domingo, 5 de maio de 2019

Entrevista Sara F. Costa em Pequim



Sara F. Costa no evento de Lijia Zhang

Sara F. Costa na Art Battle





- Onde reside e o porquê da mudança de Portugal para a China?
Estou a residir em Pequim há cerca de um ano. O meu marido recebeu uma proposta de trabalho interessante e decidimos mudar. A perspetiva de voltar a viver na China sempre esteve presente desde que estudei cá durante um ano de intercâmbio no meu mestrado na Universidade do Minho. Estudei mandarim e sempre trabalhei com a China a partir de Portugal depois de acabar os estudos. Contudo, esse ano de estudo ocorreu já há dez anos atrás. Ponderei a situação e achei que seria uma oportunidade para atualizar o meu conhecimento sobre a realidade chinesa contemporânea através de uma experiência de trabalho cá.

- A que profissão e/ou actividades se dedica?
Sou coordenadora de eventos de um coletivo artístico chamado Spittoon. Também dou aulas de inglês e português como língua estrangeira e produzo material didático de inglês para crianças. No entanto, quando me perguntam a minha profissão gosto simplesmente de dizer que escrevo poesia (risos).

- Esses trabalhos/projectos estão a desafiá-la de forma diferente relativamente ao que já fez?
Sim, sem dúvida, sobretudo na Spittoon estou a experienciar uma forma de trabalho numa estrutura horizontal e que não tem como objetivo o lucro. É o tipo de trabalho em que me revejo.

- O que é a Spittoon?
A Spittoon é um coletivo composto por artistas e escritores que pretende estruturar, unir e providenciar uma plataforma para a próspera comunidade artística e internacional da cidade. O trabalho desenvolvido pela organização passa por uma publicação online de ficção e poesia em inglês e chinês (www.spittooncollective.com), uma revista literária, eventos de leitura de poesia, leitura de ficção e eventos de Slam Poetry. Recentemente fundei o primeiro Workshop de Poesia da cidade.

- Tem atividades e eventos regulares e tem eventos pontuais?
Sim, temos um clube de leitura que por vezes traz autores convidados para falarem do livro que o clube está a ler. Recentemente fiz parte da organização do modelo internacional da Art Battle, uma competição de pintura organizada pela primeira vez este ano em Pequim. Organizamos ainda pontualmente um evento chamado “Spittunes” muito apreciado pela comunidade porque junta músicos com poetas que elaboram trabalhos originais e depois dão concertos em Pequim e noutros locais da China. Enfim, muita coisa e tudo muito interessante! Há sempre novas ideias que surgem do contacto entre os artistas. A Spittoon foi fundada há quatro anos pelo poeta britânico Matthew Byrne que já tinha experiência na criação de comunidades artísticas em Manchester, onde estudou escrita criativa. O modelo em Pequim está a funcionar particularmente bem porque a cena alternativa artística em Pequim está simplesmente a crescer exponencialmente. 

- Está plenamente integrada? Há diferenças na sociedade chinesa, relativamente ao tempo que estudou no país?
Os primeiros tempos em Pequim foram difíceis porque há muita coisa para assimilar. Tenho a vantagem de falar e ler mandarim, o que facilita imenso, mas mesmo tendo essa capacidade há outras dimensões da vivência numa cidade como Pequim que ultrapassam em muito a mera barreira linguística. A questão tecnológica é fulcral. Não sei se existe outro sítio no mundo tão digitalizado como a China neste momento. Há qualquer coisa de futurista e ligeiramente distópico aqui. As mais banais tarefas do dia-a-dia passam por um smartphone. Só para dar um exemplo, o uso de dinheiro em espécie é uma coisa antiquada. Existem várias carteiras digitais (wallets) que são utilizadas para qualquer transação, seja pagar, receber ou transferir dinheiro entre pessoas. Houve uma orientação central do governo para que todo e qualquer tipo de serviço aceitasse este pagamento e agora já não precisamos de andar com uma carteira, basta levar o telemóvel.


- Que projectos tem para os tempos mais próximos e mesmo para o médio prazo?
Os próximos projetos vão ser a organização de workshops de escrita criativa que encerrará com um retiro de escritores num templo taoista.

- E a sua carreira literária? Está a escrever um novo livro?
Tenho escrito diariamente e tenho-o feito em inglês, o que é novo para mim. Estou a preparar um trabalho de tradução de poesia chinesa contemporânea para português e, eventualmente, uma publicação da minha poesia em inglês.
A minha poesia tem sido traduzida em várias línguas. Por exemplo, tenho vários poemas que já foram traduzidos para espanhol e pulicados tanto em publicações em Espanha como no México. Até já encontrei poemas meus traduzidos em húngaro. Em breve farei parte de uma antologia de poetas portugueses a ser publicada na Roménia e noutra a ser publicada em Macau, ambas organizadas pelo poeta António M R Martins. Também tenho por cá publicado poesia em inglês na revista literária “A Shanghai Poetry Zine”.

- Que balanço faz desse trajecto criativo, que – segundo me parece – já leva mais de uma década? Os melhores momentos, os mais difíceis, o processo criativo e como evoluiu (se é que evolui) …
Eu penso que tem sido um trajeto muito estável e consistente. Não posso deixar de mencionar que quando entrei no mundo do trabalho me deparei com situações difíceis devido à escassez da empregabilidade e à própria experiência de trabalho em si que nem sempre é muito gratificante nas situações sucessivamente precárias em que estive. Orgulho-me de todos os projetos que levei a cabo a nível profissional, mas o percurso nem sempre foi fácil e nesses momentos foi quando a minha produção literária deixou de existir. A partir do momento em que existe conforto e estabilidade no trabalho, torna-se muito mais fácil conseguir dedicar-me ao meu trabalho artístico e neste momento sinto que estou numa altura de grande energia criativa.

- Creio que tem estado ligada a projectos culturais em Macau. A cidade/território é sempre apontada como a grande ponte entre Portugal e China. Como vê esta questão e como caracteriza a cidade, nomeadamente do ponto de vista cultural?
Em 2012 participei numa conferência do Fórum de Macau sobre o ensino de português como língua estrangeira, fiz parte da organização do Festival Literário de Macau de 2018 e fiz algumas apresentações académicas na Universidade de Macau. Acho que Macau e as suas instituições de ensino desempenham um papel muito importante no contacto cultural entre a China e a lusofonia. Macau é, sem dúvida, uma plataforma de contacto entre realidades que acaba por produzir a sua própria realidade: multiétnica, multicultural, multilinguística e com imenso potencial para desenvolver ainda mais plataformas de comunicação entre a lusofonia e a China.

- Como lê o nosso país à distância? Está atenta às questões políticas, sociais, culturais…?
Sim, claro, estou sempre atenta ao que se passa em Portugal, gosto de me submeter constantemente a processos de aculturação, mas, honestamente, tenho muito orgulho no nosso país. Portugal tem uma história democrática relativamente recente por isso é natural que seja um país em constante evolução na consolidação dos seus valores democráticos que passam também pela consolidação do seu estado de direito. Nos últimos tempos, do que me é possível observar, acredito que a sociedade portuguesa está gradualmente mais progressista e se estão a levantar debates de extrema importância – como a integração de minorias étnicas ou as questões de género. Não digo que o estado de coisas me satisfaça ainda mas tenho esperança e acredito que as coisas estão a evoluir. Política e economicamente, estamos há muitos anos condicionados por forças externas e sistemas globais vigentes que afetam Portugal de uma maneira negativa. São os jogos internacionais de poder que infelizmente não permitem o país evoluir para uma situação económica mais estável. A situação económica do país afeta também a cultura mas o que é possível perceber, globalmente, é que Portugal é uma país profícuo na produção cultural e artística, com imensa gente com um talento enorme, por vezes, por descobrir. 


- Como é que o nosso país é visto/percepcionado por aí?
Ronaldo e Figo (risos). Fico surpreendida com o interesse dos chineses por futebol, começa a ser realmente popular. Ao nível da população chinesa em geral, Portugal é percecionado como um país pequeno ao lado de Espanha, normalmente não têm uma ideia muito definida. Do ponto de vista das ações políticas, acredito que Xi Jinping e o PCC sabem muitíssimo sobre Portugal e como estabelecer cooperações diplomáticas e económicas com Portugal. Penso que para o governo chinês, Portugal é percecionado como uma plataforma dual que possibilita uma entrada na Europa enquanto também é útil para o estabelecimento das relações entre a China e outros países de expressão portuguesa.



Sara F. Costa a vender revistas da Spittoon Literary Magazine

Sara F. Costa cria o primeiro Workshop de Poesia de Pequim

Sara F. Costa cria o primeiro Workshop de Poesia de Pequim






segunda-feira, 27 de agosto de 2018

O Meu retrato por Cláudia R. Sampaio

"Sara F. Costa"
Acrílico, canetas de tinta-da-china e marcadores de água sobre papel 400g, 100cm x 70cm
(excertos de poemas de Sara F. Costa)

Cláudia R. Sampaio, Sara F. Costa

Cláudia R. Sampaio, Sara F. Costa

Lançamento de "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa Victor Mateus, Sara F. Costa, Fernando Sales Lopes, António Graça Abreu

Sara F. Costa

Victor Mateus, Sara F. Costa, Fernando Sales Lopes, António Graça Abreu

domingo, 26 de agosto de 2018

Momentos Festival Literário de Macau 2018, Kalaf Epalanga, Sara F, Costa, Julián Fuks

Sara F. Costa, Kalaf Epalanga

 Kalaf Epalanga, Sara F, Costa, Julián Fuks


Julián Fuks, Sara F. Costa,  Kalaf Epalanga

Julián Fuks, Sara F. Costa,  Kalaf Epalanga

Sara F. Costa, Kalaf Epalanga

Kalaf Epalanga, Sara F. Costa

sábado, 25 de agosto de 2018

José Luís Peixoto sobre A Transfiguração da Fome

José Luís Peixoto, Sara F. Costa

"Tu e eu não somos apenas nós, somos também duas unidades, eu ocupo um poema, tu ocupas outro. A Transfiguração da Fome, de Sara F. Costa, é uma longa narrativa sobre nós: tu, eu e o mundo. Essa história pode ser lida em várias direções, sem necessidade de início ou de fim: há fins antes de certos inícios, há fins depois de outros fins. Em qualquer dos casos, esse será um caminho de referências concretas, papéis no chão levados pelo vento, e metáforas, horizonte. Sara F. Costa prepara-nos uma cartografia exata, não apenas no rigor com que organiza a linguagem, mas também na delicadeza do silêncio: entre palavras, entre versos, entre o título e o início do poema. "(José Luís Peixoto)


Publicado na Revista Caliban

quinta-feira, 23 de agosto de 2018

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

terça-feira, 17 de julho de 2018

Lançamento do livro "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa


Lançamento do livro "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa

Editora Labirinto
Data: 28 de julho, 17h
Espaço Menina e Moça Livraria Bar, Lisboa



Lançamento do livro "A Transfiguração da Fome" de Sara F. Costa que mereceu uma Menção Honrosa no Prémio de Poesia Soledade Summavielle (2ª edição) e será editado pela Editora Labirinto.

"A Transfiguração da Fome" insere-se na Coleção "Contramaré" da Editora Labirinto e tem uma nota introdutória de Jose Luis Peixoto.

O evento contará com a presença de Victor Oliveira Mateus, coordenador da coleção, juntamente com Daniel Gonçalves e o editor João Artur Pinto.

A apresentação do livro será levada a cabo por Fernando Sales Lopes e António Graça de Abreu.

Leitura de poesia por Lígia Reyes e Gisela Casimiro.




Sara F. Costa (1987) nasceu em Oliveira de Azeméis. É licenciada em Estudos Orientais e Mestre em Estudos Interculturais: Português/Chinês pela Universidade do Minho em parceria com a Universidade de Línguas Estrangeiras de Tianjin, China. Tem recebido vários Prémios Literários nacionais na área da poesia. Participou no Festival Internacional de Poesia e Literatura de Istambul 2017 e em 2018 fez parte da organização do Festival Literário de Macau e do Festival Internacional de Literatura entre a China e a União Europeia em Shanghai e Suzhou, China.

Tem publicadas as obras poéticas:
– A Melancolia das Mãos e Outros Rasgos (Pé de Página editores, 2003);
– Uma Devastação Inteligente (Prémio João da Silva Correia, Atelier Editorial, 2008);
– O Sono Extenso (Prémio João da Silva Correia, Âncora Editora, 2012);
– O Movimento Impróprio do Mundo (Prémio João da Silva Correia, Âncora Editora, 2016)
– A Transfiguração da Fome (Editora Labirinto, 2018)



Poema em "A Transfiguração da Fome"

Império ao meio

sento-me no limite desta cidade
a observar os quilómetros percorridos entre existências.
em hora de ponta nenhum coração está vago.
queria traduzir-te o sorriso
e fumar os prédios,
bebe-los com a agonia.
dizem que sem medo há sempre destino
mas eu escrevi-te do fundo do tempo,
já não existias.
este é o império que se partiu ao meio
nas nossas mãos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2016

Uma Geografia Secreta

Nuno Júdice, Sara F. Costa

Por Nuno Júdice originalmente publicado em Revista Caliban
A partir do título do novo livro de Sara F. Costa, «O movimento impróprio do mundo», entramos num espaço que gira em torno de dois conceitos: movimentoassociado a deslocação, a viagem, e mundo relativo ao espaço em que esse movimento se dá. No entanto, se por mundo entendermos a Terra, o planeta, o movimento que logo lhe associamos é o de rotação, com a sua dupla regularidade ligada ao dia, que é a rotação do planeta sobre si, e o ano, que é a rotação da Terra à volta do Sol. Estaríamos assim perante um tópico da poesia que fala dessa dualidade nocturna e diurna, e da mudança das estações ao longo do ano. No entanto, o que poderia parecer uma associação simples e confortável para o leitor, que remeteria para o mundo clássico esta poesia, é contraditado, ou melhor, perturbado pelo adjectivo impróprio. Sara F. Costa vai, assim, rejeitar esse espaço da tradição que, pela antítese diurno-nocturno, remete para o Romantismo, e pela sazonalidade que deu origem ao mito do eterno retorno, para o Classicismo, e avança por um outro terreno em que o movimento, ou melhor, a viagem, não coincide com as referências habituais da linguagem poética.
Há muitas viagens neste livro. Podíamos falar de viagens como a que se faz ao passar/esta ponte triste/que vai dar a Setúbal (p. 7), a que leva até às placas que indicam que Figueira da Foz é mais ou menos na/mesma direcção (p. 11), a que segue o desejo taxativo do «Vou-me embora» que começa na Universidade do Minho e termina em Beijing (p. 13), a da «Modern girl» que apesar de nunca ter ido a Nova Iorque se mudou para Coimbra (p. 78), a combinação com o estudante de relações internacionais para um encontro algures entre/o Império Otomano e o Bizantino,/por volta de Agosto (p. 86), ou o poema «Shanghai» (p. 65), entre outras, ou seja, referências que se podem considerar concretas, a que se podem somar outras mais literárias quando, em Peniche, diz que podia estar em Paris (p. 35), qunado pretende levar o Tejo para a China(p. 85), ou ainda quando encontra o Husserl a jantar com o Alphonse de Lamartine (p. 73).
Este é o mundo que se encontra no título e que tanto pode fazer parte de uma realidade concreta da globalização contemporânea como, sobretudo, surgir ao longo do livro para apelar a uma pulsão de liberdade que, hoje, perdeu o sentido que teve no tempo dessa rua onde Ramos Rosa adiou o amor, e se tornou um instante de risco em que não se ama a liberdade,/bebe-se liberdade/misturada com espumante e terror («Liberdade», p. 16). É uma liberdade que absorve tanto a novilíngua dos feedstartupcliffhanger,hardclubnetworking, o uso do inglês em títulos ou citações, a presença de nomes que funcionam como fundo entre o cultural e o que poderíamos chamar intertextual, de Herberto Helder a Dante ou Rimbaud, de Nietzsche a Sartre, Kafka ou Patti Smith; e uma errância por lugares que, no entanto, são o lugar único em que a poeta se define como uma casa corpo, não passo de.
Também o amor comunga dessa liberdade em forma de errância, como se o corpo fosse apenas um lugar de passagem. É quando diz que à noite, quando o homem, regressa/ não é sói a ele que me dou mas aos quatro ou cinco a quem já/me dei antes/porque no meu útero rebentam todos os mares (p. 28) que a entidade mulher se assume como esse mundo líquido em que o canto das ondas feridas/ atravessa a existência (p. 29) até esse momento do poema «Quando eu fui morrer para o mar» (p. 72) em que a morte, ligada à água bachelardiana, se associa ao renascimento ligado ao útero: ressuscitei na mesma madrugada em que fui morrer para o mar (p. 73). Uma poética iniciática, mas uma iniciação que se verifica no espaço fechado de «O sepulcro-espelho» (p. 47) em que o Eu se contempla num processo que é descrito como o movimento impróprio do mundo, contrário à luz e à expansão, e entregue à harmonia demoníaca do teu desejo no processo de morte ritual em que o olhar narcísico e auto-destrutivo de onde nasce o prazer fundamental para esse renascimento, surgido do oximoro dessa harmonia demoníaca que se conclui no momento em que a entrega nocturna se materializa: deixa que o sepulcro te masturbe.
É portanto uma viagem que tem como território esse mundo mas em que não há um objectivo final, ligado a uma instalação definitiva, porque a vida é o nosso destino e aparentemente já chegamos/sem nunca ter partido (p. 9). Se o poema se chama «Na rua em Daugavpils», portanto longe dessa origem portuguesa entre Lisboa e o norte, ao dizer que chegou sem nunca ter partido o que se conclui é que a viagem poética não implica uma mudança de território porque o chão em que assenta, e não se move, será o chão da linguagem, da língua, em que tudo é reconhecível e familiar, mesmo quando fisicamente se está longe. E talvez se possa aqui definir esse «movimento impróprio do mundo» como aquele que tenta afastar a poeta do seu chão, que será essa língua em que escreve, que faz parte de uma «Geografia secreta» em que a poeta usa os verbos que se apaixonam pela noite e os versos são lábios em ruína/parados na geografia secreta da pele.
Viagem entre Eros e Tanatos, o livro guia-nos por um mundo de imagens no limite da eclosão surreal, mas ao mesmo tempo nunca perdendo de vista a realidade, numa escrita que vai de encontro à pele críptica do papel, sem nunca deixar que a leitura se perca em labirintos sem sentido nem centro.
Nuno Júdice

quarta-feira, 16 de março de 2016

Apresentação "O movimento impróprio do mundo" de Sara F. Costa em Lisboa

Apresentação "O movimento impróprio do mundo" de Sara F. Costa em Lisboa

Apresentação por Nuno Júdice

21 de abril,19h
Local: Carpe Diem 
Rua de O Século, 79, Bairro Alto
Lisboa

sexta-feira, 11 de março de 2016

Da série Apontamentos de Guerra | O Impacto da Guerra fria no Nordeste Asiático


A visão americana da ordem internacional não se confinava à balança de poderes, colocava ênfase na estabilidade interna na forma de instituições democráticas dentro dos estados. O ponto fulcral da estratégia pós-guerra de Roosevelt na Ásia-Pacífico foi antever uma China democrática e unida que iria surgir com toda a capacidade de exercer influência decisiva enquanto grande potência ao estilo do pós-guerra fria, refletida no discurso “Four Freedoms” em janeiro de 1941 e na Carta do Atlântico anunciada por Churchill em agosto desse ano.

A Carta explicitava princípios como a negação da expansão territorial, a garantia do direito de autodeterminação para todas as nações, a criação de um sistema económico liberal aberta e internacional virada para a cooperação e para a preservação da paz e da segurança.
Embora estes princípios tenham sido incorporados com o acordo soviético na Carta das Nações Unidas na reunião em San Francisco em 1945, e apesar da presenta da União Soviética nas reuniões de Bretton Woods onde se configurava um mundo baseado no livre comércio, ficou evidente que o cumprimento desses acordos por parte da URSS não era garantido. Em 1946, a desilusão americana relativamente ao comportamento soviético na Polónia começava a afetar as atitudes americanas para com o leste.

A outra deceção americana foi com o fracasso da China a não conseguir cumprir as suas expectativas de guerra aliada ao fracasso do Plano Marshall de 1945-1946 que visava evitar uma guerra civil não proporcionou o melhor ambiente para cortar as hostilidades rivais entre nacionalistas e comunistas no quadro da Guerra Fria. Como a origem da Guerra Fria foi na Europa, foi para aí que se viraram as atenções das forças bipolares.

A Doutrina de Truman de março de 1947 que elevou as obrigações específicas levadas a cabo na Grécia e na Turquia para um compromisso universal de “apoio aos povos livres que resistem às tentativas de subjugação por minorias armadas ou pressões externas”, foi erguida algum tempo depois dos americanos terem intercedido nos dois países. Como muitos têm argumentado, o acentuado tom moralista e o simultâneo âmbito universal da Doutrina era dirigido tanto para mobilizar a opinião pública americana como para articular a política externa.
Por esta altura uma boa parte dos problemas americanos provieram da ausência de meios para levar a cabo os crescentes compromissos internacionais.

A esperança de cooperação com a União Soviética estava gradualmente a ser substituída por confronto e a capacidade americana para dar resposta às necessidades da Europa Ocidental encontrava-se em declínio. A Doutrina Truman tinha sido projetada para colher o apoio animado da opinião pública americana e era um fator essencial para a implementação do Plano Marshall e para a ajuda a Chiang Kai-Shek. Todavia, a sucessão de acontecimentos pouco dignos na China levou a uma retração dos Estados Unidos perante a hipótese de levantar ou não as suas forças a sul do Paralelo 38. O Japão era entretanto considerado não apenas um país onde se poderia implementar o liberalismo económico como forma de reconstrução estatal mas também como um potencial aliado enquanto fonte de estabilidade do Nordeste Asiático.

O rescaldo da Guerra do Pacífico foi moldado pelos entendimentos alcançados na Conferência de Yalta que em retorno refletia a realidade da hegemonia da marinha americana no Pacífico e o domínio soviético terrestre no nordeste asiático. O resultado foi a divisão em duas esferas de interesse. Os EUA exerciam predominância no Oceano Pacífico, incluindo as Filipinas, Okinawa e Japão. A União Soviética reconquistou Sacalina e as Ilhas Curilas, assim como obteve novamente os direitos ferroviários e portuários da Manchúria, obtendo o reconhecimento da independência do seu protégé, a Mongólia Exterior. Encabeçados pelos britânicos, os governantes coloniais procuraram restaurar as suas posições no Sudeste Asiático. Era esperado que a China emergisse como poder soberano e se juntasse às três grandes potências de forma a estabelecer uma tutela sobre a Coreia. Contudo, em vez de um acordo precipitado sobre a divisão de responsabilidades por terem aceitado a rendição do Japão, americanos e soviéticos, para grande surpresa, concordaram em parar no Paralelo 38. [1]



[1] Ver the account by Bruce Cummings, The Origins of the Korean War, 2 vols (Princeton: Princeton University press, 1981 and 1990); and by Max Hastings, The Korean War (London: Michael Joseph, 1987).

quinta-feira, 10 de março de 2016

A importância da Guerra Fria na afirmação da Ásia-Pacífico


Foi o começo da Guerra Fria em finais de 1940 e inícios de 1950 que lançou a Ásia-Pacífico para o plano internacional, ultrapassando as dimensões locais e regionais tanto em termos políticos como em termos de estratégia militar. Com mais precisão, pode referir-se a Guerra da Coreia que começa em junho de 1950 como o marco da entrada da Ásia-Pacífico na escalada da Guerra Fria começada na Europa.

Contudo, ao contrário do que acontecia na Europa, onde a Guerra Fria dividia claramente dois protagonistas com campos ideológicos económicos e sistemas políticos definidos e distintos, o mesmo não ocorria na Ásia. As divisões eram menos evidente e a forma como o fim da Segunda Guerra Mundial e as suas consequências impactaram a Europa e a Ásia foi fundamental neste panorama. A guerra europeia foi uma disputa entre terrenos vastos e exércitos terrestres que acabaram numa divisão entre os vencedores ocidentais e os vencedores soviéticos.

A guerra na Ásia-Pacífico foi vencida essencialmente pelas forças navais e aéreas americanas, culminando em dois bombardeamentos atómicos. Não se pense, contudo, que a disputa pelo poder no continente asiático não se mantinha ativa, sobretudo a luta pela garantia da independência alcançada e contra o regresso dos poderes coloniais.

Embora a Guerra do Pacífico tenha fornecido uma estratégia racional para abordar a região como um todo, os aliados ocidentais vieram tratar o nordeste e o sudeste asiático de forma diferenciada. Enquanto os Estados Unidos concentraram os seus esforços na agressão ao Japão, os britânicos convergiam os seus interesses para o sudeste, Birmânia, Tailândia, Malaia (Federação), Singapura e Sumatra. Em julho de 1945, as Índias Orientais Holandesas, à exceção de Timor, assim como a Indochina a sul do paralelo 16 foram transferidas para o Comando do Sudeste Asiático sob a alçada do Almirante Mountbatten. A Indochina a norte do paralelo 16 foi atribuída à China sob o comando de Chiang Kai-shek.

Como ficou evidente depois do envolvimento dos EUA nas disputas da Indochina no final da década de 40, foi o advento da Guerra Fria que começou por conectar as duas sub-regiões tanto a nível local como global. Foi apenas durante essa fase que os resultados dos conflitos locais e lutas pela independência começaram a ter implicações na distribuição do poder e influência global. Por um lado, providenciando uma base para as elites locais procurarem apoio externo e, por outro, para os poderes estrangeiros fornecerem esse apoio em prol das suas próprias vantagens competitivas.  

terça-feira, 8 de março de 2016

"O Movimento Impróprio do Mundo" lançamento do livro de Sara F. Costa


Sara F. Costa ganhou pela terceira vez o Prémio Literário João da Silva Correia mas há muito mais nela do que poesia. A jovem de 28 anos, licenciada em Línguas e Culturas Orientais, é intérprete e consultora de investimento chinês em Portugal. Vive e trabalha em Lisboa, onde também se dedica ao estudo das Relações Internacionais, área onde se encontra a tirar doutoramento e onde analisa o diálogo intercultural, questões identitárias, análise histórica, diplomática e política externa. Ao labor, fala da sua escrita, dos interesses académicos e das saudades de S. João da Madeira


LABOR: Como descreveria “O Movimento Impróprio do Mundo” em relação às duas obras anteriormente galardoadas: “O Sono Extenso” e “Uma Devastação Inteligente”?

Sara F. Costa: Cada um dos meus livros é o reflexo de um percurso. Por um lado, o percurso existencial. Por outro, há uma exploração da plasticidade da palavra, um permanente exercício de alteridade, uma evocação dos outros que me habitam. Como diria Rimbaud, “je suis un autre”. É nesta encarnação permanente do alheio que procuro traçar um percurso que se tem vindo a desenvolver em termos de maturação pessoal e literária. Recordo-me que, tanto no meu primeiro livro “A melancolia das mãos” que editei com 15 anos, como no segundo “Uma devastação inteligente” editado aos 19, era uma adolescente mais ou menos assustada com isto tudo que é viver e deixar de viver, são livros com tonalidades mais melancólicas e ansiedades pulsantes. Não é que não exista melancolia em “O Sono Extenso” ou “O Movimento Impróprio do Mundo” mas admito que passei a incorporar uma dimensão mais social, ainda que mantendo sempre a dimensão psicológica e sobretudo emocional. É difícil a autora analisar a sua própria obra, mas reconheço o meu fascínio pela vertente plástica e visual da poesia, a criação de imagens sensoriais, a captação do instante de inspiração simbolista e surrealista, o recurso à sinestesia e abstração em detrimento da narrativa ou o esboçar de narrativas não figurativas.


L:Que comentário lhe merece este triplo reconhecimento pelo Prémio Literário João da Silva Correia?
SFC: Eu escrevo de forma espontânea e sem um deadline ou um compromisso de publicação. O máximo que faço é enviar trabalhos para Prémios Literários. Este triplo reconhecimento vem confirmar algo de que sempre estive certa, a aposta que a Câmara Municipal de S. João da Madeira faz no apoio às artes e à cultura. Tenho que agradecer aos júris do prémio, todos personalidades de grande idoneidade intelectual e que muito me honram com a sua decisão. É também uma honra ter o meu nome associado desta forma ao grande João da Silva Correia, cuja obra-prima “Unhas Negras” faz sem dúvida parte dos meus livros favoritos. Espero que a escrita deste autor continue a ter divulgação na contemporaneidade e se eu fizer de alguma forma parte dessa divulgação, sinto que é algo de muito nobre.


L: Além destas três obras, que outra produção sua destacaria? O que a inspira, o que a aflige, sobre o quê gosta de escrever?
SFC: Divido-me entre a escrita criativa e a escrita académica ou científica. O que eu envio para ser analisado, por exemplo, em prémios literários é aquilo que para mim atinge um certo valor artístico. Em termos de produção artística, não destacaria mais nada para além daquilo que tenho publicado. Tenho escrito vários artigos científicos relacionados com a área de investigação na qual me encontro a tirar doutoramento, que é a área das Relações Internacionais, onde gosto de escrever sobre o diálogo intercultural, questões identitárias, análise histórica, diplomática, análise de política externa. A minha especialização geográfica é a China. O comportamento humano inspira-me bastante. Tanto na sua dimensão micro como macro, ou seja, tanto a nível psicológico como a nível social. Digamos que se eu fosse fotógrafa ou pintora, tenderia a fazer retratos. Interessa-me a ética da mesma forma que me interessa a cidadania e consequentemente a política. Participo ativamente na sociedade civil e muitas das minhas inquietações advêm de análises e reflexões de cariz social, os modelos económicos e ecológicos da nossa contemporaneidade, a violência e a conflitualidade, a reflexão sobre os modelos vigentes e os modelos que seriam desejáveis, o que os distancia e o que pode ser feito para lá chegar.


L: S. João da Madeira, cidade essencialmente industrial, tentou-se afirmar na poesia com a organização da campanha Poesia à Mesa. Tem acompanhado o evento?
SFC: Tenho acompanhado o evento na medida do possível. Quando era adolescente era uma semana de grande entusiasmo. Quando fui estudar para Braga e depois trabalhei em diversos pontos do país, deixei de ter tanta facilidade em participar no evento, com muita pena minha. O facto de S. João da Madeira ser uma cidade industrial só pode fomentar a criatividade, como fomentou ao próprio João da Silva Correia. Como sou uma escritora que se interessa muito pelas dimensões humanas e sociais, acho que é perfeitamente normal que muitos artistas se tenham inspirado na industrialização para a sua arte.


L: Sabemos que se licenciou em Línguas e Culturas Orientais e que passou algum tempo na China. Fale-nos dessa experiência, do que faz atualmente e se esse conhecimento se reflete de alguma forma na sua produção artística.
SFC: Parte do meu mestrado foi passado na cidade de Tianjin na China, onde aprofundei conhecimentos de mandarim. Já lecionei mandarim e português como língua estrangeira. Atualmente sou consultora de investimento chinês em Portugal. Também sou intérprete. Naturalmente que esta vontade de perspetivar o mundo em diferentes posicionamentos se relaciona com o meu fascínio pela Ásia da mesma forma que se relaciona com o meu fascínio pela arte, penso que tudo faz parte de uma experiência integrada.


L: Deve saber também que nas escolas primárias de S. João da Madeira ensina-se atualmente o Mandarim. Como avalia esta opção?
SFC: Sei sim. Acho que é algo louvável, de grande visão. O multilinguismo é de extrema importância e o mandarim é a língua mais falada no mundo e a República Popular da China encontra-se, nas várias dimensões do poder, a desafiar a ordem do sistema internacional pelo que há imensos motivos para se estudar esta língua neste momento.


L: Vem a S. João da Madeira com frequência?
SFC: Venho com uma periocidade mais ou menos mensal. Visito a minha família em Cucujães e os meus amigos e outros familiares espalhados por S. João da Madeira, Oliveira de Azeméis e Santa Maria da Feira. Tenho sempre saudades de S. João da Madeira porque me lembra os tempos da adolescência, das longas horas passadas em cafés e na biblioteca a ler e a escrever e nos bares a divertir-me com os meus amigos.



Vencedora de três prémios


A escritora de Cucujães Sara F. Costa voltou a vencer o Prémio Literário João da Silva Correia. É a terceira vez que é distinguida, desta vez com a obra “O Movimento Impróprio do Mundo”.
O Prémio Literário João da Silva Correia, cuja edição de 2015 foi dedicada à Poesia, é atribuído pela Câmara Municipal de S. João da Madeira e traduz-se num apoio monetário à publicação do título escolhido pelo júri, até ao montante máximo de 2.000 euros.
Em “O Movimento Impróprio do Mundo”, segundo o júri do concurso, a autora “apresenta uma escrita fluida e ampletiva, tonalizada com algum humor, aparentemente simples, mas trabalhada e consistente. Abordando temáticas atuais e referências a símbolos identitários nacionais, o livro premiado contém um conjunto de poemas que desenvolvem uma reflexão poética intensa e envolvente em torno do quotidiano do próprio poeta, transportando o leitor para universos marcadamente pessoalizados”.
Sara F. Costa, escritora e poetisa, venceu este concurso literário em 2007 com a obra “Uma Devastação Inteligente” e em 2011 com “O Sono Extenso”.
O júri é atualmente constituído pela representante do Município de S. João da Madeira, Suzana Menezes, pelo representante da Âncora Editora, António Baptista Lopes, e pelo poeta José Fanha.
Licenciada em Línguas e Culturas Orientais pela Universidade do Minho, Sara F. Costa esteve dois anos em Tianjin, na China, onde expandiu os seus conhecimentos de Mandarim. Fez um mestrado em Estudos Interculturais: Português/Chinês: tradução, formação e cultura empresarial e está atualmente a fazer um doutoramento em Relações Internacionais na Universidade Nova de Lisboa.
Foi leitora nas universidades de Braga e Tianjin, professora de Português como Língua Estrangeira e professora assistente convidada da licenciatura em Tradução e Interpretação (Português/Chinês – Chinês/Português) no Instituto Politécnico de Leiria. Foi ainda Relações Públicas e é atualmente tradutora/intérprete e consultora de investimento chinês em Portugal.
Tem várias publicações académicas, onde refuta a tese da paz pelo comércio partindo do exemplo da Guerra do Ópio, analisa o intervencionismo da ONU e a importância da tradução nas redes de informação contemporâneas.


quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

Joseph E. Stiglitz na Fundação Calouste Gulbenkian, 1 de Dezembro de 2015

“Desigualdade num mundo globalizado” 

O Nobel da economia esteve ontem em Lisboa perante uma plateia repleta para falar à sociedade civil acerca da sua principal tese: a desigualdade enquanto escolha. Ou seja, a desigualdade enquanto opção política e não como uma inevitabilidade do sistema económico. Há um espectro de políticas macroeconómicas que contribuem para a desigualdade. 

O caso dos EUA é flagrante na desigualdade da distribuição da riqueza e o que se torna estranho é verificar a reprodução do modelo americano, por exemplo, na Europa. Nas múltiplas dimensões da desigualdade o poder económico acumula-se no topo, os níveis de pobreza aumentam e a classe média é esviscerada. As desigualdades traduzem-se no acesso à saúde, sobretudo em países com sistemas nacionais de saúde elitizados como os EUA e traduz-se também no fragmentado acesso à justiça. Essa (in)justiça é facilmente relatada em números – como é que num país com 5% da população mundial, se encontra 20% da população prisional no mundo?



“Justice for all who can afford it”, dizia Stiglitz ontem. E se essas desigualdades faziam parte de um sistema dividido pela natureza e se acreditava que a geração seguinte ia sempre ter mais sucesso económico que a anterior, como é que se justifica que o mundo ocidental se encontre em recessão há já duas gerações? Os contos de histórias de sucesso pelo trabalho árduo podem reproduzir-se nos media para tentar fomentar a explanação do sucesso meritocrático, mas quando analisamos os factos – ou mesmo observamos o óbvio – só há uma decisão que esta geração deve tomar para ter sucesso na vida que é escolher os pais corretos. 

“You either choose the right parents or the game is over” ouvia-se o economista entre gargalhadas no salão principal da Gulbenkian. Piadas à parte, há uma relação sistémica quantificada entre o nível educacional  e os níveis de rendimentos, e essa educação depende da capacidade financeira dos pais dos novos trabalhadores. 


 O Gini índex conta-nos a história de como Grã Bretanha e Estados Unidos são os países com maiores níveis de desigualdade e maior dificuldade de acesso à educação e de como os escandinavos são os em que há maior acesso à educação e menores níveis de desigualdade. Portugal, dizia Stiglitz, não estava no gráfico que nos mostrou, “mas encontra-se entre os piores” disse a seco.

Ainda relativamente ao suposto progresso exponencial, a desigualdade global nos países da OCDE tem crescido nos últimos. A crise do crédito subprime que começa em 2007 nos EUA para se transformar numa crise económica global em 2008. De lembrar o que aconteceu com as agências de rating e os bancos norte-americanos que perante a subida de preços dos imóveis e alta liquidez do mercado internacional, começaram a fornecer empréstimos massivos a pessoas com histórico negativo de crédito para a compra de imóveis - antes só permitida a indivíduos com histórico positivo de pagamento e renda aprovada.

A incitação indiferenciada a um consumo com efeitos pejorativos – baseados na aquisição de títulos da dívida em esquema de pirâmide – acaba por proporcionar uma crise de liquidez, ou seja, uma retração de crédito na economia que conduz a uma inevitável - ou evitável, como diria Stiglitz - bolha financeira, a stock market buble

 “Trickle-down economics doesn’t work” 

O termo politico populista que tem vindo a caracterizar políticas económicas que favorecem os mais privilegiados e que defende que quanto mais dinheiro for para o topo, toda a população irá nutrir-se de capital, nunca foi uma teoria fundamentada ou teve qualquer suporte empírico. A desigualdade é efetivamente uma escolha, as grandes diferenças de distribuição de riqueza nos países desenvolvidos sugere que são as escolhas políticas não as inexoráveis forças do sistema económico que impõe a fragmentação social. A desigualdade é uma escolha, um resultado de como os decisores políticos foram estruturando a economia através da taxação, das políticas de despesa, da formatação do enquadramento legal, das nossas instituições, especialmente daquelas que conduzem as políticas monetárias. 

  “We can afford to have more equality”, na realidade isso iria ajudar a economia em geral. Economias com menos desigualdade desempenham melhores performances. Igualdade e performance são complementares. A falta de oportunidades traduz-se no desperdício de valiosos recursos. A nível macroeconómico, a ligação entre desigualdades e crises económicas e políticas tem sido comprovada pelo Fundo Monetário Internacional. As pequenas e médias empresas detidas pelas classes médias são os verdadeiros motores da economia e não a acumulação exponencial de capital de gerentes de topo que consomem em menor proporção dos seus rendimentos que a classe média ou baixa. Porque a desigualdade é um resultado de decisões políticas, ela é formatada pela política. Desigualdade económica traduz-se em desigualdade política e desigualdade política gera desigualdade económica, perpetuando um ciclo vicioso. 

As consequências da desigualdade passam pela sabotagem da democracia, a divisão da sociedade, sobretudo se as desigualdades coincidem com minorias étnicas. 

É urgente rescrever as regras da economia de mercado para que estas não sejam meras teias de proteção de 1% de privilegiados e não é com acordos de comércio transnacionais que de comércio têm muito pouco e que mais uma vez formatam a lei para a proteção de interesses corporativos que rescrevemos as regras da maneira correta (TIIP). A realidade é uma criação coletiva por isso criemos aquilo de que podemos todos beneficiar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Mr. Robot review

Mr. Robot é uma série da USA Network criada por Sam Esmail. Um cyberpunk–thriller drama que junta a contemporaneidade dos movimentos de ciberterrorismo à vontade adolescente de uma revolução que descomponha os paradigmas basilares de uma sociedade de consumo alicerçada numa conspiração mundial. 



Uma das coisas que me cativou nestes seis episódios já disponíveis é a homenagem clara a obras cyberpunk com este travo de ficção científica distópica e politizada. Começando pelo grande paralelismo entre o formato da narrativa com aquele que David Fincher adotou na adaptação do romance de Chuck Palahniuk, Fight Club. O discurso anticapitalista e anti-materialista acompanhado de imagens que retratam um quotidiano cansativo regido pelas regras da banalidade consumista e por um conceito de pueril felicidade, os planos longos e contemplativos, o narrador na primeira-pessoa, a banda sonora a enfatizar o drama tecnológico ou a ironizar com melodias desadequadas ao contexto. É um gosto pessoal, aprecio particularmente as representações satíricas da sociedade. Isto e o facto de que o nosso anti-herói sofre de vários distúrbios psicológicos não identificados (bipolaridade, esquizofrenia?), o que faz com que os subplots em que se introduz e os vários níveis de conspiração possam ou não ser reais – a mesma dinâmica Edward Norton - Tyler Durden. Já no antagonista Tyrell Wellick vi uma sucessão de referências a Blade Runner, American Psycho e Comopolis, um levantamento do estado da arte, um reconhecimento do que já foi feito. Não faz com que a série perca originalidade mas antes ajuda-a a enquadrá-la no seu género e a descrever a sua estética e estilo. 

É verdade que vivemos numa época de revivalismo noir, há um determinado público muito virado para uma estética decadentista, niilista, conspiracionista. Elliot é um ser escolhido para perpetrar uma missão e a sua suposta intelectualmente superior é depreendida pela atitude cínica com que encara o mundo. Digamos que para mim é uma espécie de complexo adolescente em continuidade para justificar as arduidades de adaptação a um meio social aqui considerado amplamente fútil e ingénuo. Acho que muita gente se vai identificar com este tipo de personagem. Nos dois primeiros episódios senti alguma dificuldade em lidar com esta personalidade revoltada contra o capitalismo e o poder instaurado pela política e economia mas que recorre constantemente a clichés para se fazer entender. Se por um lado, Fight Club tinha uma vertente espiritual, da purgação do ser pelo desafeto ao materialismo, em Mr. Robot Elliot coloca o peso em toda a indústria produtiva, muitas vezes atirando em todas as direções, seguindo os padrões de uma rebelião anárquica e anónima aproveitando-se estilisticamente de fenómenos como Anonymous ou as manifestações de Occupy Wall street. A combinação destes elementos é feita com mestria e a personagem de Tyrell Wellick remete-me para um prazer adolescente de um vilão estilizado numa lógica maniqueísta. 

Apesar de alguma resistência ao piloto, ao terceiro episódio senti-me magneticamente atraída pela série e vou certamente seguir. Se me sentir inspirada ainda escrevo aqui mais alguma coisa sobre os meus pensamentos acerca do desenrolar da narrativa. Haja inspiração!