, no entanto, demarcam-se desta tradição moderna, recusando assim
a aceção de que a condição humana nos entrega a um estado de conflito
permanente. Este tipo de pensamento comum a Hobbes, Rosseau, Voltaire e Kant remete-nos
para o princípio de que se todos aspiramos ao mesmo, então a possibilidade de
conflito é infinita.
Quando Johan Galtung menciona o
triângulo da violência e da paz[iii], encontramo-nos
perante uma abordagem que é transnacional, isto é, os estudos da paz
distinguem-se dos estudos da segurança e estratégia por estes terem a premissa
de que a guerra e o conflito são uma constante a ser gerida e mitigada.
Na obra de Kenneth N. Waltz, Man, the State and War, o autor refere três níveis de análise
recorrentes no estudo das causas da guerra. A primeira prende-se com aqueles
que procuram a explicação da guerra na natureza humana. Na segunda procura-se
uma explicação que atravesse a estrutura interna do estado sendo possível
incluir neste grupo os liberais e os marxistas-leninistas. Os primeiros por
acreditarem, como já mencionado, que a democracia conduz à paz e os segundos
por acreditarem que é a ideologia socialista que conduz à paz enquanto o
capitalismo fomenta a guerra. O terceiro nível de análise é aquele muitas vezes
incorporado no neo-realismo, já supramencionado que encara o sistema
internacional como anárquico, carente de organização que torna a expectativa de
guerra uma inevitabilidade. As teorias de Waltz baseiam-se na terceira imagem e
também elas transcendem a organização essencialmente estato-cêntrica do
panorama internacional. Isto porque, por exemplo, o comportamento criminal de
indivíduos isolados pode ser considerado uma forma de conflito violento. As
ideias de Waltz vão neste sentido ao encontro da noção de que a paz é um processo
holístico passível de existir quando condições básicas se encontram
asseguradas. Para além disso segue as mesmas diretrizes do ensaio de Freire, M. R. And Lopes, P. D., pois encara o
processo da promoção da paz, construção da paz e manutenção da paz como uma
rede interdependente mas não como uma premissa sequêncial que segue uma única
direção. O continuum de pazes e violências pode estar apresente até em
contextos formais de paz. O conflito não tem porque se transformar em conduta
violenta e pode ser prosseguido por meios políticos, económicos, psicológicos e
sociais menos evidentes.
Tendo já enquadrado a perceção da paz nas
diferentes abordagens teóricas, debruçar-me-ei sobre uma análise fugaz a alguma
formas associativas da violência. Como já mencionado, a violência deve
substituir a noção de conflitualidade típico à narrativa do conflito. Podemos,
contudo, falar de uma abordagem cultural à violência. Quando Huntington escreve
“O Choque de Civilizações” promove uma ideia que se baseia no confronto inevitável
do Homem devido ao seu crescimento civilizacional isolado, estando esta matriz civilizacional
relacionada segundo os teóricos do choque
essencialmente com os valores religiosos dos vários povos. Vários críticos da
teoria do choque de civilizações realçaram o carater anti-humanista da teoria. A
história legitima a vontade genuína da aproximação das civilizações mais do que
do seu choque. Desde Marco Polo e as suas longas viagens pela compreensão
humana até aos missionários italianos e portugueses que tentaram encontrar
pontes de ligação entre o cristianismo e o budismo no sul da China, as
civilizações tendem para um entendimento mais do que para o confronto, ainda que possamos considerar que a
insatisfação generalizada possa conduzir a uma elevada suscetibilidade à
propaganda e isso provoque confrontos como os ocorridos entre muçulmanos e
hindus no anos 40 do século XX e ou Sérvios e Albaneses na antiga Jugoslávia.
Amartya Sen em “Violence, identity and
poverty” trata desta abordagem teórica à violência pelo choque de civilizações
mas relaciona outro fator de relevo, o económico. De facto, negar a associação
da violência a contextos de exclusão social e económica torna-se uma tarefa
difícil. O deterioramento do estado social encontra-se muitas vezes relacionado
com o aumento dos níveis da criminalidade. Quando no início de Março do ano
passado a primavera árabe ou a revolução
do jasmim, como lhe chamaram os tunísios se deu, podemos afirmar que não
foi exclusivamente devido a um choque civilizacional de cariz religioso mas
antes uma sucessão de protestos relacionados com as condições de vida das
populações de vários estados árabes. O fenómeno das favelas ou dos
estados-satélite no Brasil onde o crime organizado se instalou de uma forma
quase impenetrável, torna possível associar os estados de violência aos
elevados níveis de pobreza e de profundo contraste social presentes nestes
espaços. Claro que estes motivos não se podem valer por si só e muitas
implicações sociologicas, políticas, factores sociais e culturais ajudam a
agravar cada situação, salvaguardando toda a sua especificidade – isto porque o
discurso da relação pobreza com violência pode conduzir a um uso manipulatório
da retórica política, tentando apelar ao medo da violência dela proveniente e
não aos valores éticos que em si encerram estas situações. Sen dá-nos o exemplo
de Kolkata onde as elevadas taxas de pobreza não conduzem necessariamente a
estados agravados de violência.
A paz e a violência adquirem
diferentes formas de acordo com os diversos enquadramentos teóricos e os
diversos factores de análise. Os estudos da paz devem por isso refletir sobre o
seu propósito e tentar transpôr a tradição, numa tentativa de enquadramento da
definição da paz numa altenartiva pós-moderna, transversal e transnacional.
[i] Freire,
M. R. And Lopes, P. D. (2009) “Rethinking Peace and Violence: New Dimensions an
New Strategies”, in P. D. Lopes and
S. Ryan (eds.) Rethinking Peace and
Security: New Dimension, Strategies and Actors. Bilbao: University of
Deusto, 13-29
Fukuyama.
F. (1992) The end of
history and the last man. New York: Macmillan, Inc.
[ii] Richmond, O. 2006, “The problem of
peace: understanding the “liberal peace””, Conflict, Security &
Development, 6(3), October 2006.
[iii]
Johann Galtung define a concomitância de uma
violência cultural (produção de ideias justificativas das demais violências)
com a paz cultural (cooperação e comiseração com todas as formas de vida); da
violência direta (eliminação física do outro) com a paz direta (formas de
controlo não-violentas, com sanções positivas); e da violência estrutural
mecanismos sistémicos de injustiça e morte) com a paz estrutural (satisfação
das necessidades básicas e distribuição de bens e serviços);
Referências
Galtung, J. (1969),
“Violence, peace and peace research”, Journal
of Peace Research, 6 (3), 167-191
Hobbes,
T. (1985). Leviathan.
London: Penguin Classics
Huntington,
Samuel P. O
Choque de Civilizações e a Recomposição da Ordem Mundial, Objetiva, 1996
JAMES,
E./PLATZGRAFF, Robert, As Relações
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