Para pessoas da minha área, divulgo esta oferta de emprego. Devo, no entanto, dizer que já trabalhei com a Cityschool do Porto e que não o voltaria a fazer. As instalações são muito boas, mas não é muito bem pago (bom, sempre é melhor do que um Wall Street Institute, mas aí também já estamos a falar de extremos de decadência). Além disso, uma coisa a ter em conta no trabalho de formador de línguas específicas é também o de fazer valer a nossa escassez. Para quem trabalha com prestação de serviços, não se podem tolerar pagamentos irrisórios (até porque os alunos deste tipo de institutos pagam pequenas fortunas para os frequentarem). Posso dizer que trabalhei lá para ganhar experiência mas o que me pagaram quase não cobriu despesas de deslocação - sim, porque para dar este tipo de formação, não é ao virar da esquina que se encontram as pessoas devidamente qualificadas e nem o facto de se residir numa área afastada os faz reflectir minimamente sobre as propostas de pagamento. No entanto, para mim o problema não residia no que eu poderia lucrar. O verdadeiro problema foi lidar com a directora da Cityschool do Porto, Luísa Lupi. Para alguém que apregoa constantemente a relação interpessoal com colegas de trabalho como um dos principais aspectos a ter em conta, o estilo opressor, desconfortável e hierárquico com o qual lida com os formadores que emprega, é simplesmente insuportável. Eu sei que as coisas não estão fáceis e etc mas fica a mensagem de que não nos podemos sujeitar a qualquer coisa por uns trocos. Aproveitem a oferta e a experiência, mas não se deixem intimidar pela postura da senhora. Ela não tem qualquer direito de vos fazer sentir seus submissos.
segunda-feira, 11 de abril de 2011
Mandarim Cityschool
Para pessoas da minha área, divulgo esta oferta de emprego. Devo, no entanto, dizer que já trabalhei com a Cityschool do Porto e que não o voltaria a fazer. As instalações são muito boas, mas não é muito bem pago (bom, sempre é melhor do que um Wall Street Institute, mas aí também já estamos a falar de extremos de decadência). Além disso, uma coisa a ter em conta no trabalho de formador de línguas específicas é também o de fazer valer a nossa escassez. Para quem trabalha com prestação de serviços, não se podem tolerar pagamentos irrisórios (até porque os alunos deste tipo de institutos pagam pequenas fortunas para os frequentarem). Posso dizer que trabalhei lá para ganhar experiência mas o que me pagaram quase não cobriu despesas de deslocação - sim, porque para dar este tipo de formação, não é ao virar da esquina que se encontram as pessoas devidamente qualificadas e nem o facto de se residir numa área afastada os faz reflectir minimamente sobre as propostas de pagamento. No entanto, para mim o problema não residia no que eu poderia lucrar. O verdadeiro problema foi lidar com a directora da Cityschool do Porto, Luísa Lupi. Para alguém que apregoa constantemente a relação interpessoal com colegas de trabalho como um dos principais aspectos a ter em conta, o estilo opressor, desconfortável e hierárquico com o qual lida com os formadores que emprega, é simplesmente insuportável. Eu sei que as coisas não estão fáceis e etc mas fica a mensagem de que não nos podemos sujeitar a qualquer coisa por uns trocos. Aproveitem a oferta e a experiência, mas não se deixem intimidar pela postura da senhora. Ela não tem qualquer direito de vos fazer sentir seus submissos.
domingo, 27 de março de 2011
Idiotés
"Os gregos antigos chamavam idiotés ao indivíduo que não se metia em política; a palavra significava pessoa isolada, sem nada para oferecer aos restantes, obcecada pelas pequenas coisas de ordem doméstica e, afinal de contas, manipulada por toda a gente."
" Cada um de nós considera mais ou menos óbvio que deve preocupar-se consigo e, no melhor dos casos, acha também que importa ser-se o mais decente possível; mas quanto aos problemas que temos em comum com os outros, quanto ao que a todos nos diz respeito, leis, direitos e deveres de alcance geral… ora, isso são coisas que só têm interesse para quem gosta de complicar a vida! No meu tempo, tinha-se por adquirido que o facto de um indivíduo ser politicamente “bom” o autorizava a ignorar a moral de cada dia; hoje parece ponto assente que se tentarmos conduzir-nos moralmente no plano privado fazemos já o bastante, não sendo necessário que nos preocupemos com os assuntos públicos, ou seja, políticos. "
Fernando Savater
domingo, 13 de março de 2011
Nós, os jovens
Sem dúvida que estávamos a precisar de um grito destes para manifestar a nossa existência, para mostrar que, sim, estamos aqui a perseguir expectativas – nossas ou de outros - que não conseguimos cumprir. Vivemos numa realidade ilusória de mobilidade social coerente para nos apercebermos de que afinal a mobilidade social não é tão bem estruturada como um dia pensámos que fosse. Agregados aos problemas meramente políticos e económicos, sentimos a frustração de viver num país envelhecido que nos reprime qualquer sentido de irreverência intelectual e cultural e que é contagioso e que torna os jovens muito mais velhos do que aquilo que são.
E quando se está à rasca quer-se mudar essa situação. Quer dizer, parece lógico, quando se está mal quer-se estar bem. Querer estar bem por si só pode ser um ponto de partida e, nesse sentido, estar-se lúcido da sua condição - ou falta de condições - já é muitas vezes uma conquista. No entanto, será meramente um ponto de engrenagem. A partir desta constatação é a procura de uma solução que ocupará o espaço dedicado à continuidade desta determinação. Essa procura tem, no entanto, que se construir concretamente, fundamentada num projecto ideológico coerente com objectivos mas também com métodos, ou seja, meios para atingir um determinado fim.
Ao exporem-se também se lhes deixam avaliar as falhas. Por exemplo, somos imparciais e possuímos esta herança social do consenso, do “dar-se bem com toda a gente” que simplesmente nos faz perder qualquer personalidade, sobressaindo também a cobardia de encarar quem nos opõe. Mais, esta determinação apolítica não é mais do que ignorância por um lado e desinteresse por outro – embora estas duas facetas estejam correlacionadas. Por um lado, não decidir também nos varre a necessidade do conhecimento que nos conferirá a capacidade de decisão de entre as várias posturas possíveis. Por outro, parece que ninguém quis saber de política para nada até as coisas nos afectarem a nós. E é precisamente neste ponto, nesta incapacidade de criar um movimento próprio com ideias próprias que surgem os gritos por liberdade no meio de uma manifestação sobre precariedade laboral. Será que nos metemos na máquina do tempo e recuámos 40 anos? Mais ou menos, é que esta geração precisa de pegar nas vozes dos pais, que são as vozes revolucionárias que conhecem e que são uma referência de uma geração que não é esta, de uma realidade que não é esta. Depois há aquele ódio típico ao governo, como se o problema fosse o Sócrates e não a Merkel, como se o problema não fosse inquestionavelmente europeu. O governo tem tentado preservar o pouco estado social que ainda possuímos mas se não é o suficiente, porque não é, então terá que haver uma mobilização ainda mais à esquerda e uma mobilização coesa, com ideologias claras, que se defina e, acima de tudo, que crie um projecto focalizado na ideia de mudança de intenções de voto.
Um dos aspectos mais positivos da manifestação é sem dúvida a visibilidade internacional. Porque como o pessoal lá fora não ouviu as entrevistas na rua durante a tarde em que um skinhead falou, uma anarquista falou, uma defensora dos direitos dos animais falou, o Cavaco Silva falou, o senhor que precisava de renovar a canalização da casa falou, realmente estas 300 mil pessoas na rua até parece que estavam todas de acordo em relação ao fim dos contratos a prazo e dos recibos verdes… pelo menos passar essa ideia, vale sem dúvida a pena. Agora, resta repensar o movimento. O Jel e o Falâncio têm piada mas, deixem-me recordar que eles fazem sátira aos próprios militantes de esquerda! Parem lá de gritar “quero dinheiro para comprar um carro novo” porque isso é uma profunda ironia, por muito que não pareça e por muito que ter um carro novo seja efectivamente apelativo… mas sim é uma ironia!! Quem diria!... Pronto, enfim, já fiz o meu exercício de escrita e quero deixar registado o meu apelo para que se repense este movimento, vamos pôr aqui um governo que se está a borrifar para os mercados internacionais e para a Europa… só para ver no que dá! Porque isso, sim, seria irreverente e seria diferente. Ok, não necessariamente a borrifar mas, pelo menos, que a repensasse à luz de uma perspectiva de união real e não de divergências que só nos escravizam.
sábado, 5 de fevereiro de 2011
terça-feira, 18 de janeiro de 2011
Amin Maalouf e as favas do Cairo
Existem nos mercados do Oriente «favas» misteriosas a que antigas superstições dão o poder de favorecer o nascimento de crianças do sexo masculino. Quando o narrador deste romance, um sábio francês especialista em escaravelhos, consegue encontrar algumas durante uma viagem ao Egipto, não tem dúvidas de que o mundo acaba de entrar numa época crítica da sua história. Com efeito, um pouco por toda a parte, os nascimentos femininos vão-se tornando raros, sem razão aparente. Seriam as «favas» a origem dessa desgraça? Através de uma série de tentativas de investigação que os conduz até ao equador, o sábio e a sua expedição procuram uma explicação.
Feroz e terno, alegre e sério, este romance de Amin Maalouf presta-se a mais de uma leitura. Romance do amor «maternal» de um pai para com a sua filha, romance de um homem dedicado à «feminilidade do mundo», romance de um mal incompreensível que destrói as mulheres e atormenta os homens, romance da divisão do nosso planeta entre um Sul em decadência e um Norte que se exaspera, romance do assustador encontro entre as perversões do arcaísmo e as da modernidade... Mas talvez seja antes de mais o romance do desconcertante fim de século passado. Também com um olhar inquieto para o vinte e um, já presente e que o autor designa, enigmaticamente, O Século Primeiro depois de Beatriz.
O que é interessante neste livro é a forma como consegue construir uma narração em torno de uma ideia que soa a ficção científica biológica virada para reflexões humanistas. As favas do Cairo dispostas a conservar uma moral arcaica da preferência pelo nascimento de um filho e não de uma filha. Por outro lado, as relações pessoais retratadas com a distância de um catedrático. Realista mas não meloso. Com ideias antigas mas com uma perspectiva de ficção bastante interessante. Espero agora a leitura do “As Identidades Assassinas”. O que é realmente lamentável nesta edição é a péssima tradução e péssima revisão do livro, que até erros ortográficos deixou e traduções directas do francês de coisas que não fazem sentido. Gostava que a editora desse um tratamento melhor a estes livros do Amin Maalouf, que é cada vez mais conhecido e procurado, mas isso não justifica que editem as coisas à pressa.
quinta-feira, 6 de janeiro de 2011
domingo, 2 de janeiro de 2011
The Social Network
Apesar dos vários ingredientes positivos que se anteviam eu adiei a visualização deste filme, perdendo a oportunidade de o ver no cinema. Posso dizer que é algo de que me arrependo profundamente, mas agora não há volta a dar, a não ser que eu alugue uma sala só para mim e o projecte, o que até não era má ideia (não levava com o barulho das pessoas a comerem pipocas, já repararam que a maioria dos portugueses vão ao cinema essencialmente para comer pipocas?! como se o filme fosse um extra que vem com as pipocas). Seja como for, o que me levou a pensar assim foram os trailers que por algum motivo davam uma sensação de pretensão que foi nitidamente feita para atrair o grande público, já que o filme também fala de um fenómeno do grande público – e daí a minha desconfiança. No entanto, deveria acreditar mais no trabalho de David Fincher, pois realizou alguns dos meus filmes favoritos (Fight Club, Zodiac).
Parecia um filme sobre um fenómeno de massas virado para atrair a atenção dos miúdos novos dando a entender que basta ter uma ideia brilhante para se ter tudo na vida. Felizmente o filme é bem mais complexo e maturo do que isso, abordando precisamente a faceta altamente imatura deste tipo de ideias. Inicialmente confronta-nos, de facto, com uma tremenda presunção associada à noção de facebook, como a última tendência mundial genial, que eu nunca achei muito legítima, porque, como tudo, é uma questão que também está relacionada com tendências e marketing e a fase de aparecimento do facebook é uma fase em que tudo o que se relaciona com as redes sociais se está a desenvolver: a tentativa de transpor para a internet a experiência social da escola não é uma noção nova, por esta altura. Para além disso, acredito que as redes sociais não se resumem a algo tão linear. Apesar de possuírem bastante essa componente adolescente da descoberta do social, as plataformas de comunicação online, independentemente de serem redes sociais, têm a dimensão das pessoas que as utilizam desde que as possibilidades sejam infinitas.
Claro que se eu só tenho pessoas desinteressantes como amigos, a minha experiência com esta plataforma vai ser muito menos interessante, do que se acontecer ter amigos com bastante para dizer ao mundo (o que, felizmente, é o caso!). No fundo, é tudo uma questão de conteúdo e isso parece-me sempre positivo. No filme, é interessante a referência ao Livejournal, porque parece-me que o livejournal foi uma das ideias mais próximas da experiência facebook uma vez que apesar do formato de blog tinha também a componente restritiva que caracteriza o facebook. A ideia de que Mark Zuckerberg é um adolescente associal que cria um projecto para fomentar a sociabilidade pode não parecer novo, da mesma maneira de que é a rejeição de uma rapariga que o torna desequilibrado na sua procura por notoriedade. Podiam ser ideias tratadas como meros clichés, mas o final do filme consegue captar-lhes bem a essência e inegável veracidade. Da mesma maneira que Fincher tem uma visão bastante putrefacta desta geração do consumo, completamente frívola.
Numa sociedade em que as leis do marketing funcionam como ditadores de uma filosofia de vida, em que parece tão idílico nunca assumir um compromisso definitivo com nada, porque a disponibilidade é um campo de movimentação da ilusão e da economia. Para uma geração à qual não é possível dar um lugar estável na sociedade nem no mundo, a aparência dos prazeres momentâneos parece tão apelativa, quando na realidade é tão falsa e tão medíocre como a personagem do Timberlake. Sinceramente, conheço demasiadas pessoas a quem esta frase assentaria como uma luva “You're not an asshole, you just try so hard to be one”.
O filme consegue ser bastante confuso no seu decorrer, com tantas prolepses e analepses e a personagem do Mark parece-me algo caricatural. No entanto, é uma reflexão sobre uma geração e tem uma mensagem bastante conseguida. Um excelente filme deste 2010 que me pareceu um ano algo infrutífero para o cinema.
Parecia um filme sobre um fenómeno de massas virado para atrair a atenção dos miúdos novos dando a entender que basta ter uma ideia brilhante para se ter tudo na vida. Felizmente o filme é bem mais complexo e maturo do que isso, abordando precisamente a faceta altamente imatura deste tipo de ideias. Inicialmente confronta-nos, de facto, com uma tremenda presunção associada à noção de facebook, como a última tendência mundial genial, que eu nunca achei muito legítima, porque, como tudo, é uma questão que também está relacionada com tendências e marketing e a fase de aparecimento do facebook é uma fase em que tudo o que se relaciona com as redes sociais se está a desenvolver: a tentativa de transpor para a internet a experiência social da escola não é uma noção nova, por esta altura. Para além disso, acredito que as redes sociais não se resumem a algo tão linear. Apesar de possuírem bastante essa componente adolescente da descoberta do social, as plataformas de comunicação online, independentemente de serem redes sociais, têm a dimensão das pessoas que as utilizam desde que as possibilidades sejam infinitas.
Claro que se eu só tenho pessoas desinteressantes como amigos, a minha experiência com esta plataforma vai ser muito menos interessante, do que se acontecer ter amigos com bastante para dizer ao mundo (o que, felizmente, é o caso!). No fundo, é tudo uma questão de conteúdo e isso parece-me sempre positivo. No filme, é interessante a referência ao Livejournal, porque parece-me que o livejournal foi uma das ideias mais próximas da experiência facebook uma vez que apesar do formato de blog tinha também a componente restritiva que caracteriza o facebook. A ideia de que Mark Zuckerberg é um adolescente associal que cria um projecto para fomentar a sociabilidade pode não parecer novo, da mesma maneira de que é a rejeição de uma rapariga que o torna desequilibrado na sua procura por notoriedade. Podiam ser ideias tratadas como meros clichés, mas o final do filme consegue captar-lhes bem a essência e inegável veracidade. Da mesma maneira que Fincher tem uma visão bastante putrefacta desta geração do consumo, completamente frívola.
Numa sociedade em que as leis do marketing funcionam como ditadores de uma filosofia de vida, em que parece tão idílico nunca assumir um compromisso definitivo com nada, porque a disponibilidade é um campo de movimentação da ilusão e da economia. Para uma geração à qual não é possível dar um lugar estável na sociedade nem no mundo, a aparência dos prazeres momentâneos parece tão apelativa, quando na realidade é tão falsa e tão medíocre como a personagem do Timberlake. Sinceramente, conheço demasiadas pessoas a quem esta frase assentaria como uma luva “You're not an asshole, you just try so hard to be one”.
O filme consegue ser bastante confuso no seu decorrer, com tantas prolepses e analepses e a personagem do Mark parece-me algo caricatural. No entanto, é uma reflexão sobre uma geração e tem uma mensagem bastante conseguida. Um excelente filme deste 2010 que me pareceu um ano algo infrutífero para o cinema.
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sábado, 25 de dezembro de 2010
domingo, 19 de dezembro de 2010
Prémio Literário José Luís Peixoto 2010
Escrevo desde que consigo escrever, desde o momento em que escrevi uma história num caderno quadriculado, desenhei-lhe uma capa e coloquei na biblioteca da turma que ficava ao fundo da sala, ao lado dos contos do Hans Christian Andersen e do livro que contava a história dos três pastorinhos de Fátima. Não acredito que toda a criação é inata, mas a predisposição passará certamente como necessidade e é espontânea em algum momento. A regularidade dessa criação surgiu-me num contexto de maior capacidade de apreciação literária. Há uma dose de auto-valorização que surge quando pensamos atravessar crises pretensiosamente existencialistas, isso e o contacto com certos grupos de pessoas que me fizeram ler certos livros teve um peso bastante relevante. Se há uma vontade narcísica na criação? Claro que sim, basta conhecer pessoalmente alguns artistas, percebe-se logo isso. Saramago numa entrevista pouco antes de falecer dizia que o que o tinha feito escrever fora essencialmente a inveja. Será que isso realmente interessa, no final de tudo, o que raio motiva um bom artista a criar, desde que crie? Eu não acho.
Quando tinha quinze anos fiquei certo dia surpreendida por estar a ouvir um amigo recitar poemas d' “Horto de incêndio” de Al Berto e subitamente eu ver-me a repetir verso a verso os vários poemas que ele lia. Porque a poesia é a palavra musicada e a música é também, mas não exclusivamente, poesia espetacularizada, encenada, contextualizada com outros ornamentos mas, antes de tudo, grande parte da música que ouvimos é poesia e quando consigo cantar não sei quantas músicas de cor, fará todo o sentido saber recitar poemas, no seu todo ou parcialmente, devido à repetição da leitura. Porque a poesia para mim recebe o mesmo tratamento de uma música que ouço vezes sem conta porque me agrada, porque não se esgota na sua repetição, porque há sempre sensações novas. A diferença é que a poesia se restringe ao campo intrinsecamente linguístico (se é que isso seja alguma restrição, o que não me parece!). Nessa altura, para além do Horto de Incêndio, outro livro que me passava pelos olhos repetidamente era “A criança em ruínas” do José Luís Peixoto. Eu conhecia coisas mais clássicas, que pessoa interessada em poesia não começa por Fernando Pessoa? Não dá uma vista de olhos em Mário de Cesarinny, não lê Baudelaire ou Rimbaud? Ok, talvez nem toda a gente tenha o mesmo percurso, dependerá das tendências, como sempre tive este fascínio pelo lúgubre ou corrosivo seria mais natural começar com esses autores, mas penso que seja um caminho bastante clássico.
Entretanto, depois de me pôr a escrever armada em Rimbaud feminina sem tendências homossexuais nem particular apetência para as drogas (não, charros não contam), o caminho seguinte foi o da tentativa da publicação que hoje em dia é bem mais facilitado com a internet e os blogs. É sempre interessante juntar-se novas tecnologias a formas tão clássicas de expressão artística como a poesia, porque associamos a poesia a uma forma primitiva e secular de expressão, e é de facto a forma mais ancestral de entretenimento artístico e dificilmente se extinguirá agora, lamento ter que vos informar disto a vocês, defensores ferrenhos de blockbusters com estética mainstream. O próximo passo, depois de o da publicação virtual que deveria ser suficiente para uma geração tão tecnológica é o da tradicional edição em papel, da qual ninguém parece conseguir prescindir por mais subversiva que seja a sua visão em relação a isto. O resultado muitas vezes são editoras como a mítica Quasi, que durante tanto tempo foi a editora de referência na boca dos grupos de jovens escritores e leitores mas que, como o prestígio não paga contas, acabou por falir. Lamentavelmente.
O meu segundo livro foi editado por uma derivante da Quasi, a Atelier. E foi editado devido a prémios literários. Porque este post é essencialmente sobre Prémios Literários, embora ainda não tenhamos lá chegado e por esta altura já ninguém esteja a ler nada disto. Seja como for, os Prémios Literários são um incentivo importante, uma forma de confirmar que alguém nos lê e, eventualmente, confirmar que alguém gosta do que lê. Este tipo de actividade artística tem que ser assim mantido por uma elite cultural defensora de valores artísticos, por muito que esta designação possa soar pouco bonita ou agradável para pessoas que não gostam da palavra “elite” nem “intelectual” ou até para os mais radicais que não gostam da expressão “valores artísticos”. O gosto do júri é tão questionável como o gosto de outra pessoa qualquer. No entanto, considero os prémios literários de extrema importância para o incentivo da produção literária entre jovens escritores. O que é curioso é que, de uma maneira geral, os prémios impõem valores artísticos bastante ligados a uma estética que é mais ou menos vanguardista ao mesmo tempo que já é completamente vigente. Refiro-me aos trabalhos poéticos altamente relacionadas com correntes pós-surrealistas e neo-simbolistas baseadas nos grandes pilares da poesia portuguesa contemporânea (Al Berto, Herberto Helder, Nuno Júdice, António Ramos Rosa…). São os meus poetas de referência e são absolutamente geniais e apenas ligeiramente comparáveis a qualquer produção poética internacional, se me permitem o chauvinismo e o enveredar por ideologias clichés e melosas que nos designam por “país de poetas”. É mesmo verdade. Agora, estes senhores são todos poetas marcantes do século XX português e são totalmente contemporâneos na sua acepção mais precisa, concordo.
No entanto, a viragem tem de se começar a fazer. Todos os estilos artísticos oferecerem uma compreensível resistência ligada à definição de qualidade e de renovação. Porque na arte, a linha que separa o erro da inovação é por vezes tão ténue e é por vezes necessária tanta perspicácia, tanto entendimento para se precisar uma distinção. Picasso teve que provar que sabia desenhar flores em formato de representação pictórica da realidade antes de se pôr para lá a desproporcionar as formas de uma maneira totalmente voluntária e os júris de um prémio literário ou simplesmente as pessoas que analisam poesia têm que compreender se aquele escritor está enveredar por ali porque não tem a mínima noção do que está a fazer ou se pode perfeitamente manter-se no estilo vigente por conhecê-lo perfeitamente e dominá-lo, mas opta voluntariamente por não o fazer.
Sim, isto deveria ser uma reflexão de filosofia da arte com muito mais profundidade do que um post colocado num blog num início de tarde sem muito para fazer, mas o que eu acho é que os próprios prémios literários em Portugal estão a estabelecer expectativas em relação ao que é premiado. Por exemplo, eu não concorreria com um trabalho como o Fast-culture a prémio literário nenhum que não o Prémio Literário José Luís Peixoto. Isto porque eu sabia que seria o único prémio a apostar nesta postura corrosiva face à produção poética e sem dúvida que José Mário Silva e José Luís Peixoto são os júris mais indicados. Lembro que a página do Diário de Notícias, DN Jovem onde toda esta jovem malta que escreve também participava, onde conheci vários colegas das letras com quem ainda hoje tenho contacto, era um sítio de fabulosas descobertas literárias. O DN Jovem acabou, a Quasi faliu. Temos que fazer alguma coisa! E o PLJLP parece ter essa vivacidade que é preciso ressuscitar, de alguma forma.
Entretanto, depois de me pôr a escrever armada em Rimbaud feminina sem tendências homossexuais nem particular apetência para as drogas (não, charros não contam), o caminho seguinte foi o da tentativa da publicação que hoje em dia é bem mais facilitado com a internet e os blogs. É sempre interessante juntar-se novas tecnologias a formas tão clássicas de expressão artística como a poesia, porque associamos a poesia a uma forma primitiva e secular de expressão, e é de facto a forma mais ancestral de entretenimento artístico e dificilmente se extinguirá agora, lamento ter que vos informar disto a vocês, defensores ferrenhos de blockbusters com estética mainstream. O próximo passo, depois de o da publicação virtual que deveria ser suficiente para uma geração tão tecnológica é o da tradicional edição em papel, da qual ninguém parece conseguir prescindir por mais subversiva que seja a sua visão em relação a isto. O resultado muitas vezes são editoras como a mítica Quasi, que durante tanto tempo foi a editora de referência na boca dos grupos de jovens escritores e leitores mas que, como o prestígio não paga contas, acabou por falir. Lamentavelmente.
O meu segundo livro foi editado por uma derivante da Quasi, a Atelier. E foi editado devido a prémios literários. Porque este post é essencialmente sobre Prémios Literários, embora ainda não tenhamos lá chegado e por esta altura já ninguém esteja a ler nada disto. Seja como for, os Prémios Literários são um incentivo importante, uma forma de confirmar que alguém nos lê e, eventualmente, confirmar que alguém gosta do que lê. Este tipo de actividade artística tem que ser assim mantido por uma elite cultural defensora de valores artísticos, por muito que esta designação possa soar pouco bonita ou agradável para pessoas que não gostam da palavra “elite” nem “intelectual” ou até para os mais radicais que não gostam da expressão “valores artísticos”. O gosto do júri é tão questionável como o gosto de outra pessoa qualquer. No entanto, considero os prémios literários de extrema importância para o incentivo da produção literária entre jovens escritores. O que é curioso é que, de uma maneira geral, os prémios impõem valores artísticos bastante ligados a uma estética que é mais ou menos vanguardista ao mesmo tempo que já é completamente vigente. Refiro-me aos trabalhos poéticos altamente relacionadas com correntes pós-surrealistas e neo-simbolistas baseadas nos grandes pilares da poesia portuguesa contemporânea (Al Berto, Herberto Helder, Nuno Júdice, António Ramos Rosa…). São os meus poetas de referência e são absolutamente geniais e apenas ligeiramente comparáveis a qualquer produção poética internacional, se me permitem o chauvinismo e o enveredar por ideologias clichés e melosas que nos designam por “país de poetas”. É mesmo verdade. Agora, estes senhores são todos poetas marcantes do século XX português e são totalmente contemporâneos na sua acepção mais precisa, concordo.
No entanto, a viragem tem de se começar a fazer. Todos os estilos artísticos oferecerem uma compreensível resistência ligada à definição de qualidade e de renovação. Porque na arte, a linha que separa o erro da inovação é por vezes tão ténue e é por vezes necessária tanta perspicácia, tanto entendimento para se precisar uma distinção. Picasso teve que provar que sabia desenhar flores em formato de representação pictórica da realidade antes de se pôr para lá a desproporcionar as formas de uma maneira totalmente voluntária e os júris de um prémio literário ou simplesmente as pessoas que analisam poesia têm que compreender se aquele escritor está enveredar por ali porque não tem a mínima noção do que está a fazer ou se pode perfeitamente manter-se no estilo vigente por conhecê-lo perfeitamente e dominá-lo, mas opta voluntariamente por não o fazer.
Sim, isto deveria ser uma reflexão de filosofia da arte com muito mais profundidade do que um post colocado num blog num início de tarde sem muito para fazer, mas o que eu acho é que os próprios prémios literários em Portugal estão a estabelecer expectativas em relação ao que é premiado. Por exemplo, eu não concorreria com um trabalho como o Fast-culture a prémio literário nenhum que não o Prémio Literário José Luís Peixoto. Isto porque eu sabia que seria o único prémio a apostar nesta postura corrosiva face à produção poética e sem dúvida que José Mário Silva e José Luís Peixoto são os júris mais indicados. Lembro que a página do Diário de Notícias, DN Jovem onde toda esta jovem malta que escreve também participava, onde conheci vários colegas das letras com quem ainda hoje tenho contacto, era um sítio de fabulosas descobertas literárias. O DN Jovem acabou, a Quasi faliu. Temos que fazer alguma coisa! E o PLJLP parece ter essa vivacidade que é preciso ressuscitar, de alguma forma.
segunda-feira, 13 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
domingo, 5 de dezembro de 2010
Dirty dirty
Há músicas assim que de tão histericamente más fazem com que eu não consiga não gostar... sim, é mais ou menos este sentimento enviesado. Acontece-me com a Kesha assim como com a Lady G e por aí adiante (já se está a perceber o nível)...
Gosto do início no carro e aquela parte da música em que ele diz "tell the world what I believe", é a única parte da música em que não se fala de fotos porcas e realmente dá ali aquele toque poético e profundo completamente despropositado que torna esta música tão fabulosa.
Gosto do início no carro e aquela parte da música em que ele diz "tell the world what I believe", é a única parte da música em que não se fala de fotos porcas e realmente dá ali aquele toque poético e profundo completamente despropositado que torna esta música tão fabulosa.
segunda-feira, 22 de novembro de 2010
The Walking Dead
Compreendo perfeitamente o dilema, Lori. Não era exactamente do que estava à espera numa série de zombies... mas também serve. Só faltava mais um bocadinho de escola de actor. Ahh e uns jump scares uma vez por outra não faziam mal, afinal é uma série de zombies e tal... mais dilema também era bom, e mais banda sonora, definitivamente mais banda sonora... :/
sábado, 20 de novembro de 2010
Ay, Carmela pelo Teatro das Beiras
Tentando actualizar o blog com frequência por necessidades de prática da expressão escrita – tenho que optar por este tipo de exercícios de aquecimento - há semanas em que lá me ponho ocupada a fazer outras coisas e não vem muito aqui parar. É por isso que apesar de ter ido ver esta peça há uma semana atrás só agora me digno a escrever sobre o assunto. Este mês foi a segunda vez que o teatro circo (theatro circo?) apresentou algo relacionado com teatro espanhol, ainda mais teatro alegórico que recorre à técnica brechtiana de falar de uma outra época para retratar o presente quando o presente não pode ser retratado devido a algum regime totalitário. A primeira foi "La casa de Bernarda Alba" de Frederico Garcia Lorca e a da semana passada foi "Ay, Carmela", uma peça de José Sanchis Sinisterra. A diferença entre estas duas é que a segunda tem um registo muito mais humorístico.
"“Ay, Carmela!”, é um texto teatral que ganhou foros de referência obrigatória quando tratamos de abordar a criação dramatúrgica dos finais do Séc. XX.
Situando a acção num contexto de confronto de carácter político e ideológico, num momento particularmente difícil para a história da humanidade, “Ay, Carmela!”, propõe-nos uma reflexão sobre questões e temas absolutamente intemporais.
A condição da arte e dos seus protagonistas perante as circunstâncias envolventes do poder. A ética dos valores não discricionários, a cultura democrática das sociedades contemporâneas, os movimentos sociais têm em “Ay, Carmela!”, um desafio à memória como exercício de fecunda aprendizagem.
Perdidos numa noite de nevoeiro e fome, dois anónimos “artistas de variedades”, caem em território “inimigo”. Aí, em troca da “liberdade”, são obrigados a apresentar o seu espectáculo às tropas vencedoras e aos prisioneiros vencidos. Que fazer à representação para “sobreviver” em tão díspar plateia? Como resistir ou ceder sem abalar a dignidade?"
Esta peça encenada por Gil Salgueiro Nave e interpretada por Fernando Landeira e Sónia Botelho foi interessante sem perder a sua dose de entertaining, que é o que muitas vezes faz falta ao teatro. No entanto, pegando numa peça como esta, difícil era conseguir fazer com que os dois únicos actores em palco se mantivessem com energia até ao fim. Felizmente a energia foi gradativa e se ao início não consegui interiorizar completamente a personagem masculina, quando ele entra num monólogo com um suposto director de luzes para o seu espectáculo de variedades, o actor revelou toda a sua qualidade cénica, envolvente e empática. Embora não toque muito fundo em valores nacionais, já que eu não vivi a Guerra Civil espanhola nem tenho a esta especial afinco, é bom verem-se encenadas peças que entram em formas de percepcionar as ocorrências algo experimentais, que tentam introduzir elementos novos – a peça é feita com várias prolepses, analepses, recursos a visões oníricas, etc – mas que seguem modelos clássicos de narração, e modelos clássicos de interpretação.
quarta-feira, 10 de novembro de 2010
This is England
Ontem tive a feliz casualidade de ver este filme na cinemateca e é bom ter a sensação de se descobrir uma grande obra-prima. O filme consegue impregnar-se em nós e dar-nos a conhecer o surgimento de um movimento que inicialmente não assimilamos completamente a não ser, claro, pelas referências e localizações históricas e temporais. O que acontece é que não assimilamos automaticamente a que movimento é que se refere porque o filme transporta-nos para dentro de si de uma maneira que nos faz sentir uma empatia pelas personagens que chega a ser perturbadora. Claro que grande parte desse contributo se deve aos diálogos e às fabulosas interpretações mas também a momentos de génio nos quais o filme consegue ser subversivo no sentido mais inteligente da palavra. A história decorre em Julho de 1983 e tem como protagonista um miúdo de 12 anos que atravessa uma fase complicada da sua vida, tendo recentemente perdido o pai na Guerra das Malvinas. Este pequeno rapaz de personalidade bastante acentuada e numa posição emocionalmente frágil acaba por se integrar num grupo de jovens com estilos de vida alternativos reivindicadores de uma subcultura em formação: os skinheads. As interpretações são extraordinárias e a forma como esta subcultura é apresentada faz-nos perceber que a sua génese era uma génese ligada à estética, não muito diferente de um qualquer movimento punk. Camisas com suspensórios e botas Dr Martens. A sua evolução, contudo, metamorfoseou-se em todos os valores ultra-nacionalistas que lhe são conhecidos. Esta mistura característica dos skinheads em Inglaterra - uma mistura de bullys com hooligans com xenófobos – desenvolve-se numa segunda fase do movimento, quando este deixa de ser apolítico como era inicialmente. É uma reflexão interessante mas não se fica por aí. O filme desenvolve-se de uma forma leve e ligeira, quase simpática até que gradualmente, a partir de metade do filme, começa a revelar a sua componente mais negra quando começam a surgir os sinais da evolução do movimento até concluir num final trágico que nos dá a compreender toda a dimensão dos problemas do racismo: este fundamenta-se na dor e na inveja que aqueles que sofrem sentem. É precisamente toda esta dimensão psicológica que o filme transcende, cheio de complexidade e dimensão nas suas posições que o torna genial. Algo que questiona os limites de uma identidade nacional e que dá uma lição tão dura quanto carinhosa ao seu próprio país.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
The Dixie Boys
Ontem, no Pede Salsa em SJM, esta banda de rockabilly do Porto criou um ambiente excelente.
sábado, 6 de novembro de 2010
Micronarrativas
Ontem à tarde, o Colóquio de Outono era sobre as mutações do conto nas sociedades urbanas. Tendo este mote em mente podemos encontrar reflexões diversas. Quais são as particularidades do conto nas sociedades urbanas? Estamos a centrar-nos em temáticas ou em estilos de abordagem? O urbanismo reflecte-se nos conteúdos, nas personagens com estilos de vida distintos, numa concepção alterada de realização da existência ou, por exemplo, em diferentes percepções da moral?
Ou estamos a referir-nos a formatos vanguardistas da exposição do texto (lembram-se daquela onda da poesia concreta?) . Bom, aparentemente estava a falar-se de ambos mas relacionado com uma única ideia primordial: a noção do tempo. Ou da falta dele. Por isso essa tarde era essencialmente dedicada a um género pós-moderno designado de micronarrativa. À volta do género tentou discutir-se um pouco de tudo. Contudo, a discussão sobre esse género era também perfumada pela presença da ideia da tradição oral como algo comparável à noção de micronarrativa. Por isso juntaram-se contadores de histórias com escritores de micronarrativa. Participantes da revista Minguante, o autor Rui Manuel Amaral , o autor Luís Ene e contadores de histórias como David Heathfield ou Thomas Bakk foram alguns dos presentes.
Às micronarrativas, ou às Short Stories temos referências desde os clássicos ETA Hoffmann ou Gogol assim como Jorge Luís Borges. A nível de tradição anglo-saxónica nem se fala: Kipling, Faulkner, F. Scott Fitzgerald, James Joyce, Hemingway...
O debate careceu de alguma definição teórica mais académica e científica. As micronarrativas não serão, certamente, apenas textos curtos – os autores muito aludiram ao facto de que o formato não lhe retira o brilhantismo ou a genialidade “a literatura não se mede ao metro”. Certamente e até aí ninguém o contrariou, Rui. Tal como a poesia ou o próprio humor: expor em menos tempo é sempre uma forma de recolher uma essência concentrada. Falou-se em urbanismo e em novas tecnologias e na forma como os escritores poderiam começar a compor literatura com um twitt – vou ver se começo a adicionar tais iluminados, os meus amigos no twitter não têm, por norma, o hábito de compor obras de arte pelo smartphone.
Mas, enfim, há algo de pertinente nesta mescla de referências: a noção de brevidade, a assunção de um conteúdo literário, artístico, reflexivo e criativo que pode ser condensada num género breve, numa cultura que precisa, necessariamente, de ser cada vez mais rápida. Eu não poderia ser mais solidária com as cogitações do colóquio: olhem só para o título do meu último trabalho! Agora, resta quebrar alguns pudores e algumas limitações. Um escritor não é menos escritor porque só escreve breves contos ou apenas poesia – quais são os limites da definição? É a micronarrativa poesia em prosa, já que a poesia também pode narrar e a micronarrativa nem tem necessariamente que narrar, ou pelo menos, não necessariamente pelas estruturas convencionais? Se a micronarrativa é uma forma de comunicação com os leitores que pode ser assimilada mais rapidamente, porque é que um autor não pode admitir, sem pudor de ser considerado – ó, um autor menor – que a própria concepção do texto literário se torna mais breve e mais imediata? Se a relação com a criação de um texto breve é uma relação quase hedonísta, de prazer momentâneo, de exorcização criativa fraccionária que não nos assombra constantemente num trabalho obsessivo como o é o da concepção de uma obra literária mais longa, então porque não assumir esta vertente?
Queremos sempre repensar as nossas tradições artísticas à luz das metamorfoses do meio mas há sempre esta incapacidade que é a de conseguir assumir apenas parcialmente as novas necessidades. E não é porque a relação do autor com a obra se torna mais imediata que a obra se desvaloriza e eu não ouvi ninguém no colóquio colocar as coisas nestes termos, mas infelizmente os convidados não foram capazes de ultrapassar este pudor que é o de que é possível estabelecer uma relação mais breve com a criação e que se alguém se atrever - Cruzes credo! - a não nos tratar por “escritores” por causa disso ou até mesmo a chamar de “literatura” o que eu fazemos, vamos lá ver, será que eu quero realmente saber? Pelos vistos, eles querem, afinal tem que se estar afeiçoado a rótulos tradicionais mesmo quando a ideia da concepção do género é inovar, e isso, sinceramente, parece-me paradoxal.
Mas, enfim, há algo de pertinente nesta mescla de referências: a noção de brevidade, a assunção de um conteúdo literário, artístico, reflexivo e criativo que pode ser condensada num género breve, numa cultura que precisa, necessariamente, de ser cada vez mais rápida. Eu não poderia ser mais solidária com as cogitações do colóquio: olhem só para o título do meu último trabalho! Agora, resta quebrar alguns pudores e algumas limitações. Um escritor não é menos escritor porque só escreve breves contos ou apenas poesia – quais são os limites da definição? É a micronarrativa poesia em prosa, já que a poesia também pode narrar e a micronarrativa nem tem necessariamente que narrar, ou pelo menos, não necessariamente pelas estruturas convencionais? Se a micronarrativa é uma forma de comunicação com os leitores que pode ser assimilada mais rapidamente, porque é que um autor não pode admitir, sem pudor de ser considerado – ó, um autor menor – que a própria concepção do texto literário se torna mais breve e mais imediata? Se a relação com a criação de um texto breve é uma relação quase hedonísta, de prazer momentâneo, de exorcização criativa fraccionária que não nos assombra constantemente num trabalho obsessivo como o é o da concepção de uma obra literária mais longa, então porque não assumir esta vertente?
Queremos sempre repensar as nossas tradições artísticas à luz das metamorfoses do meio mas há sempre esta incapacidade que é a de conseguir assumir apenas parcialmente as novas necessidades. E não é porque a relação do autor com a obra se torna mais imediata que a obra se desvaloriza e eu não ouvi ninguém no colóquio colocar as coisas nestes termos, mas infelizmente os convidados não foram capazes de ultrapassar este pudor que é o de que é possível estabelecer uma relação mais breve com a criação e que se alguém se atrever - Cruzes credo! - a não nos tratar por “escritores” por causa disso ou até mesmo a chamar de “literatura” o que eu fazemos, vamos lá ver, será que eu quero realmente saber? Pelos vistos, eles querem, afinal tem que se estar afeiçoado a rótulos tradicionais mesmo quando a ideia da concepção do género é inovar, e isso, sinceramente, parece-me paradoxal.
A micronarrativa não parece ser, contudo, um género que se fecha na sua definição pelo tamanho. Se a quisermos definir por oposição à ideia de metarrativa de Lyotard, quando reformula a condição do pós-modernismo. No dicionário de termos literários podemos ler: Para uma doença, a Ciência dirá que possui todas as respostas conhecidas (totalidade a que chamamos metanarrativa); se uma comunidade local possuir uma resposta simples para essa doença (unidade a que chamamos micronarrativa), não estaremos a pressupor que a verdade foi definitivamente alcançada. Lyotard defende a “incredulidade” nas metanarrativas (humanismo, iluminismo, modernismo, etc.,) como o fundamento do pensamento pós-moderno. (Jean-François Lyotard: A Condição Pós-Moderna (2ª ed., Lisboa, 1989); Id.: O Pós-Moderno Explicado às Crianças (Lisboa, 1987)).
Assim, na minha perspectiva, o valor real da micronarrativa reside no descontrolo do conhecimento, nas percepções fragmentárias do mundo, na continuidade da diversidade dos jogos de linguagem canalizadas num sentido oposto ao das metanarrativas, de acção convergida. A micronarrativa abre caminho ao pós-estruturalismo e à análise do caos. Gostaria de ter ouvido mais sobre isto e menos de "eu escrevo pouco mas... mas BEM, ouviram? Não sejam ignorantes, sou tão escritor como os outros".
Com esta minha posta de pescada sobre do rigor académico eu não defendo a necessidade de se conversar num colóquio como quem lê um ensaio da Helena Buescu mas, por outro lado, se o estilo descontraído de um orador ganha todo o meu respeito, a absoluta falta de rigor na escolha dos termos (nós não queremos pôr “palha” nos nossos textos) também faz com que o meu respeito lá se vá para debaixo de alguma cadeira sonolenta de auditório.
domingo, 31 de outubro de 2010
Expo Shanghai chega ao fim
Pavilhão português vence prémio de design na Expo de Xangai. De entre os 42 que constituem a categoria de edifícios alugados. Dos construídos de raiz, os que ganharam foram o do Reino Unido e o da Finlândia. Embora de um ponto de vista arquitectónico exterior estes dois pavilhões fossem interessantes o que é certo é que, especialmente o do Reino Unido, foi uma grande frustração. Toda a importância do pavilhão advinha do facto de ser uma das arquitecturas nocturnas mais impressionantes e de todas as vezes que tentei vê-lo à noite as luzes estavam desligadas. Desconfio eventualmente que tenha sido por uma questão de falta de recursos mas, sinceramente, não se pode atribuir tanto relevo a um pavilhão que não pôde ser visto durante a noite quando a sua principal atracção era precisamente essa. Destes modelos de pavilhões construídos de raiz, o que me agradou mais foi o da Dinamarca que primou pela originalidade das visitas de bicicleta, chamando a atenção para esse aspecto ecológico - já que era esse o tema da expo. Mas de uma maneira geral, em termos de interior, o meu pavilhão favorito foi o da Espanha, que tive oportunidade de visitar pela sorte de ter caído nas boas graças das meninas espanholas que vigiavam a entrada VIP, porque de outra forma teria sido impossível. Este era um pavilhão com marcação cuja entrada implicava, mesmo com marcação, uma espera de 3 horas. Foi o principal problema da Expo Shanghai, o excesso de pessoas, ainda que na expo de maiores dimensões de sempre. Parece que ainda consigo sentir as dores nas pernas das 5 horas de espera para entrar no pavilhão do Japão, embora, felizmente, tenha sido o único pavilhão no qual esperei para entrar. Mas o pavilhão de Espanha estava bem construído em termos de transmissão da informação histórica, com os ecrãs a voarem por todo o espaço a cronometrarem todos eventos importantes da história de Espanha. Havia também uma actuação de dança castelhana ao vivo e, finalmente, o bebé gigante attention freak que simulava com realismo movimentos humanos – o que era assustador. Se numa perspectiva inicial o bebé gigante me parecia absurdo e despropositado e mero chamariz, o que é certo é que no final foi das melhores experiências de pavilhão que tive. A nível de exterior, o pavilhão da China e o seu incumprimento estabelecido pelas associações internacionais de não ultrapassar numa escala mais do que duplicada os pavilhões restantes, fez toda a diferença. Mas compreende-se. É a China! Há todos os dias vários milhões de pessoas a visitar a expo e todos os vários milhões anseiam entrar no pavilhão da sua naçãozinha querida ...e não dá! Então, é realmente preferível construir um pavilhão que se valha pelo seu exterior. E isso, inquestionavelmente, aconteceu.
O pavilhão de Portugal tinha uma estrutura de cortiça interessante, em certa medida semelhante ao do Canadá - também um dos pavilhões com mais “hype” da expo. Contudo, devo dizer que depois de visitado ambos, o de Portugal me pareceu mais interessante a nível de conteúdo interior. O do Canadá só tinha recursos a projecções multimédia. O de Portugal tinha introdução histórica, apresentação da nossa vanguarda ecológica e depois muitos produtos para se comprar, desde azeite a uma imitação de pastéis de nata (porque a receita real não pode sair destas fronteiras, está claro). Aqui fica um top 10 dos meus pavilhões favoritos – apesar de que, como é óbvio, só tive oportunidade de visitar alguns e só os visitei por me ter escapado pela porta VIP, de uma maneira ou de outra (haveria aqui muitas histórias para contar a esse respeito!).
10 - Austrália/Rússia
Exacto, não me conseguia decidir... deveria fazer um Top11... mas não faz mal. São os dois grandiosos e é essencialmente esta arquitectura exterior que os torna tão majestosos.
9 - Dinamarca
Como já disse, é um dos mais originais.
8 - França
Gostei bastante do conteúdo do pavilhão. Não se focaram muito na temática ambiental da expo mas conseguiram transmitir todo o charme dos vários aspectos culturais que dão nome à França.
7 - Coreia do Sul
O pavilhão da Coréia do Sul tinha formas geométricas irregulares revestidas de Hangul colorido por todo o lado. Achei interessante esta opção de enveredar pelo lado popish do país.
6 - Roménia
Muito gira a maçã romena.
5 - Arábia Saudita
Gigante e impressionante!
4 - Portugal
Por uma questão patriótica, claramente.
3 - Macau
Em Macau entrávamos pela porta VIP com passaporte português! E o coelho de Macau foi uma das melhores experiências de expo que tive. O pavilhão é todo ele uma história em busca do coelho perdido, no qual se atravessa a história de Macau desde a ocupação portuguesa e dos missionários ao gigantesco antro de casinos que é hoje. Original e bem pensado!
2 - Espanha
Já falei deste pavilhão. Um dos melhores, sem dúvida. Um dos que teve mais visitas também.
1 - China
Não há muito a dizer sobre isto! É enorme, é impressionante, é lindo. Reminiscências das arquitecturas tradicionais chinesas numa mensagem megalómana muito clara. A sensação de estar debaixo disto é impossível de transcrever.
Claro que, no fundo, o melhor pavilhão foi este:
Mesmo ao lado do do Irão!
Mas em relação às 5 horas de espera para entrar no pavilhão do Japão... Está certo que vemos um robot que sabe tocar violino e uma máquina que transforma água do esgoto em água limpa e ainda, se tivermos muita sorte, podemos experimentar a ultra casa-de-banho que nos faz um TAC à cabeça ao mesmo tempo que expelimos as nossas necessidades, está certo, é muito bom, mas o pavilhão do Japão estava altamente mal concebido em termos logísticos porque fazia com que as pessoas tivessem a obrigatoriedade de estar um tempo pré-definido em cada espaço do pavilhão, em vez de permitir circular livremente. Daí o enorme tráfego do pavilhão. Portanto, não posso incluí-lo.
E agora, só mais uma vez por uma questão de patriotismo, o melhor vídeo da expo:
sábado, 30 de outubro de 2010
Uma Viagem... ao Japão
Estava com intenções de comprar este
mas acabei por não fazê-lo. Sou uma grande fã do Gonçalo M. Tavares, adoro todos os livros de capa preta, sobretudo do "Jerusalém", são sem dúvida geniais. A densidade psicológica das personagens e as narrativas sombrias que nos levam para a direcção de um certo determinismo que é, afinal, fictício, é brutal. Tal como em "A Máquina de Joseph Walser", "Aprender a Rezar na Era da Técnica" ou "Um Homem: Klaus Klump" que parece perpetuar um descrédito na humanidade, têm este lado de romances negros preenchidos de complexidade psicológica e ambientes distantes mas nostálgicos e frios, tão frios como os meandros das mentes das personagens. Este é tipo de livros que prefiro. Depois o GMT gosta de escrever coisas que são, nas palavras dele, mais lúdicas - pelo menos foi o que me disse na feira do livro do Porto há uns anos - às quais tem dado nomes de escritores "O senhor Valery", "O senhor Calvino", "O senhor Breton", uma série de senhores que compõem o Bairro. Estes livros nunca me cativaram tanto. A peça de teatro A Colher de Samuel Beckett editado pela Campo das Letras em 2003 também é interessante e gostaria de a ver interpretada. O livro de poesia 1 editado pela Relógio d'Água em 2004 também é fabuloso, trazendo uma lufada de ar fresco à poesia contemporânea portuguesa. Agora sobre esta Viagem à Índia não sei o que pensar pois não me dei ao trabalho de o ler, de facto (só folhear). A partir daí não tenho qualquer legitimidade para falar (ou escrever) sobre o assunto, mas a realidade é que esta epopeia em formato de reinterpretação dos Lusíadas é-me bastante desconfortável. Eu sei que o autor gosta de procurar a inovação estilística e causar algum desconforto mas será um desconforto de sentido ou de moral, não de narrativa, aqui as coisas surgem fragmentárias e parece que, de facto, o livro se resume a um exercício estilístico e não a uma essência genuína que nos faz levar umas bofetadas certeiras - porque é esta a metáfora mais apropriada para os desfechos geniais dos livros de ficção de GMT. Então, decidi comprar a mais recente reedição de um clássico japonês
"Silêncio" de Shusaku Endo, reeditado em Setembro pela Dom Quixote. Shusaku Endo e as suas meditações teológicas e os seus retratos fascinantes dos missionários do século XVI. Sem dúvida uma excelente aposta.
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sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Random
Humm.. eu sei que quando coloco um post sobre Bernardo Santareno até dá a sensação que a seguir irei reflectir sobre o realismo da Nouvelle Vague ou sobre as noções metafísicas no cinema de Andrei Tarkovsky ou o humanismo em Stendhal. Mas, a sério, não necessariamente. O que acontece é que o meu gosto é algo pluralista e se no post a seguir me puser a discorrer sobre blockbusters ou exploitation ou até filmes de luta livre mexicana (El Santo?) eu espero que não fiquem chocados. E eu gosto muito de Stendhal mas provavelmente não o vou ler no original francês!
Porque apesar de me mover nos círculos académicos da literatura, não sou uma leitora de francês (OMD, o choque!). Mas sou dessa nova geração da imagem e do entretenimento que só é fluente a inglês e tem ideias pedagógicas pouco ortodoxas que envolvem muitas vezes métodos audiovisuais (completamente falíveis porque têm sempre, necessariamente, falhas técnicas, porque os computadores é tudo muito bonito mas depois é nisso que dá). Não, não sou só fluente em inglês, eu já traduzi parte dos Anacletos de Confúcio - seria difícil impressionar mais mas é para estes pequenos apontamentos engraçados que se estuda chinês - mas não é a isso que quero chegar. A ideia é falar de despretensão e de abertura para uma realidade pós-moderna da concepção de arte assumindo o seu carácter lúdico, porque o que é lúdico não tem que ser necessariamente obtuso. Temos que assumir a entropia da nossa era e perceber que a nossa realidade artística é polimorfa, íntima, subjectiva. Se somos uma nova geração, temos que parar de copiar modelos de outras mesmo em suportes tidos como mais clássicos ou nobres como o são o da poesia ou do teatro. É difícil ter o conforto de ser demasiado intelectual num meio provinciano e aparentemente provinciano num meio intelectual mas é precisamente nessa desconexão e não-pertença a lugar nenhum que começamos a criar.
Porque apesar de me mover nos círculos académicos da literatura, não sou uma leitora de francês (OMD, o choque!). Mas sou dessa nova geração da imagem e do entretenimento que só é fluente a inglês e tem ideias pedagógicas pouco ortodoxas que envolvem muitas vezes métodos audiovisuais (completamente falíveis porque têm sempre, necessariamente, falhas técnicas, porque os computadores é tudo muito bonito mas depois é nisso que dá). Não, não sou só fluente em inglês, eu já traduzi parte dos Anacletos de Confúcio - seria difícil impressionar mais mas é para estes pequenos apontamentos engraçados que se estuda chinês - mas não é a isso que quero chegar. A ideia é falar de despretensão e de abertura para uma realidade pós-moderna da concepção de arte assumindo o seu carácter lúdico, porque o que é lúdico não tem que ser necessariamente obtuso. Temos que assumir a entropia da nossa era e perceber que a nossa realidade artística é polimorfa, íntima, subjectiva. Se somos uma nova geração, temos que parar de copiar modelos de outras mesmo em suportes tidos como mais clássicos ou nobres como o são o da poesia ou do teatro. É difícil ter o conforto de ser demasiado intelectual num meio provinciano e aparentemente provinciano num meio intelectual mas é precisamente nessa desconexão e não-pertença a lugar nenhum que começamos a criar.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Sentido de voto para a próxima semana
O PSD adia o sentido de voto para a semana, algo que já tem repercussões a nível dos mercados financeiros internacionais. Porque é que o PSD decide agora descartar-se das responsabilidades neste orçamento? Porque prevê a sua tomada do poder em breve, uma vez que se acredita generalizadamente que ocorrerão eleições antecipadas por um motivo ou outro. Para mais, o PSD pega em aspectos que condicionam os compromissos orçamentais para 2011 e alega que as posições do governo são irredutibilidades. Não se compreende porque é o que o PSD não recorre à habitual hipocrisia da abstenção que é uma forma de viabilizar meio de lado e não totalmente de frente de maneira a ter depois uma escapatória argumentativa por prevenção em futuras situações de poder. Chumbado o orçamento de estado, as probabilidades de chegar ao poder com mais rapidez aumentam, já que começar tudo do início para uma nova proposta não deixa de ser um processo lento e descontínuo que não agradará de qualquer forma aos mercados financeiros. Depois teremos ou governos provisórios ou governos de salvação até eleições legítimas. Mas é para isto que se constituem os partidos em Portugal, para uma luta desenfreada por poder, sem nenhum construtivismo? Se só se pode governar com maiorias absolutas, não valia a pena haver eleições.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
Anaquim
A onda revivalista e tradicionalista das bandas portuguesas ultimamente é bastante agradável. Sei que não é propriamente “de agora” – se pensarmos em Madredeus, por exemplo – mas nos últimos anos tem surgido com mais vitalidade. Gosto deste estilo embora o meu músico português favorito seja o Manel Cruz (Ornatos Violeta, Pluto, Supernada, Foge Foge Bandido) e ele não tem muito a ver com esta tendência. Mas agrada-me ver assim identidade nacional, passado e modernidade ao mesmo tempo. Porque será isto? Provavelmente porque qualquer perspectiva de futuro parece assustadora para esta geração. Parecemos estar no limite de alguma coisa, perto de um colapso e mete medo olhar para fora das raízes e para outro sítio menos confortável que o passado. Ou isso ou então porque apenas soa bem, não sei. Também de realçar o ambiente esquerdista destas bandas. Esta onda que começou com Amália Hoje e Deolinda passando por bandas como Dead Combo ou A Naifa. Mariza, claro, também representante desta tendência mas não em formato de banda no seu sentido mais pop. A última banda que conheci deste género, Anaquim, tive oportunidade de ver ao vivo na semana passada na recepção ao caloiro em Guimarães. A Diana tinha-me resumido o estilo deles por “pimba alternativo” e este rótulo mereceu todo o meu interesse. Pimba alternativo. Compreende-se quando se ouve. Os ritmos típicos com temas criativos e letras sarcásticas mas divertidas. Ok, em alguns momentos a voz do vocalista José Rebola tem um quê de Zeca Afonso e não admira já que no concerto não perdeu a oportunidade de entoar “A morte saiu à rua ”. O sintetizador que fazia a voz da Ana Bacalhau era tipo...? Não sei como é que fazem aquilo. Enfim, uns temas mais românticos, outros mais satíricos com a tal batida típica do folclore tradicional e da música popular. Um conceito com pernas para andar, resta saber se se vão afastar um bocadinho da batida para dar continuidade à criatividade. É sempre difícil apreciar bandas em festividades académicas porque volta a meia ter que se desviar da euforia das pessoas – por "pessoas" entendamos "bêbados" (e maioritariamente na puberdade) – é um bocado incómodo. Mas, enfim, valeu bem mais a pena do que o Pedro Abrunhosa e a sua megalomania revolucionária ou lá o que é o que homem estava a tentar fazer quando nos pedia para sermos contra a corrupção (?). Aqui fica então o videoclip do primeiro single dos Anaquim, “As vidas dos outros”:
sábado, 23 de outubro de 2010
O Crime de Aldeia Velha
“O crime de Aldeia Velha” é uma peça de teatro de Bernardo Santareno, hoje um nome pouco sonante fora do meio teatral, mas um importante dramaturgo português no séc. XX. A maioria das suas peças levadas a cabo sob ditadura foram censuradas. Uma das mais famosas será eventualmente A Promessa, representada pela primeira vez a 23 de Novembro de 1957 no Teatro Sá da Bandeira, no Porto e reposta a 11 de Maio de 1967 no Teatro Monumental de Lisboa. Uma obra que segue a tendência de outros autores cuja corrente artística neo-realista era fortemente apoiada por ideais políticos de esquerda, tais como Frederico Garcia Lorca ou Manuel da Fonseca. A Promessa é uma obra também relacionada com a experiência do autor no meio piscatório. A peça foi adaptada a cinema por António de Macedo em 1973.
Antes desta adaptação, contudo, já tinha sido feita outra adaptação a cinema de uma das suas peças. Em 1964 Manuel Guimarães fazia a adaptação de “O Crime de Aldeia Velha” para o grande ecrã. Nesta obra, tal como em “A Promessa” o paganismo mesclado com cultura religiosa surge como temática central e as personagens, assim como os seus actos são analisados à luz destes preceitos. É possível estabelecer uma correlação entre as suas peças e a tragédia clássica, na sua forma de reinventar episódios mitológicos analisados à luz de motivações psicológicas e sociais.
Se em “A promessa”, os santos eram encarados como deuses pagãos relacionados com a mitologia marítima, já em “O crime de Aldeia Velha” a correlação mitológica é mais complexa e centra-se não na protecção ou salvação mas na expurgação do mal.
O ponto de partida para a sinopse baseia-se na personagem da Joana interpretada pela belíssima Bárbara Laage. Joana é uma jovem atraente residente numa aldeia do interior e a sua sensualidade estimula desejos e invejas. Destes desejos e destas invejas dão-se consequências maiores, o que leva grande parte da aldeia a acreditar que Joana é, no fundo, uma feiticeira possuída pela Coisa Ruim, o Belzebu, o Senhor das Trevas ou, mais corriqueiramente, pelo Diabo. Apesar de aparentemente se basear numa personagem tipo representante da mulher fatal que despoleta a inveja e a competição de pretendentes, a personagem de Joana é, ainda assim, mais complexa do que isto.
Apesar de constantemente perturbada pelos seus pretendentes, Joana dá uma atenção particular a Rui que, tal como ela, também tem uma popularidade privilegiada. O que acontece é que ela se deixa envolver de forma pouco inocente em esquemas de manipulação psicológica e sentimental que acabam por levar à tragédia da aldeia, quando os seus dois pretendentes se debatem numa esgrima de machados até à morte. Devo dizer que para um filme português dos anos 60 que decorre numa aldeia no interior, é uma luta de machados com uma qualidade fenomenal, qual Huen Chiu Ku de Marco de Canaveses. Entretanto surge um novo padre que é um jovenzinho (é o pior actor do filme) e que, como jovem moço que era, não conseguiu ficar indiferente aos esmerados atributos da Joana e também ele fica apanhadinho. Isto não agrada nada às beatas velhinhas que sempre acharam que aquela Joana tinha o estatuto de feiticeira-mor cujo poder advinha de um pacto com o Demo, suspeita realçada quando a Joana põe o senhor abade todo maluco.
Neste vídeo do youtube com a abertura do filme é possível ver as senhoras da aldeia naquela que é a tentativa de exorcizar um jovem rapaz "enfeitiçado" pela Joana. O futuro dele acaba, contudo, por não ser muito perceptível.
Outro factor que atiça o clima de desconfiança da população está relacionado com um bebé que fora deixado aos cuidados de Joana e que, passado algumas horas de contacto com a jovem, padece de uma febre fatal.
O ponto de partida para a sinopse baseia-se na personagem da Joana interpretada pela belíssima Bárbara Laage. Joana é uma jovem atraente residente numa aldeia do interior e a sua sensualidade estimula desejos e invejas. Destes desejos e destas invejas dão-se consequências maiores, o que leva grande parte da aldeia a acreditar que Joana é, no fundo, uma feiticeira possuída pela Coisa Ruim, o Belzebu, o Senhor das Trevas ou, mais corriqueiramente, pelo Diabo. Apesar de aparentemente se basear numa personagem tipo representante da mulher fatal que despoleta a inveja e a competição de pretendentes, a personagem de Joana é, ainda assim, mais complexa do que isto.
Apesar de constantemente perturbada pelos seus pretendentes, Joana dá uma atenção particular a Rui que, tal como ela, também tem uma popularidade privilegiada. O que acontece é que ela se deixa envolver de forma pouco inocente em esquemas de manipulação psicológica e sentimental que acabam por levar à tragédia da aldeia, quando os seus dois pretendentes se debatem numa esgrima de machados até à morte. Devo dizer que para um filme português dos anos 60 que decorre numa aldeia no interior, é uma luta de machados com uma qualidade fenomenal, qual Huen Chiu Ku de Marco de Canaveses. Entretanto surge um novo padre que é um jovenzinho (é o pior actor do filme) e que, como jovem moço que era, não conseguiu ficar indiferente aos esmerados atributos da Joana e também ele fica apanhadinho. Isto não agrada nada às beatas velhinhas que sempre acharam que aquela Joana tinha o estatuto de feiticeira-mor cujo poder advinha de um pacto com o Demo, suspeita realçada quando a Joana põe o senhor abade todo maluco.
Neste vídeo do youtube com a abertura do filme é possível ver as senhoras da aldeia naquela que é a tentativa de exorcizar um jovem rapaz "enfeitiçado" pela Joana. O futuro dele acaba, contudo, por não ser muito perceptível.
Outro factor que atiça o clima de desconfiança da população está relacionado com um bebé que fora deixado aos cuidados de Joana e que, passado algumas horas de contacto com a jovem, padece de uma febre fatal.
Para concluir o resumo da história, a Joana é condenada pela justiça popular à exorcização pela fogueira.
Esta história é baseada num caso real sobre o linchamento pelo fogo de uma rapariga supostamente possuída pelo demónio, ocorrido durante os anos 30 em Marco de Canaveses. Apesar da linha neo-realista da obra original e da própria realização, o filme ganha todo o seu charme nos momentos fantasmagóricos, com visões de feiticeiras nuas em cima de cavalos e cadáveres pendurados em árvores. A banda sonora também está muito bem. A história original em si leva-nos à dúvida e ao questionamento do papel da Joana. Embora seja facilmente perceptível a dura crítica à mentalidade hipocritamente religiosa e intrinsecamente pagã das aldeias, a personagem da Joana não é absolutamente óbvia na sua inocência. Em livro, teatro ou cinema, uma obra sobre os limites da clarividência (ou falta dela) das devoções. E um obrigada à RTP Memória!
Esta história é baseada num caso real sobre o linchamento pelo fogo de uma rapariga supostamente possuída pelo demónio, ocorrido durante os anos 30 em Marco de Canaveses. Apesar da linha neo-realista da obra original e da própria realização, o filme ganha todo o seu charme nos momentos fantasmagóricos, com visões de feiticeiras nuas em cima de cavalos e cadáveres pendurados em árvores. A banda sonora também está muito bem. A história original em si leva-nos à dúvida e ao questionamento do papel da Joana. Embora seja facilmente perceptível a dura crítica à mentalidade hipocritamente religiosa e intrinsecamente pagã das aldeias, a personagem da Joana não é absolutamente óbvia na sua inocência. Em livro, teatro ou cinema, uma obra sobre os limites da clarividência (ou falta dela) das devoções. E um obrigada à RTP Memória!
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