terça-feira, 28 de setembro de 2010

terça-feira, 6 de julho de 2010

Confucius

Fazer um filme sobre a biografia de Confúcio pareceria algo pertinente e interessante. Confúcio era um filósofo ou, talvez numa definição mais precisa, um homem que deixou um legado de pensamentos relativos a uma ideologia de organização social nunca antes visto na história. O pensamento confucionista teve repercussões naquilo a que se veio a estabelecer, numa vertente mais política, como legalismo durante a dinastia Qin e teve também influência na percepção da ideologia taoista - na medida em que procurou estabelecer um pensamento mais consciente e moral nas noções de conformismo que o taoismo defendia. Não me vou alongar muito nisto!! Confúcio deixou muitos tomos escritos relativos a muitos aspectos diversos, alguns deles mais sociais e políticos e outros mais espirituais, mas acima de tudo foi um defensor do humanismo. O problema deste filme? Um Chow Yun-Fat numa das suas representações mais forçadas a par de um ideal militarista e estratega associado a Confúcio que simplesmente não se percebe! É também um filme que surge na sucessão do Avatar e que cria polémica porque pretende tirar a popularidade ao mundo dos navis. Então parece que fazer um filme que exprimisse ideais filosóficos não poderia bater um blockbuster americano, portanto, bora lá pôr o Confúcio aí a comandar umas tropas! Ora bem, não me parece que resulte! Sinceramente, se a ideia era esta, escolheram a personalidade histórica errada. Porque é que não pegaram na Arte da Guerra de Sun Zi? Isto sim, daria tanto para o lado militar como para a compreensão daquilo que eram os ideais de guerra aplicados a mercados económicos ou até a relações de liderança tanto na vida profissional como privada. E para além de porem o filósofo a comandar tropas, ainda  têm sempre que acentuar o lado falsamente ostentativo de todos os elementos decorativos do século V a.c. - porque eles na realidade não eram assim tão ostentativos como parece - e há demasiada gente a ajoelhar-se em frente a governantes e chefes militares durante o filme, demasiada gente a ajoelhar-se! Enfim, é pena que o guarda-roupa e os elementos cénicos soem tanto a propaganda estética (ao estilo Red Cliff) em detrimento de uma tentativa real de perspectivar emotivamente a histórica (como em Nanjing Nanjing). Contudo, estou optimista em relação ao facto de que a falta de popularidade do filme possa ter influencia nas futuras produções chinesas da hengdian! 

quinta-feira, 13 de maio de 2010

domingo, 25 de abril de 2010

O 25 de Abril, o kick-ass e o I love you Phillip Morris



Pois é, este blog tem estado um pouco inactivo... e porque motivo? Aí está uma boa questão à qual não sei realmente responder... já que isto é para falar dos media que me passam pelos olhos ou mãos ou seja lá qual for a parte do corpo preferencial, suponho que estava ocupada a consumir coisas em vez de as comentar ou dissecar permanentemente que vendo bem não é o tipo de apreciação que interesse a toda a gente embora contribua para o estimulo de um espaço cibernético mais plural e democrático onde as vozes anónimas mais ou menos desinteressantes têm hipótese de se exprimir. De facto, ultimamente tenho utilizado mais o blog para falar de qualquer coisa que me irritou relacionada com esta ou aquela figura pública - é que, vendo bem, a blogosfera é uma das formas mais eficazes de chegar às personalidades graças ao google blog search e à sede mediática das pessoas lerem todas as referências que contêm os seus nomes respectivos. Quando digo que tenho andado a consumir coisas é só para soar um bocado pseudo, quer-se dizer, se considerarmos uns shoujos, uns ecchi, sitcoms variadas e excertos do preço certo como conteúdo multimédia de referência então tenho mantido uma actividade razoável! Mas este post não vai ser sobre isso - não descurando a qualidade cénica do Fernando Mendes - vai ser sobre os filmes que fui ver recentemente. Já deixei passar o Alice sem o comentar mas também para falar de desgraças não vale a pena, embora eu venha falar daquilo que é para mim outra desgraça…


 Pois é, o primeiro filme de que vou falar é o Kick-Ass e vou quebrar os tabus da irmandade geek e dizer que não gostei do filme. O que é que devo dizer sobre este filme? Confesso que a cena dos Super Heróis de BD adaptados a cinema não é o meu forte - e não me refiro a adaptações de BD ou Graphic Novel de uma maneira geral, pois este é um género demasiado genérico para o reduzir a um estereótipo mas sim o conceito estrito do Super Herói na vertente mais americana. Não querendo desiludir as minhas fãs feministas que vêm em mim um exemplo - há que admitir que isto é um bocado como os videojogos: é o tipo de coisas que se apanha dos namorados. Há coisas piores que se poderiam apanhar dos namorados, portanto, sejamos optimistas. Digamos que pertence a uma cultura geek viril que se centra essencialmente nos dilemas dos personagens masculinos. Mas até aí, não me incomoda, é um género, tem um público definido, cumpre determinadas tendências, bla bla, tudo bem. Nem vou entrar por aí. A questão é a de que o Kick-Ass estava associado não só a esta cultura de BD mas também a uma noção estilística e satírica e eu estava à espera disso mesmo, algo mais “tarantinesco” que utiliza o tratamento visual e a violência com uma finalidade estilística. Até porque a graphic novel se propõe a algo bastante ousado: uma crítica mordaz à violência entre as camadas mais jovens da sociedade – e eram estas as minhas expectativas. Não vou fazer aqui uma análise muito detalhada do filme senão não faço mais nada hoje mas o que me desiludiu foram essencialmente os lugares comuns, a falta de ousadia e o sentido de humor sem piada nenhuma para além do estilo altamente forçado de tudo. Primeiro, uma questão: o guião do filme difere da Graphic Novel em detalhes essenciais. Um exemplo (entre muitos) que me parece elucidativo: no filme, o Big Daddy é apresentado com um passado muito atormentado e profundo, na GN o que acontece é que depois da descrição do passado profundo, nos dizem “ah não era nada disso, ele era só um contabilista entediado”. Lá está! Efeito de cinismo! É isso que faz as coisas serem interessantes! É gozar à grande com os clichés não é deixá-los ser clichés como são, porque isso é o que é para criticar! Não é muito difícil de perceber, pois não? A mesma treta com o facto de que na GN o gajo não fica com a miúda, pelo contrário, é humilhado, etc. No filme, é um all happy ending ainda a meio e para mais de uma forma completamente inverosímil… dá a sensação de que meter uma miúda de 11 anos a triturar crânios é possível mas quebrar certos lugares comuns dos teenage movies é ir longe de mais… A miuda, Hit Girl é que é apontada por toda a gente como a melhor personagem do filme… devo lembrar que o filme se chama Kick-Ass e é interessante verificar como lá para o meio o Kick-Ass é um espectador do filme que protagoniza… para além de que aquelas cenas finais são todas muito previsíveis e para um filme de super heróis a acção basear-se essencialmente num jogo de shotguns também soa um bocado mal. Há muitas outras coisas a apontar, mas, de uma maneira geral, achei o estilo muito forçado e incomoda-me a forma tão visível como os produtores e o marketing decidiram manipular a história original de forma a tornar-se mais apelativa a um público com menos sentido crítico e em muitos momentos muito mais politicamente correcta. 



O segundo filme de que vou falar é o “I love you Phillip Morris”. Trata-se do filme que faz do Jim Carrey e do Ewan McGregor um casal gay e que se baseia na biografia de Steven Russel, o burlão americano que se encontra encarcerado 23h por dia a cumprir 144 anos de prisão no estado do Texas. É divertido, é um pouco panfletário porque coloca o enfoque na pena pesada que o homem teve, deixa-nos criar alguma empatia com a personagem mas o que é incrível neste filme nem foi tanto o filme sem si mas sim uma sala gigante no bragaparque cheia de gente a um sábado à noite que, não só não se ria nos momentos mais hilariantes do filme como só se conseguia rir sempre que o casal gay dava um beijo ou se abraçava e é fantástico ver como as pessoas se metem nas salas de cinema sem ler nenhuma sinopse porque o choque geral quando perceberam que era o Jim Carrey, sim, mas que ele fazia de, meu deus, pasme-se, homosexual!!, foi qualquer coisa de incrivelmente visível. Mas depois do Kick-Ass foi bom ver um filme coerente e não pretensioso que cumpre bastante bem a sua finalidade.
E, pronto, fica por aqui mais um post com alguns dos vários pensamentos diletantes que ficam assim transpostos para o formato escrito. Aos meus leitores, continuação de um bom 25 de Abril e bons filmes!

segunda-feira, 1 de março de 2010

Portugal de Jorge Sousa Braga

Portugal
Eu tenho vinte e dois anos e tu às vezes fazes-me sentir como se tivesse
oitocentos
Que culpa tive eu que D. Sebastião fosse combater os infiéis ao norte de
África
só porque não podia combater a doença que lhe atacava os órgãos genitais
e nunca mais voltasse
Quase chego a pensar que é tudo uma mentira
que o Infante D. Henrique foi uma invenção do Walt Disney
e o Nuno Álvares Pereira uma reles imitação do Príncipe Valente
Portugal
Não imaginas o tesão que sinto quando ouço o hino nacional
(que os meus egrégios avós me perdoem)
Ontem estive a jogar póker com o velho do Restelo
Anda na consulta externa do Júlio de Matos
Deram-lhe uns electro-choques e está a recuperar
àparte o facto de agora me tentar convencer que nos espera um futuro de
rosas
Portugal
Um dia fechei-me no Mosteiro dos Jerónimos a ver se contraía a febre do
Império
mas a única coisa que consegui apanhar foi um resfriado
Virei a Torre do Tombo do avesso sem lograr uma pérola que fosse
das rosas que Gil Eanes trouxe do Bojador
Portugal
Vou contar-te uma coisa que nunca contei a ninguém
Sabes
Estou loucamente apaixonado por ti
Pergunto a mim mesmo
Como me pude apaixonar por um velho decrépito e idiota como tu
mas que tem o coração doce ainda mais doce que os pastéis de Tentugal
e o corpo cheio de pontos negros para poder espremer à minha vontade
Portugal estás a ouvir-me?
Eu nasci em mil novecentos e cinquenta e sete Salazar estava no poder nada
de ressentimentos
um dia bebi vinagre nada de ressentimentos
Portugal
Sabes de que cor são os meus olhos?
São castanhos como os da minha mãe
Portugal
gostava de te beijar muito apaixonadamente
na boca



Jorge Sousa Braga

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Daily Pilgrims - Virgilio

No Museu da Imagem, Braga, até 21 deste mês.

Este Projecto foi desenvolvido em 2006 em algumas cidades asiáticas, Bangkok, Macau, Hong Kong, Pequim, Xangai e Tóquio. Em todas elas, território e comportamentos estão em acelerada alteração.
As cidades parecem espelhar o nosso estado de alma, revelam segredos que podem ser descodificados quando o olhar valoriza mínimos detalhes: é entre linhas que procuro as ambiguidades e contradições.
De uma forma intuitiva e aleatória caminho pelas ruas, sou atraído por luzes, cores, cenários, pessoas anónimas que se cruzam comigo e que convido a posar.
Como o foque e o desfoque criam tensão, os rostos desfocados transformam-se em máscaras fugidias; esse deficit de informação conquista a atenção do observador e atribui maior protagonismo, mas também enigma ao retratado, - o anonimato é sempre intrigante. As imagens sem gente contextualizam e criam diálogo com os retratos, são atmosferas emotivas, jogos de descodificação.
As fotografias sugerem inquietação e, com isso, poderão provocar um confronto perante o que entendo como um certo estado de amnésia de uma sociedade carregada de estereótipos, alienada de uma rede social. Essencialmente colocam questões à sobrecomplexidade em que vivemos, remetendo, por vezes, para uma posição reflexiva em relação ao outro e ao próprio sujeito.



quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Diana Mendonça

É uma jovem Margarida Rebelo Pinto, não é? Estava a ver o 5 para a meia-noite com a dita "jovem escritora" e fiquei a pensar que era difícil conseguir repercutir de uma maneira tão fiel o estereótipo da mulher burra e fútil, não era? Humm..

sábado, 6 de fevereiro de 2010

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Xinran e os testemunhos da China do início de séc. XX



Xinran viajou pela China entre 2005 e 2006 à procura daqueles a quem chama de «avós» e «bisavós» no país: homens e mulheres que viveram, na primeira pessoa, as profundas mudanças da era moderna. Por cidades e aldeias remotas, Xinran falou com os membros dessa geração, entrevistando-os pela primeira e, talvez, última vez. Ainda que com medo de possíveis repercussões policiais, falaram com toda a delicadeza dos seus sonhos, medos, lutas e daquilo que testemunharam: o percurso da Revolução Cultural de Mao. Apesar do Ocidente olhar os últimos cem anos da China através de uma visão maioritariamente ligada à ascensão e poder de Mao Tse Tung (ou Mao Zi Dong), o mesmo período, para os chineses, é profundamente mais complexo.

«A riqueza desta obra está pois nas pessoas extraordinárias que por ele desfilam...»
Rui Bebiano, Revista LER


ISBN: 9789722519946
Número de Páginas: 496
Data da primeira Edição: 2009

Costumam-me perguntar o que é que eu acho dos livros sobre testemunhos do período revolucionário na China cujo espólio é já denso e complexo e como me interesso por literatura e pela China, aí está um tema com o qual me associam conhecedora e eu confesso que não tenho um conhecimento muito profundo deste tipo de literatura. E não é por desinteresse pelo estilo que pode soar panfletário mas que não o é forçosamente e também não é por desinteresse no período histórico da China até porque é um período ao qual não se pode estar alheio para se compreender seja o que for sobre a China contemporânea. E há autores com interesse como o caso de Xinran Xue. Chinesa expatriada que reside em Londres e que mantém colunas em jornais britânicos e é regularmente convidada para falar de relações internacionais em telejornais da BBC ou Skynews. Eu penso que o livro mais conhecido dela é o "Mulheres da China" cuja sinopse é
"Durante oito inesquecíveis anos, a jornalista Xinran apresentou na China um programa de rádio em que muitas mulheres falavam de si próprias e da sua vida. «Palavras na Brisa Nocturna», assim se chamava, rapidamente se tornou no mais famoso programa de rádio chinês. Nele se revelava o que significa ser mulher na China de hoje." e que continua com "Este é um livro que começa onde Cisnes Selvagens de Jung Chang terminou: a vida das mulheres chinesas depois de Mao."


Jun Chang também é outra referência. Bem, causa-me algum constrangimento a quantidade de livros de mulheres heróicas do período maoista que são todos os anos editadas, pois dá assim uma ideia de alimentar um fascínio ocidental pelo drama alheio e exótico cheio de clichés universais. Mas pronto, à parte disso, osTestemunhos da China, é um título curioso com um verdadeiro trabalho de pesquisa jornalístico levado a cabo pela chino-britânica Xinran. Só que parece que o que me repele principalmente destas obras são as traduções. São normalmente feitas em regime trilinguistico de chinês para inglês para português, editoras, não sejam forretas e comecem a empregar pessoas como eu, se fazem favor, para fazer traduções directas! Para além disso, pessoas como eu - que é só uma forma de falar, não é um vangloriar narcisista parvo, aliás alguém com mais formação que eu era preferível - isto é, pessoas que pudessem transpor as terminologias originais para a nossa mui nobre língua e que continuassem a deixar a leitura perceptível, se calhar dominando até com mais incidência terminologia política porque realmente há passagens do livro que não são muito acessíveis ao leitor português comum devido à ausência de contextualização histórica - talvez porque ela não está devidamente investigada no país e torna-se quase mítica, como se ninguém soubesse claramente o que se passou realmente e o seu único acesso ao conhecimento passasse por este tipo de ficção/semi-ficção/colectânea de relatos biográficos organizados por expatriados. O livro recomenda-se mas o português não é o melhor. Trabalhos de investigação talvez quando descentralizarmos devidamente os cânones e estas recém-licenciaturas em estudos asiáticos começarem a traduzir-se em produtos culturais finais de utilidade académica comum. 



domingo, 24 de janeiro de 2010

Ontem Estive no Inferno


João Negreiros

O jornalista da vossa beleza



Como sempre, e como não poderia deixar de ser em relação às produções do TUM, a angústia é sempre a mesma: um espectáculo demasiado grande para um auditório demasiado pequeno. Ou seja, como chamar de cultura underground nortenha aquilo que são simplesmente os melhores momentos de palco aos quais podemos assistir neste país à beira mar plantado que mais parece areia onde não se consegue semear nada que cresça saudável? A poesia estonteante, profusa e visceral de João Negreiros e as interpretações avassaladoras, trabalhadas até ao âmago de cada actor, sofridas (bem sei...) expostas a um público demasiado pequeno, demasiado insignificante. Tão demasiadamente insuficiente que às vezes até parece que passamos "tantos nanossegundos correndo desesperadamente para não sei bem onde/ fazer não sei bem o quê  com não sei quem  sozinho " (Queda Live)
Simplesmente demasiado bom, dói.


sábado, 23 de janeiro de 2010

Top10 - As mais bizarras mortes literárias

Ok... aviso desde já que este post é mórbido mas é incrível como alguns fins de vida são estupidamente bizarros ou quase uma manifestação última de uma obra de arte. 

#10 - Ambrose Bierce [1842-1914?] USA



Desaparecido no México enquanto fazia uma reportagem sobre a revolução mexicana comandada por Pancho Villa. Provavelmente assassinado.

"Life. A spiritual pickle preserving the body from decay . . ."



#09 - Leo Tolstoy [1828-1910] Rússia




Morreu congelado numa estação de comboios numa noite de Inverno.

"Our body is a machine for living. It is organized for that, it is its nature. Let life go on in it unhindered and let it defend itself, it will do more than if you paralyze it by encumbering it with remedies."




#08 - Virginia Woolf [1882-1941] Inglaterra




Encheu os bolsos com pedras e atirou-se para o rio Ouse em York.
“If we didn't live venturously, plucking the wild goat by the beard, and trembling over precipices, we should never be depressed, I've no doubt; but already should be faded, fatalistic and aged.”



#07 - Eurípides [480-406 B.C.] Grécia



Segundo a lenda,  Aequelau, rei da Macedónia, mandou uma série de cães para o comerem.
"But learn that to die is a debt we must all pay."




#06 - Sherwood Anderson [1876-1941]USA



Apanhou uma inflamação no abdómen depois de engolir uma lasca de madeira nos aperitivos de uma festa.
"Everyone in the world is Christ and they are all crucified."




#05 - Hart Crane [1899-1932]USA



Conhecido por ter dito "Good-bye everybody."enquanto caía no Mar do Caribe.
"... we have seen/The moon in lonely alleys make/A grail of laughter of an empty ash can . . ."


#04 - John Berryman [1914-1972] USA



Saltou para o rio do Mississippi; Há relatos de que acenou um adeus a uma pessoa que ia a passar enquanto caía.
"We must travel in the direction of our fear."


#03 - Edgar Allan Poe [1809-1849] USA



Muito mistério rodeia a morte de Poe, talvez se tenha embebedado até morrer,( a julgar pela conhecida vivência de intelectual boémio)  mas como é difícil explicar esta situação, especialistas consideram que talvez tenha morrido de intoxicação causada pelos candeeiros a óleo da altura que tinham propriedades tóxicas apuradas. O certo é que foi encontrado morto numa rua de Baltimore vestido com roupa que não era a sua, o que indicará homicídio. O mistério à volta da sua morte vale-lhe o 3º lugar.

"In an instant I seemed to rise from the ground. But I had no bodily, no visible, audible, or palpable presence."



#02 - Sergei Esenin [1895-1925] Rússia




Cortou os pulsos e escreveu dois últimos poemas com o próprio sangue "Do svidania drug moi"/"Adeus meu amigo".
"Don't waken the dream that is dying/Don't stir the aim that has failed./Life brought me too early to trial;/The loss, the defeat—what availed?"




#01 - Yukio Mishima [1925-1970] Japão


Cometeu seppuku (hara-kiri) após uma tentativa falhada de golpe de estado com Katana e traje samurai contra o governo por considerar que este estava a humilhar a nação perante a submissão aos americanos e por pretender uma definição mais tradicional de estado-nação.
"If we value so highly the dignity of life, how can we not also value the dignity of death? No death may be called futile."

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lady Terminator

As The Cinema Snob discovers, Indonesia has found a way to combine the South Sea Queen with...James Cameron's "The Terminator"?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Senhor Woody Allen

Eu disse que ia fazer uma análise cinematográfica não doentia! E aqui está ela. :)
Decidi escrever sobre o artista das duplicidades. A negra decadência tornada em sedutora comédia. A vida urbana em todo o seu esplendor e declínio como uma coisa só. A liberdade do desejo versus a limitação da moral. O elitismo sofisticado ou o diletantismo absurdo. Pessoas que se zangam a sério porque não se entendem com o enquadramento dos filmes de Bergman ou da obra de Beckett. Burgueses intelectuais, abarcando os dois tipos de elitismo sempre com uma perspectiva irónica bem patente - como em Small Time Crooks (2000).



Porque afinal o amor é como um terreno movediço e a infidelidade como uma sincera manifestação do ser e esses são os maiores dramas do mundo… Ou não? Que ele se tenha casado com a própria filha adoptiva, bom, afinal Nabokov não escreveu “Lolita” baseado no nada e cada um que corporize as suas repressões psicológicas como quiser (ou como a lei permitir?). Bom, não interessa! Eu pensei em fazer um top10 Woody Allen porque um top é uma forma de organizar ideias mas depois pensei que também era uma forma de reduzir ideias e torná-las sensacionalistas… portanto, a velha e boa redacção será a solução.




Penso que a filmografia do realizador tem muitas oscilações, poderosa comédia inteligente, genialidades no seu sentido pleno e até muitas banalidades e é normal oscilar-se quando já se produziu quase meia centena de filmes. O que é também curioso é que apesar da abundância de produção, as temáticas são sempre recorrentes de uma forma particularmente homogénea, definindo muito bem o campo das contribuições que ele tem para dar. As relações humanas e sentimentais é background infalível, o que muda ligeiramente são as abordagens. O formato pode, contudo, mudar pontualmente, estou a recordar-me, por exemplo, do hilariante e genial Zelig (1983) no formato de documentário fictício onde a ênfase na sátira histórica e política é mais apurada. Um género mais ou menos semelhante foi seguido em Sweet and Lowdown (1999) o filme independente que conta a história de um guitarrista chamado Emmet Ray interpretado por Sean Penn.Ou o músical Everyone says I love you (1996).
Ao ver a produção mais antiga e que todos os especialistas consideram mais “característica” do realizador apercebi-me que muito para além do aspecto cómico/absurdo das conexões humanas, uma coisa que realmente fica bem nos filmes do Woody Allen é explorado mais tardiamente, refiro-me ao factor grave e especificamente trágico. É por isso que não consigo desprender-me do meu amor infinito pelo Match Point (2005) e pelo Cassandra’s Dream (2007). Não são filmes “típicos” apenas porque não se resumem ao Woody Allen actor a interagir e a narrar, porque são filmes em que ele nem sequer entra e onde as personagens são mais jovens. Para mim, são o meu Top2.





São filmes onde a catarse é brutal. Eu acho que sempre que lemos análises à obra de Woody Allen os filmes mencionados são sempre os dos anos 70 e 80 mas isso é porque eu acho que essas análises são escritas por pessoas mais velhas do que eu, que conheceram Woody Allen nessa altura e isso deixou um impacto tal a ponto de não se conseguirem desprender dessas impressões mais iniciais para apreciar a obra mais recente. Mas para mim as suas obras-primas são filmes recentes.

Para além dos dois que já mencionei, o Vicky Cristina Barcelona (2008) e Anything Else (2003) são fabulosas intercepções de desejos, repressões e ímpetos num lirismo realista e natural. Isto não significa que eu não reconheço a genialidade dos clássicos.



Que melhor introdução ao espírito citadino algum realizador conseguirá de maneira tão graciosa transmitir como na abertura de Manhattan (1979) e quem não gostaria que as coisas fossem como no Annie Hall (1977) com o Marshall McLhuan a dar uma lição àquele pedante chato? (ou será que meter o Mashall McLhuan ao barulho é que é pedante?) Apesar de tudo há filmes recentes que também não trouxeram nada de novo, como o Scoop ou o mais recente filme Whatever Works (2009). São aqueles filmes apenas ligeiramente engraçados. E enfim, muito mais há a dizer sobre a sua obra, é uma análise interessante de se fazer  de forma até académica. Concluo deixando as minhas favorite quotes do realizador/escritor/actor/saxofonista:



  • Eternal nothingness is fine if you happen to be dressed for it.

  • I don't want to achieve immortality through my work; I want to achieve immortality through not dying.

  • In Beverly Hills...they don't throw their garbage away. They make it into television shows.

  • I can't listen to that much Wagner. I start getting the urge to conquer Poland.

  • Tradition is the illusion of permanance.

  • I took a speed reading course and read 'War and Peace' in twenty minutes. It involves Russia.

  • If only God would give me some clear sign! Like making a large deposit in my name in a Swiss bank.

  • It seemed the world was divided into good and bad people. The good ones slept better... while the bad ones seemed to enjoy the waking hours much more.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Dr. StrangeGaga








 Lady Gaga no clip "Papparazi" numa clara referência ao clássico satírico de Kubrick, Dr. Strangelove. É por estas e por outras que a Lady Gaga é o meu guilty pleasure. lol Gosto desta faceta irónica e acho que ela a devia explorar mais.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Inícios de livros marcantes


"It was a bright cold day in April, and the clocks were striking thirteen." 1984, George Orwell

"Sou um homem doente... Sou um homem malévolo. Sou um homem repugnante. Acredito que o meu fígado tem uma doença. No entanto, nada sei sobre a minha doença, nem sei ao certo aquilo que me molesta. Não consultei nenhum médico por causa disso, nunca o fiz, embora respeite a medicina e os médicos." Cadernos do Subterrâneo, Fiodor Dostoievsky

"He—for there could be no doubt of his sex, though the fashion of the time did something to disguise it—was in the act of slicing at the head of a Moor which swung from the rafters." Orlando, Virgina Woolf

"O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite..."O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

"We were somewhere around Barstow on the edge of the desert when the drugs began to take hold. I remember saying something like 'I feel a bit lightheaded; maybe you should drive . . .' And suddenly there was a terrible roar all around us and the sky was full of what looked like huge bats, all swooping and screeching and diving around the car, which was going about a hundred miles an hour with the top down to Las Vegas. And a voice was screaming, 'Holy Jesus! What are these goddamn animals?'" Fear and loathing in Las Vegas, Hunter S. Thompson

"Yes, Sir. Certainly, it was I who found the body. This morning, as usual, I went to cut my daily quota of cedars, when I found the body in a grove in a hollow in the mountains." Rashomon - Ryūnosuke Akutagawa

E, claro, como não poderia deixar de ser...
"Quando Gregor Samsa despertou numa manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto " A Metamorfose, Franz Kafka

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Conflito, Chomsky e 5 para a Meia Noite



Estava há pouco a ler o PDF disponibilizado no blog da LER com a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Barreto, cientista social, cronista e figura política do nosso país – pelo menos até ao momento, já que por pouco não se naturalizava suíço. António Barreto fala com sabedoria da obsessão doentia pela imagem e da falta de silêncio para o pensamento num mundo onde tudo se quer instantâneo. Mas atentemos ao título chamativo «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.» Não consigo evitar a voz interior que sugere “cá vamos nós outra vez”. Um rol de males que andam por aí a assombrar a juventude: as internetes, a tecnologia, o digital. Ocorreu-me o Miguel de Sousa Tavares a considerar o facebook o maior mal do século XXI no “cinco para a Meia Noite” do outro dia.
São considerações sobre os males da geração que nunca está correcta sobretudo quando é nova porque uma vez que é nova, isso significa que não é aquela que se considera como a de pertença porque pertencer é ser parte e é-se sempre mais correcto quando se é parte. A nova tem que criar necessariamente contrastes. É normal! Chama-se “conflito geracional” e não tem nada de pomposo. Aliás, é saudável! O conflito geracional é uma marca de dinamismo e expansão. A maior parte dos conflitos são saudáveis e então os geracionais é que o são realmente e quase não existem em Portugal. Quase não existem linguisticamente – que avó é que não sabe o que significa “fixe” e “bué”? Enquanto há realidades linguísticas em que o calão juvenil constitui por si só uma linguagem independente onde jovens e terceira idade não se entendem por um abismo de vocabulário – Inglaterra, França - essa sim é uma expressão bem mais imediata do conflito, a manifestação patente nas próprias palavras. Não estou a dizer que assim o deve ser, estou só a constatar. Muitos conceitos são ocos, muitas expressões são desagradáveis, mas na realidade o que ocorre é a transfiguração necessária e natural da linguagem que acompanha a transfiguração do mundo. Então eu disse que a voz interior me dizia “Cá vamos nós outra vez” mas isso é mentira, o que me veio realmente à cabeça foi “here we go again”. Veio assim, tal e qual. Então tive um pensamento em inglês para comigo mesma? Mas o inglês é a minha língua materna? Não. Nós pensamos em língua estrangeira? Sim, quando estamos a estabelecer um processo de comunicação nessa língua. Mas eu estou a estabelecer algum processo de comunicação quando penso comigo mesma? Não. What the hell is going on? Chomsky defendia que todos nós nascemos com uma “gramática universal”, ou seja, temos à priori uma disponibilidade biológica para preencher o nosso entendimento do universo com uma única língua. Toda a aquisição linguística posterior é, para Chomsky, uma aprendizagem que se edifica em redor da língua nativa, ou seja, uma permanente tradução. Mas será que a gramática universal não está realmente disponível para uma segunda língua quando não há a intervenção da interlíngua? Isto é, quando sinto necessidade de manifestar uma reacção a um estímulo onde a minha relação com a minha língua nativa já não me parece suficiente ou até mesmo quando adquiro formas de percepcionar a realidade com uma codificação nova que antes não era característica da minha experiência social? Bem, há aqui tópico para muita discussão, percepções socioculturais sobre a própria língua, o maior ou menor imperialismo cultural das nações, etc etc. Mas para não parecer que este texto não tem objectivo nenhum, é melhor focalizar-me: eu não encontro na minha realidade social o conflito suficiente e isso faz com os meus sistemas psíquicos recorram a uma abordagem estrangeira perante uma manifestação do mais biologicamente humano que pode haver: um pensamento. Isto explica a necessidade do inglês como afirmação de uma cultura jovem que em Portugal está esmagada entre a Praça da Alegria e as tunas universitárias.Mais conflito, obrigada. Mas deixem a internet em paz que as leituras online fazem-me imensa falta.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Pedro Mexia, Misoginia e Mamas



É tão engraçada esta ideia de que certos intelectuais e sensíveis poetas podem escrever e cogitar sobre tudo o que consideram de mais sublime e elevado do pensamento humano nos seus blogs e depois escrever posts nos quais elogiam preciosidades da ficção nacional como Morangos com Açucar cuja qualidade intrínseca da representação se equipara a bosta de cavalo só pelo simples facto de essas preciosidades serem mulheres e terem mamas e rabos riginhos e, claro, tirarem a roupa para qualquer fotografo. Não as censuro a elas (são actrizes de merda, têm que se vender de alguma maneira e usam o que têm ou o que arranjaram), mas censuro esta tentativa de tornar o comentário de trolha em algo aceite no meio intelectual. Sim, porque em vez de “és mesmo boa, tens aí umas mamocas bem jeitosas” eles ainda tentam dizer coisas como as deste exemplo do Pedro Mexia no seu novo blog "A Lei Seca" “Cláudia é a mulher true blue, que desarma pela simplicidade e ausência de pretensão." ou ""Aquele binómio cintura/glúteos está a ser estudado por Peter Zumthor para uma severa conferência em Basileia. "  Epá, o que tu queres dizer é que a papavas toda, já se percebeu a ideia… Eu gostaria de saber em que parte da sua imensa lucidez intelectual enquadra a perpetuação do modelo machista da mulher como um objecto sexual que se reduz ao seu físico e que, portanto, deve estar sujeita a tais apreciações enquanto um homem não tem necessariamente que atravessar qualquer processo ou corresponder a quaisquer critérios físicos até porque os homens estão ocupados a produzir algo de extremamente intelectual e engraçado e podem ficar gordos como pipos à vontade se isso os ajuda a escrever poemas melhores. Eu até acho que cada vez menos existem este tipo de blogs que volta e meia entre uma citação de Jorge Luis Borges e uma apreciação de um filme de Andrei Tarkovski colocam umas fotos da FHM, mas este Pedro Mexia quer mesmo ver se ninguém se esquece de ser parolo de uma maneira fina.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Pai Natal from hell

Ainda que para muitas pessoas o Natal seja uma altura de ir à missa com regularidade (missa das 7h da véspera de Natal, missa do galo, missa da manhã de 25) há outras pessoas que aproveitam o tempo de férias para ficar em casa a ver filmes parvos. E nessa linha de ideias fica a minha apreciação a filmes natalícios – e não, não é um Sozinho em Casa - é mais tentar encontrar os filmes que tiveram a genial ideia de substituir o Santa Claus por um assustador e brutal assassino.

Tipo Gremlins, aquele filme que sai no Natal e que se vai ver em família para se descobrir que a coisinha fofa e peluda se tornou num incendiário pronto a arrancar a cabeça ao ser mais próximo. Parecendo que não, há muita coisa a explorar dentro desta temática de filmes de terror low-budget que decidiram revoltar-se contra a alegria geral da época das prendas e dos doces. Filmes como You better watch out de 1980 que mostra que o trauma de infância de descobrir que o Pai Natal não existe pode ter muitas consequências. Uma delas é tentar determinar pelas próprias mãos quem é ou não um menino bem comportado e acabar por matar violentamente os que não o forem, envergando as vestes de Santa Claus. Outro exemplo é Black Christmas de 1974 que conta a história de um assassino que anda por Montreal a matar pessoas à toa durante a altura do Natal, anunciando-se com chamadas telefónicas obscenas. É considerado o primeiro filme realmente slasher antes do primeiro Halloween de John Carpenter.

To All A Good Night também de 1980 é um filme que prova que a praxe é uma coisa má, como eu sempre defendi! Isto porque uma jovem morta durante um ritual de iniciação acaba por se tornar num espírito assassino sob a forma de Pai Natal que acaba por estragar uma festa de adolescentes. Esta ideia de Pai Natal assassino está também presente em Don’t Open ‘Till Christmas, british exploitation ao seu mais alto nível de estupidez, com gajas nuas que é uma coisa que interessa.. a homens… ou fufas, e portanto uma boa dose de sexismo e representações extremamente manhosas à mistura. Passando para os anos 90, para quem está dentro da cena de cinema de série B canadiano e conhece a Debbie Rochon de certeza que conhece o Santa Claws, o filme no qual o protagonista depois de matar a mulher e o amante que vestia um capuz de Pai Natal quando os encontrou a ter sexo, tornou-se ele próprio o assassíno-Pai Natal obcecado por uma actriz de filmes de terror.

O Silent Night, Deadly Night de 1974 é também um bom exemplo de filme de terror xunga mas só que já tem pouco ou nada a ver com o tema (apesar do título a isso levar). O Jack Frost (de Michael Coony, não o da Disney!!!) um entertaining flick hilariante onde um assassino é morto e o seu corpo juntamente com um ácido (!) fazem com que ele ressurja em forma de homem da neve assassino. O filme tem algumas linhas de diálogo de morrer a rir.
E assim ficam algumas sugestões para arruinar com o espírito amoroso da quadra. Eu quero lembrar os meus leitores que eu não sou efectivamente uma pessoa com disfunções mentais que coloca versos de Álvaro de Campos em balões de manga super-kawaii e links cor-de-rosa só para disfarçar o seu amor verdadeiro por gore B grade! Lol Ou será que...?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Have a happy retro, vintage and victorian Christmas ! :D







Sim, porque se não fosse a rainha Vitoria e o Charles Dickens não havia Natal para ninguém! ^_^;

Os cus de Judas - ALA

Agora que a LeYa publicou uma edição de bolso de Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, não há motivos para não ler esta obra de arte soberba da literatura portuguesa e universal. Deixo aqui um excerto e recomendo como prenda de natal económica! Ah... e outro dia vi na estão da Campanhã que a os livros de bolso da Leya estão a ser vendidos em máquinas automáticas... até já parecemos um país desenvolvido! :D Parece que os livros desta colecção serão lançados 3 vezes por ano: em Janeiro, Maio e Setembro... portanto, a ver o que vai calhar em termos de edição já para o próximo mês.




«Às quatro horas da manhã os espelhos são ainda suficientemente misericordiosos ou opacos para nos não devolverem o rosto amarrotado e encolhido das noites sem sono, que os olhos baços animam de desânimo pisco: o excesso de luz do aeroporto impedia-me de me confrontar nos vidros com a minha silhueta hesitante, inclinada como uma cana de pesca para o peixe gordo da mala, com a gravata que as muitas horas de avião haviam decerto desviado da bissectriz dos colarinhos, transformando-a num trapo mole como os relógios de Dali, com as rugas que se acumulavam em torno das pálpebras, à maneira dos vincos concêntricos de areia nos jardins japoneses; entre o homem que voltava sózinho da guerra à sua cidade e caminhava através de cachos de estrangeiros indiferentes, e nós que nos dirigimos para a saída do bar ao longo de um corredor de nucas e perfis cuja monótona diversidade os aproxima dos manequins da Baixa, petrificados em acenos imóveis de uma utilidade patética, há apenas a diferença insignificante de alguns mortos na picada, cadáveres que você não conheceu, as nucas e os perfis nunca viram, os estrangeiros do aeroporto ignoravam, e que, portanto, são inexistentes, inexistentes, percebe?, inexistentes, inexistentes como a sua ternura por mim, esse rápido sorriso sem afecto que quase não chega a nascer, a mão quieta que aceita com indiferença os meus dedos, a coxa inerte que a minha coxa ansiosamente prime. O seu corpo escapa-se-me como os membros se nos escapam com o sexto drunfo, independentemente de nós, flutuando gestos de polvo a que falta o arame de ossos, e por dentro da sua cabeça giram pensamentos indecifráveis de que me sinto expulso, condenado a permanecer, de pé e à espera, no capacho da entrada dos seus soslaios irónicos, à maneira, sabe como é, de uma lata de conservas de que não se tem a chave. Lembra-se dos pescadores de fim-de-semana da Muralha da Marginal, a estenderem toda a noite para o rio o anzolzinho obstinado e feliz? Pois bem, se você pousasse devagar a cabeça no meu ombro, se a sua anca friccionasse a minha até saltar, do encontro de ambas, a chama de sílex de uma erecção contente, se as suas pestanas humedecessem de súbito, ao fitarem-me, de consentimento e abandono, poderíamos talvez achar em nós o mesmo subterrâneo júbilo que a pele contém a custo, o mesmo denso prazer de expectativa e esperança, a mesma alegria que se alimenta de si própria como a manhã devora, nas suas pregas claras, o cintilante coração do dia. Poderíamos envelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos os vértices de um triângulo equilátero doméstico protegido pela sombra tutelar do abat-jour de folhas e de uma natureza morta de perdizes e maçãs, melancólica como o sorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um antídoto açucarado contra a conformação do reumático. Poderíamos friccionar-nos mutuamente os bicos de papagaio com bálsamo Menopausol, pingar em uníssono, no termo das refeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos domingos, depois do cinema, graças ao último beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abraços espasmódicos de recém-nascidos, a soprar pelas dentaduras postiças bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitado de costas no colchão ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de prevenir as guinadas da ciática, lembrar-me-ía do jovem saudável e ardente que há muitos anos fui, capaz de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro não era limitado pela cordilheira dos Andes de um electrocardiograma ameaçador, a regressar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas madrugadas de Novembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a lição de Matemática.»

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Melhores edições 2009


2009 foi um ano de muitas edições interessantes em PT, tanto de originais como de traduções de livros que já deviam ter sido traduzidos há mais tempo. Deixo aqui alguns bons exemplos... e os vencedores são:

2666 - Roberto Bolaño
O Mar em Casablanca - Francisco José Viegas
Caim - José Saramago
Escalpe - Amadeu Baptista
A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol - Haruki Murakami
Um grito de amor desde o centro do mundo - Kyoichi Katayama
Mil Grous - Yasunari Kawabata
A Hora do Lobo - Jiang Rong
Nocturnos - Kazuo Ishiguro
A Morte de Bunny Munro - Nick Cave
A Montanha Mágica - Thomas Mann
A Fábula - William Faulkner
Invisível - Paul Auster
A Terra das Ameixas Verdes - Herta Müller
Diário de luto - Rolland Barthes
Grimus - Salman Rushdie

E há ainda muita coisa que foi editada este ano com a qual não tive contacto mas que merece atenção...sugestões são bem-vindas!