sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

Xinran e os testemunhos da China do início de séc. XX



Xinran viajou pela China entre 2005 e 2006 à procura daqueles a quem chama de «avós» e «bisavós» no país: homens e mulheres que viveram, na primeira pessoa, as profundas mudanças da era moderna. Por cidades e aldeias remotas, Xinran falou com os membros dessa geração, entrevistando-os pela primeira e, talvez, última vez. Ainda que com medo de possíveis repercussões policiais, falaram com toda a delicadeza dos seus sonhos, medos, lutas e daquilo que testemunharam: o percurso da Revolução Cultural de Mao. Apesar do Ocidente olhar os últimos cem anos da China através de uma visão maioritariamente ligada à ascensão e poder de Mao Tse Tung (ou Mao Zi Dong), o mesmo período, para os chineses, é profundamente mais complexo.

«A riqueza desta obra está pois nas pessoas extraordinárias que por ele desfilam...»
Rui Bebiano, Revista LER


ISBN: 9789722519946
Número de Páginas: 496
Data da primeira Edição: 2009

Costumam-me perguntar o que é que eu acho dos livros sobre testemunhos do período revolucionário na China cujo espólio é já denso e complexo e como me interesso por literatura e pela China, aí está um tema com o qual me associam conhecedora e eu confesso que não tenho um conhecimento muito profundo deste tipo de literatura. E não é por desinteresse pelo estilo que pode soar panfletário mas que não o é forçosamente e também não é por desinteresse no período histórico da China até porque é um período ao qual não se pode estar alheio para se compreender seja o que for sobre a China contemporânea. E há autores com interesse como o caso de Xinran Xue. Chinesa expatriada que reside em Londres e que mantém colunas em jornais britânicos e é regularmente convidada para falar de relações internacionais em telejornais da BBC ou Skynews. Eu penso que o livro mais conhecido dela é o "Mulheres da China" cuja sinopse é
"Durante oito inesquecíveis anos, a jornalista Xinran apresentou na China um programa de rádio em que muitas mulheres falavam de si próprias e da sua vida. «Palavras na Brisa Nocturna», assim se chamava, rapidamente se tornou no mais famoso programa de rádio chinês. Nele se revelava o que significa ser mulher na China de hoje." e que continua com "Este é um livro que começa onde Cisnes Selvagens de Jung Chang terminou: a vida das mulheres chinesas depois de Mao."


Jun Chang também é outra referência. Bem, causa-me algum constrangimento a quantidade de livros de mulheres heróicas do período maoista que são todos os anos editadas, pois dá assim uma ideia de alimentar um fascínio ocidental pelo drama alheio e exótico cheio de clichés universais. Mas pronto, à parte disso, osTestemunhos da China, é um título curioso com um verdadeiro trabalho de pesquisa jornalístico levado a cabo pela chino-britânica Xinran. Só que parece que o que me repele principalmente destas obras são as traduções. São normalmente feitas em regime trilinguistico de chinês para inglês para português, editoras, não sejam forretas e comecem a empregar pessoas como eu, se fazem favor, para fazer traduções directas! Para além disso, pessoas como eu - que é só uma forma de falar, não é um vangloriar narcisista parvo, aliás alguém com mais formação que eu era preferível - isto é, pessoas que pudessem transpor as terminologias originais para a nossa mui nobre língua e que continuassem a deixar a leitura perceptível, se calhar dominando até com mais incidência terminologia política porque realmente há passagens do livro que não são muito acessíveis ao leitor português comum devido à ausência de contextualização histórica - talvez porque ela não está devidamente investigada no país e torna-se quase mítica, como se ninguém soubesse claramente o que se passou realmente e o seu único acesso ao conhecimento passasse por este tipo de ficção/semi-ficção/colectânea de relatos biográficos organizados por expatriados. O livro recomenda-se mas o português não é o melhor. Trabalhos de investigação talvez quando descentralizarmos devidamente os cânones e estas recém-licenciaturas em estudos asiáticos começarem a traduzir-se em produtos culturais finais de utilidade académica comum. 



domingo, 24 de janeiro de 2010

Ontem Estive no Inferno


João Negreiros

O jornalista da vossa beleza



Como sempre, e como não poderia deixar de ser em relação às produções do TUM, a angústia é sempre a mesma: um espectáculo demasiado grande para um auditório demasiado pequeno. Ou seja, como chamar de cultura underground nortenha aquilo que são simplesmente os melhores momentos de palco aos quais podemos assistir neste país à beira mar plantado que mais parece areia onde não se consegue semear nada que cresça saudável? A poesia estonteante, profusa e visceral de João Negreiros e as interpretações avassaladoras, trabalhadas até ao âmago de cada actor, sofridas (bem sei...) expostas a um público demasiado pequeno, demasiado insignificante. Tão demasiadamente insuficiente que às vezes até parece que passamos "tantos nanossegundos correndo desesperadamente para não sei bem onde/ fazer não sei bem o quê  com não sei quem  sozinho " (Queda Live)
Simplesmente demasiado bom, dói.


sábado, 23 de janeiro de 2010

Top10 - As mais bizarras mortes literárias

Ok... aviso desde já que este post é mórbido mas é incrível como alguns fins de vida são estupidamente bizarros ou quase uma manifestação última de uma obra de arte. 

#10 - Ambrose Bierce [1842-1914?] USA



Desaparecido no México enquanto fazia uma reportagem sobre a revolução mexicana comandada por Pancho Villa. Provavelmente assassinado.

"Life. A spiritual pickle preserving the body from decay . . ."



#09 - Leo Tolstoy [1828-1910] Rússia




Morreu congelado numa estação de comboios numa noite de Inverno.

"Our body is a machine for living. It is organized for that, it is its nature. Let life go on in it unhindered and let it defend itself, it will do more than if you paralyze it by encumbering it with remedies."




#08 - Virginia Woolf [1882-1941] Inglaterra




Encheu os bolsos com pedras e atirou-se para o rio Ouse em York.
“If we didn't live venturously, plucking the wild goat by the beard, and trembling over precipices, we should never be depressed, I've no doubt; but already should be faded, fatalistic and aged.”



#07 - Eurípides [480-406 B.C.] Grécia



Segundo a lenda,  Aequelau, rei da Macedónia, mandou uma série de cães para o comerem.
"But learn that to die is a debt we must all pay."




#06 - Sherwood Anderson [1876-1941]USA



Apanhou uma inflamação no abdómen depois de engolir uma lasca de madeira nos aperitivos de uma festa.
"Everyone in the world is Christ and they are all crucified."




#05 - Hart Crane [1899-1932]USA



Conhecido por ter dito "Good-bye everybody."enquanto caía no Mar do Caribe.
"... we have seen/The moon in lonely alleys make/A grail of laughter of an empty ash can . . ."


#04 - John Berryman [1914-1972] USA



Saltou para o rio do Mississippi; Há relatos de que acenou um adeus a uma pessoa que ia a passar enquanto caía.
"We must travel in the direction of our fear."


#03 - Edgar Allan Poe [1809-1849] USA



Muito mistério rodeia a morte de Poe, talvez se tenha embebedado até morrer,( a julgar pela conhecida vivência de intelectual boémio)  mas como é difícil explicar esta situação, especialistas consideram que talvez tenha morrido de intoxicação causada pelos candeeiros a óleo da altura que tinham propriedades tóxicas apuradas. O certo é que foi encontrado morto numa rua de Baltimore vestido com roupa que não era a sua, o que indicará homicídio. O mistério à volta da sua morte vale-lhe o 3º lugar.

"In an instant I seemed to rise from the ground. But I had no bodily, no visible, audible, or palpable presence."



#02 - Sergei Esenin [1895-1925] Rússia




Cortou os pulsos e escreveu dois últimos poemas com o próprio sangue "Do svidania drug moi"/"Adeus meu amigo".
"Don't waken the dream that is dying/Don't stir the aim that has failed./Life brought me too early to trial;/The loss, the defeat—what availed?"




#01 - Yukio Mishima [1925-1970] Japão


Cometeu seppuku (hara-kiri) após uma tentativa falhada de golpe de estado com Katana e traje samurai contra o governo por considerar que este estava a humilhar a nação perante a submissão aos americanos e por pretender uma definição mais tradicional de estado-nação.
"If we value so highly the dignity of life, how can we not also value the dignity of death? No death may be called futile."

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Lady Terminator

As The Cinema Snob discovers, Indonesia has found a way to combine the South Sea Queen with...James Cameron's "The Terminator"?

domingo, 10 de janeiro de 2010

Senhor Woody Allen

Eu disse que ia fazer uma análise cinematográfica não doentia! E aqui está ela. :)
Decidi escrever sobre o artista das duplicidades. A negra decadência tornada em sedutora comédia. A vida urbana em todo o seu esplendor e declínio como uma coisa só. A liberdade do desejo versus a limitação da moral. O elitismo sofisticado ou o diletantismo absurdo. Pessoas que se zangam a sério porque não se entendem com o enquadramento dos filmes de Bergman ou da obra de Beckett. Burgueses intelectuais, abarcando os dois tipos de elitismo sempre com uma perspectiva irónica bem patente - como em Small Time Crooks (2000).



Porque afinal o amor é como um terreno movediço e a infidelidade como uma sincera manifestação do ser e esses são os maiores dramas do mundo… Ou não? Que ele se tenha casado com a própria filha adoptiva, bom, afinal Nabokov não escreveu “Lolita” baseado no nada e cada um que corporize as suas repressões psicológicas como quiser (ou como a lei permitir?). Bom, não interessa! Eu pensei em fazer um top10 Woody Allen porque um top é uma forma de organizar ideias mas depois pensei que também era uma forma de reduzir ideias e torná-las sensacionalistas… portanto, a velha e boa redacção será a solução.




Penso que a filmografia do realizador tem muitas oscilações, poderosa comédia inteligente, genialidades no seu sentido pleno e até muitas banalidades e é normal oscilar-se quando já se produziu quase meia centena de filmes. O que é também curioso é que apesar da abundância de produção, as temáticas são sempre recorrentes de uma forma particularmente homogénea, definindo muito bem o campo das contribuições que ele tem para dar. As relações humanas e sentimentais é background infalível, o que muda ligeiramente são as abordagens. O formato pode, contudo, mudar pontualmente, estou a recordar-me, por exemplo, do hilariante e genial Zelig (1983) no formato de documentário fictício onde a ênfase na sátira histórica e política é mais apurada. Um género mais ou menos semelhante foi seguido em Sweet and Lowdown (1999) o filme independente que conta a história de um guitarrista chamado Emmet Ray interpretado por Sean Penn.Ou o músical Everyone says I love you (1996).
Ao ver a produção mais antiga e que todos os especialistas consideram mais “característica” do realizador apercebi-me que muito para além do aspecto cómico/absurdo das conexões humanas, uma coisa que realmente fica bem nos filmes do Woody Allen é explorado mais tardiamente, refiro-me ao factor grave e especificamente trágico. É por isso que não consigo desprender-me do meu amor infinito pelo Match Point (2005) e pelo Cassandra’s Dream (2007). Não são filmes “típicos” apenas porque não se resumem ao Woody Allen actor a interagir e a narrar, porque são filmes em que ele nem sequer entra e onde as personagens são mais jovens. Para mim, são o meu Top2.





São filmes onde a catarse é brutal. Eu acho que sempre que lemos análises à obra de Woody Allen os filmes mencionados são sempre os dos anos 70 e 80 mas isso é porque eu acho que essas análises são escritas por pessoas mais velhas do que eu, que conheceram Woody Allen nessa altura e isso deixou um impacto tal a ponto de não se conseguirem desprender dessas impressões mais iniciais para apreciar a obra mais recente. Mas para mim as suas obras-primas são filmes recentes.

Para além dos dois que já mencionei, o Vicky Cristina Barcelona (2008) e Anything Else (2003) são fabulosas intercepções de desejos, repressões e ímpetos num lirismo realista e natural. Isto não significa que eu não reconheço a genialidade dos clássicos.



Que melhor introdução ao espírito citadino algum realizador conseguirá de maneira tão graciosa transmitir como na abertura de Manhattan (1979) e quem não gostaria que as coisas fossem como no Annie Hall (1977) com o Marshall McLhuan a dar uma lição àquele pedante chato? (ou será que meter o Mashall McLhuan ao barulho é que é pedante?) Apesar de tudo há filmes recentes que também não trouxeram nada de novo, como o Scoop ou o mais recente filme Whatever Works (2009). São aqueles filmes apenas ligeiramente engraçados. E enfim, muito mais há a dizer sobre a sua obra, é uma análise interessante de se fazer  de forma até académica. Concluo deixando as minhas favorite quotes do realizador/escritor/actor/saxofonista:



  • Eternal nothingness is fine if you happen to be dressed for it.

  • I don't want to achieve immortality through my work; I want to achieve immortality through not dying.

  • In Beverly Hills...they don't throw their garbage away. They make it into television shows.

  • I can't listen to that much Wagner. I start getting the urge to conquer Poland.

  • Tradition is the illusion of permanance.

  • I took a speed reading course and read 'War and Peace' in twenty minutes. It involves Russia.

  • If only God would give me some clear sign! Like making a large deposit in my name in a Swiss bank.

  • It seemed the world was divided into good and bad people. The good ones slept better... while the bad ones seemed to enjoy the waking hours much more.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Dr. StrangeGaga








 Lady Gaga no clip "Papparazi" numa clara referência ao clássico satírico de Kubrick, Dr. Strangelove. É por estas e por outras que a Lady Gaga é o meu guilty pleasure. lol Gosto desta faceta irónica e acho que ela a devia explorar mais.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

Inícios de livros marcantes


"It was a bright cold day in April, and the clocks were striking thirteen." 1984, George Orwell

"Sou um homem doente... Sou um homem malévolo. Sou um homem repugnante. Acredito que o meu fígado tem uma doença. No entanto, nada sei sobre a minha doença, nem sei ao certo aquilo que me molesta. Não consultei nenhum médico por causa disso, nunca o fiz, embora respeite a medicina e os médicos." Cadernos do Subterrâneo, Fiodor Dostoievsky

"He—for there could be no doubt of his sex, though the fashion of the time did something to disguise it—was in the act of slicing at the head of a Moor which swung from the rafters." Orlando, Virgina Woolf

"O sol mostra-se num dos cantos superiores do rectângulo, o que se encontra à esquerda de quem olha, representando, o astro-rei, uma cabeça de homem donde jorram raios de luz e sinuosas labaredas, tal uma rosa-dos-ventos indecisa sobre a direcção dos lugares para onde quer apontar, e essa cabeça tem um rosto que chora, crispado de uma dor que não remite..."O Evangelho Segundo Jesus Cristo, José Saramago

"We were somewhere around Barstow on the edge of the desert when the drugs began to take hold. I remember saying something like 'I feel a bit lightheaded; maybe you should drive . . .' And suddenly there was a terrible roar all around us and the sky was full of what looked like huge bats, all swooping and screeching and diving around the car, which was going about a hundred miles an hour with the top down to Las Vegas. And a voice was screaming, 'Holy Jesus! What are these goddamn animals?'" Fear and loathing in Las Vegas, Hunter S. Thompson

"Yes, Sir. Certainly, it was I who found the body. This morning, as usual, I went to cut my daily quota of cedars, when I found the body in a grove in a hollow in the mountains." Rashomon - Ryūnosuke Akutagawa

E, claro, como não poderia deixar de ser...
"Quando Gregor Samsa despertou numa manhã na sua cama de sonhos inquietos, viu-se metamorfoseado num monstruoso insecto " A Metamorfose, Franz Kafka

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

O Conflito, Chomsky e 5 para a Meia Noite



Estava há pouco a ler o PDF disponibilizado no blog da LER com a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Barreto, cientista social, cronista e figura política do nosso país – pelo menos até ao momento, já que por pouco não se naturalizava suíço. António Barreto fala com sabedoria da obsessão doentia pela imagem e da falta de silêncio para o pensamento num mundo onde tudo se quer instantâneo. Mas atentemos ao título chamativo «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.» Não consigo evitar a voz interior que sugere “cá vamos nós outra vez”. Um rol de males que andam por aí a assombrar a juventude: as internetes, a tecnologia, o digital. Ocorreu-me o Miguel de Sousa Tavares a considerar o facebook o maior mal do século XXI no “cinco para a Meia Noite” do outro dia.
São considerações sobre os males da geração que nunca está correcta sobretudo quando é nova porque uma vez que é nova, isso significa que não é aquela que se considera como a de pertença porque pertencer é ser parte e é-se sempre mais correcto quando se é parte. A nova tem que criar necessariamente contrastes. É normal! Chama-se “conflito geracional” e não tem nada de pomposo. Aliás, é saudável! O conflito geracional é uma marca de dinamismo e expansão. A maior parte dos conflitos são saudáveis e então os geracionais é que o são realmente e quase não existem em Portugal. Quase não existem linguisticamente – que avó é que não sabe o que significa “fixe” e “bué”? Enquanto há realidades linguísticas em que o calão juvenil constitui por si só uma linguagem independente onde jovens e terceira idade não se entendem por um abismo de vocabulário – Inglaterra, França - essa sim é uma expressão bem mais imediata do conflito, a manifestação patente nas próprias palavras. Não estou a dizer que assim o deve ser, estou só a constatar. Muitos conceitos são ocos, muitas expressões são desagradáveis, mas na realidade o que ocorre é a transfiguração necessária e natural da linguagem que acompanha a transfiguração do mundo. Então eu disse que a voz interior me dizia “Cá vamos nós outra vez” mas isso é mentira, o que me veio realmente à cabeça foi “here we go again”. Veio assim, tal e qual. Então tive um pensamento em inglês para comigo mesma? Mas o inglês é a minha língua materna? Não. Nós pensamos em língua estrangeira? Sim, quando estamos a estabelecer um processo de comunicação nessa língua. Mas eu estou a estabelecer algum processo de comunicação quando penso comigo mesma? Não. What the hell is going on? Chomsky defendia que todos nós nascemos com uma “gramática universal”, ou seja, temos à priori uma disponibilidade biológica para preencher o nosso entendimento do universo com uma única língua. Toda a aquisição linguística posterior é, para Chomsky, uma aprendizagem que se edifica em redor da língua nativa, ou seja, uma permanente tradução. Mas será que a gramática universal não está realmente disponível para uma segunda língua quando não há a intervenção da interlíngua? Isto é, quando sinto necessidade de manifestar uma reacção a um estímulo onde a minha relação com a minha língua nativa já não me parece suficiente ou até mesmo quando adquiro formas de percepcionar a realidade com uma codificação nova que antes não era característica da minha experiência social? Bem, há aqui tópico para muita discussão, percepções socioculturais sobre a própria língua, o maior ou menor imperialismo cultural das nações, etc etc. Mas para não parecer que este texto não tem objectivo nenhum, é melhor focalizar-me: eu não encontro na minha realidade social o conflito suficiente e isso faz com os meus sistemas psíquicos recorram a uma abordagem estrangeira perante uma manifestação do mais biologicamente humano que pode haver: um pensamento. Isto explica a necessidade do inglês como afirmação de uma cultura jovem que em Portugal está esmagada entre a Praça da Alegria e as tunas universitárias.Mais conflito, obrigada. Mas deixem a internet em paz que as leituras online fazem-me imensa falta.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Pedro Mexia, Misoginia e Mamas



É tão engraçada esta ideia de que certos intelectuais e sensíveis poetas podem escrever e cogitar sobre tudo o que consideram de mais sublime e elevado do pensamento humano nos seus blogs e depois escrever posts nos quais elogiam preciosidades da ficção nacional como Morangos com Açucar cuja qualidade intrínseca da representação se equipara a bosta de cavalo só pelo simples facto de essas preciosidades serem mulheres e terem mamas e rabos riginhos e, claro, tirarem a roupa para qualquer fotografo. Não as censuro a elas (são actrizes de merda, têm que se vender de alguma maneira e usam o que têm ou o que arranjaram), mas censuro esta tentativa de tornar o comentário de trolha em algo aceite no meio intelectual. Sim, porque em vez de “és mesmo boa, tens aí umas mamocas bem jeitosas” eles ainda tentam dizer coisas como as deste exemplo do Pedro Mexia no seu novo blog "A Lei Seca" “Cláudia é a mulher true blue, que desarma pela simplicidade e ausência de pretensão." ou ""Aquele binómio cintura/glúteos está a ser estudado por Peter Zumthor para uma severa conferência em Basileia. "  Epá, o que tu queres dizer é que a papavas toda, já se percebeu a ideia… Eu gostaria de saber em que parte da sua imensa lucidez intelectual enquadra a perpetuação do modelo machista da mulher como um objecto sexual que se reduz ao seu físico e que, portanto, deve estar sujeita a tais apreciações enquanto um homem não tem necessariamente que atravessar qualquer processo ou corresponder a quaisquer critérios físicos até porque os homens estão ocupados a produzir algo de extremamente intelectual e engraçado e podem ficar gordos como pipos à vontade se isso os ajuda a escrever poemas melhores. Eu até acho que cada vez menos existem este tipo de blogs que volta e meia entre uma citação de Jorge Luis Borges e uma apreciação de um filme de Andrei Tarkovski colocam umas fotos da FHM, mas este Pedro Mexia quer mesmo ver se ninguém se esquece de ser parolo de uma maneira fina.

sábado, 26 de dezembro de 2009

Pai Natal from hell

Ainda que para muitas pessoas o Natal seja uma altura de ir à missa com regularidade (missa das 7h da véspera de Natal, missa do galo, missa da manhã de 25) há outras pessoas que aproveitam o tempo de férias para ficar em casa a ver filmes parvos. E nessa linha de ideias fica a minha apreciação a filmes natalícios – e não, não é um Sozinho em Casa - é mais tentar encontrar os filmes que tiveram a genial ideia de substituir o Santa Claus por um assustador e brutal assassino.

Tipo Gremlins, aquele filme que sai no Natal e que se vai ver em família para se descobrir que a coisinha fofa e peluda se tornou num incendiário pronto a arrancar a cabeça ao ser mais próximo. Parecendo que não, há muita coisa a explorar dentro desta temática de filmes de terror low-budget que decidiram revoltar-se contra a alegria geral da época das prendas e dos doces. Filmes como You better watch out de 1980 que mostra que o trauma de infância de descobrir que o Pai Natal não existe pode ter muitas consequências. Uma delas é tentar determinar pelas próprias mãos quem é ou não um menino bem comportado e acabar por matar violentamente os que não o forem, envergando as vestes de Santa Claus. Outro exemplo é Black Christmas de 1974 que conta a história de um assassino que anda por Montreal a matar pessoas à toa durante a altura do Natal, anunciando-se com chamadas telefónicas obscenas. É considerado o primeiro filme realmente slasher antes do primeiro Halloween de John Carpenter.

To All A Good Night também de 1980 é um filme que prova que a praxe é uma coisa má, como eu sempre defendi! Isto porque uma jovem morta durante um ritual de iniciação acaba por se tornar num espírito assassino sob a forma de Pai Natal que acaba por estragar uma festa de adolescentes. Esta ideia de Pai Natal assassino está também presente em Don’t Open ‘Till Christmas, british exploitation ao seu mais alto nível de estupidez, com gajas nuas que é uma coisa que interessa.. a homens… ou fufas, e portanto uma boa dose de sexismo e representações extremamente manhosas à mistura. Passando para os anos 90, para quem está dentro da cena de cinema de série B canadiano e conhece a Debbie Rochon de certeza que conhece o Santa Claws, o filme no qual o protagonista depois de matar a mulher e o amante que vestia um capuz de Pai Natal quando os encontrou a ter sexo, tornou-se ele próprio o assassíno-Pai Natal obcecado por uma actriz de filmes de terror.

O Silent Night, Deadly Night de 1974 é também um bom exemplo de filme de terror xunga mas só que já tem pouco ou nada a ver com o tema (apesar do título a isso levar). O Jack Frost (de Michael Coony, não o da Disney!!!) um entertaining flick hilariante onde um assassino é morto e o seu corpo juntamente com um ácido (!) fazem com que ele ressurja em forma de homem da neve assassino. O filme tem algumas linhas de diálogo de morrer a rir.
E assim ficam algumas sugestões para arruinar com o espírito amoroso da quadra. Eu quero lembrar os meus leitores que eu não sou efectivamente uma pessoa com disfunções mentais que coloca versos de Álvaro de Campos em balões de manga super-kawaii e links cor-de-rosa só para disfarçar o seu amor verdadeiro por gore B grade! Lol Ou será que...?

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Have a happy retro, vintage and victorian Christmas ! :D







Sim, porque se não fosse a rainha Vitoria e o Charles Dickens não havia Natal para ninguém! ^_^;

Os cus de Judas - ALA

Agora que a LeYa publicou uma edição de bolso de Os Cus de Judas de António Lobo Antunes, não há motivos para não ler esta obra de arte soberba da literatura portuguesa e universal. Deixo aqui um excerto e recomendo como prenda de natal económica! Ah... e outro dia vi na estão da Campanhã que a os livros de bolso da Leya estão a ser vendidos em máquinas automáticas... até já parecemos um país desenvolvido! :D Parece que os livros desta colecção serão lançados 3 vezes por ano: em Janeiro, Maio e Setembro... portanto, a ver o que vai calhar em termos de edição já para o próximo mês.




«Às quatro horas da manhã os espelhos são ainda suficientemente misericordiosos ou opacos para nos não devolverem o rosto amarrotado e encolhido das noites sem sono, que os olhos baços animam de desânimo pisco: o excesso de luz do aeroporto impedia-me de me confrontar nos vidros com a minha silhueta hesitante, inclinada como uma cana de pesca para o peixe gordo da mala, com a gravata que as muitas horas de avião haviam decerto desviado da bissectriz dos colarinhos, transformando-a num trapo mole como os relógios de Dali, com as rugas que se acumulavam em torno das pálpebras, à maneira dos vincos concêntricos de areia nos jardins japoneses; entre o homem que voltava sózinho da guerra à sua cidade e caminhava através de cachos de estrangeiros indiferentes, e nós que nos dirigimos para a saída do bar ao longo de um corredor de nucas e perfis cuja monótona diversidade os aproxima dos manequins da Baixa, petrificados em acenos imóveis de uma utilidade patética, há apenas a diferença insignificante de alguns mortos na picada, cadáveres que você não conheceu, as nucas e os perfis nunca viram, os estrangeiros do aeroporto ignoravam, e que, portanto, são inexistentes, inexistentes, percebe?, inexistentes, inexistentes como a sua ternura por mim, esse rápido sorriso sem afecto que quase não chega a nascer, a mão quieta que aceita com indiferença os meus dedos, a coxa inerte que a minha coxa ansiosamente prime. O seu corpo escapa-se-me como os membros se nos escapam com o sexto drunfo, independentemente de nós, flutuando gestos de polvo a que falta o arame de ossos, e por dentro da sua cabeça giram pensamentos indecifráveis de que me sinto expulso, condenado a permanecer, de pé e à espera, no capacho da entrada dos seus soslaios irónicos, à maneira, sabe como é, de uma lata de conservas de que não se tem a chave. Lembra-se dos pescadores de fim-de-semana da Muralha da Marginal, a estenderem toda a noite para o rio o anzolzinho obstinado e feliz? Pois bem, se você pousasse devagar a cabeça no meu ombro, se a sua anca friccionasse a minha até saltar, do encontro de ambas, a chama de sílex de uma erecção contente, se as suas pestanas humedecessem de súbito, ao fitarem-me, de consentimento e abandono, poderíamos talvez achar em nós o mesmo subterrâneo júbilo que a pele contém a custo, o mesmo denso prazer de expectativa e esperança, a mesma alegria que se alimenta de si própria como a manhã devora, nas suas pregas claras, o cintilante coração do dia. Poderíamos envelhecer perto um do outro e da televisão da sala, com a qual constituiríamos os vértices de um triângulo equilátero doméstico protegido pela sombra tutelar do abat-jour de folhas e de uma natureza morta de perdizes e maçãs, melancólica como o sorriso de um cego, e encontrar na garrafa de Drambuie do aparador um antídoto açucarado contra a conformação do reumático. Poderíamos friccionar-nos mutuamente os bicos de papagaio com bálsamo Menopausol, pingar em uníssono, no termo das refeições, as mesmas gotas para a tensão, e aos domingos, depois do cinema, graças ao último beijo do filme indiano do Avis, unirmo-nos em abraços espasmódicos de recém-nascidos, a soprar pelas dentaduras postiças bronquites aflitas de chaleira. E eu, deitado de costas no colchão ortopédico reduzido a uma tábua dura de faquir a fim de prevenir as guinadas da ciática, lembrar-me-ía do jovem saudável e ardente que há muitos anos fui, capaz de repetir sem azia o frango na púcara, para quem o horizonte do futuro não era limitado pela cordilheira dos Andes de um electrocardiograma ameaçador, a regressar da guerra de África para conhecer a filha, numa dessas madrugadas de Novembro tristes como a chuva num pátio de colégio, durante a lição de Matemática.»

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Melhores edições 2009


2009 foi um ano de muitas edições interessantes em PT, tanto de originais como de traduções de livros que já deviam ter sido traduzidos há mais tempo. Deixo aqui alguns bons exemplos... e os vencedores são:

2666 - Roberto Bolaño
O Mar em Casablanca - Francisco José Viegas
Caim - José Saramago
Escalpe - Amadeu Baptista
A Sul da Fronteira, A Oeste do Sol - Haruki Murakami
Um grito de amor desde o centro do mundo - Kyoichi Katayama
Mil Grous - Yasunari Kawabata
A Hora do Lobo - Jiang Rong
Nocturnos - Kazuo Ishiguro
A Morte de Bunny Munro - Nick Cave
A Montanha Mágica - Thomas Mann
A Fábula - William Faulkner
Invisível - Paul Auster
A Terra das Ameixas Verdes - Herta Müller
Diário de luto - Rolland Barthes
Grimus - Salman Rushdie

E há ainda muita coisa que foi editada este ano com a qual não tive contacto mas que merece atenção...sugestões são bem-vindas!

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

District 9

O Nostalgia Critic é o melhor amigo do AVGN (se não souberem quem ele é, tenham vergonha) e ele consegue dar expressão a pensamentos tão profundos como os desta review do filme District 9

sábado, 14 de novembro de 2009

Mother - Joon-Ho Bong


Gosto muito de Joon-Ho Bong (봉준호) como actor mas especialmente como realizador. Faz parte daquela linha de realizadores asiáticos com produção de qualidade que não é, de todo, mainstream mas que não é absolutamente impermeável à compreensão, sem muitos efeitos de obscurantismo de sentido para simular efeitos artísticos, que às vezes irritam um bocado sobretudo em alguns realizadores sul-coreanos que de tanto se quererem distanciar das comédias românticas tão populares no país, que acabam por fazer um oposto extremista. O último filme do realizador, “Madeo/Mother”, afasta-se da componente de acção do “The Host” e cai em aspectos mais realistas que relembram mais filmes como “Memories of a Murder” ou “플란다스의 개/Barking Dogs Never Bite”, o primeiro devido à recriação do ambiente rural e o segundo devido à exploração dos estados de espírito e de mente dos seus intervenientes. Embora cada um dos seus filmes sejam peças de arte distintas. Poderia classificar este filme como um thriller emocional de uma mãe em busca do culpado de um crime que é atribuído ao seu filho deficiente. Um conjunto de dúvidas circulam ao longo do filme onde as certezas do espectador são absorvidas pela empatia com a mãe que se revela também ela problemática a uma determinada altura. Mais um filme fabuloso de um dos maiores realizadores da actualidade e com uma interpretação simplesmente avassaladora de Hye-ja Kim (김혜자).

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

“Invisível”

Sinopse: Sinuosamente construído em quatro partes entrecruzadas, o décimo quinto romance de Paul Auster começa em Nova Iorque, na Primavera de 1967, quando o jovem aspirante a poeta Adam Walker conhece Rudolf e Margot, um enigmático casal francês. O perverso triângulo amoroso que rapidamente se forma, conduz a um chocante e inesperado acto de violência cujas consequências serão irreversíveis.

Três narradores contam uma história que se desloca no tempo, de 1967 a 2007, e no espaço, à medida que viaja entre Nova Iorque, Paris e uma ilha remota nas Caraíbas. Invisível está imbuído de fúria, de sexualidade desenfreada e de uma busca implacável por justiça. É uma viagem através das fronteiras sombrias entre verdade e memória, criação e identidade.


  Opinião:
O novo livro do escritor norte-americano tem sido aclamado pela crítica (ou pelo marketing) como um dos melhores ou o melhor de sempre escrito pelo autor. Para quem se familiarizou, no entanto, com a sua escrita no registo policial, este livro pode soar mais emotivo e intimista. E será que o autor tem tanto talento para este registo? Pois, na minha perspectiva, não tanto. Primeiro porque não consegue distanciar-se de nenhuma personagem que cria, todas as personagens são ele próprio ou fracções de si próprio e quando não são ele próprio são uma idealização daquilo que ele próprio gostaria de ser. Confuso?! Talvez mas é essa a sensação mais transversal do livro. Como o autor envereda por caminhos intimistas onde é necessário compreender os meandros do pensamento de cada personagem acaba por retirar às personagens um carácter mais naturalista, pois todas pensam como Paul Auster e agem como Paul Auster e é um universo que pertence unicamente ao escritor. Era bom que toda a gente no mundo fosse assim tão intelectual... É curiosa a relação de Gwen com Adam a marcar um claro ponto de fashionable sex nos best-sellers de ultimamente: o sexo incestuoso. Mas quando Paul Auster cai para um temperamento mais romântico, cai para um temperamento bem mais sexual do que o previsto, suponho. Um bocado de sexo, um bocado de diletantismo intelectual e voila! As suas descrições das personagens e do espaço que lembram Fitzgerald ou Hemingway continuam a registar o que de melhores influências tem o autor, mas os espaços em aberto na história, as questões que residem no ar, quem é ou não culpado e quem sai impune numa reflexão dostoiévskiana são sem dúvida os melhores aspectos do livro. A narrativa ou as questões ligadas à meta-narrativa também dão um toque original, dá para construir uma manta de retalhos mental. A ideia em termos de 'arquitectura' da narração é engraçada embora, na realidade, o autor podia ter-se esforçado mais para conseguir o efeito desejado. Para quem não leu o livro é difícil de compreender mas basicamente há um segundo autor dentro do livro que é ele próprio uma personagem que acaba por juntar vários segmentos do livro do primeiro escritor e no final de uma terceira autora para construir a narrativa. De um capítulo para o outro o primeiro autor quis contar a sua história mudando a pessoa da narração. A primeira na primeira pessoa, a segunda na segunda, a terceira na terceira. Acontece que fazer isto ou ter deixado a narração sempre na primeira pessoa era exactamente a mesma coisa porque não há um esforço para que a mudança de pessoa também distancie a narração da personagem, é sempre um narrador omnisciente e quando temos uma descrição na terceira pessoa que faz perguntas retóricas de dilemas como se tivesse dentro do pensamento da personagem, torna-se um mero jogo de formalismo que não acrescenta muito ao livro. A parte final com os registos no diário de Cécile são para mim um dos momentos mais interessantes do livro acabando com uma reflexão brutal sobre o colonialismo. Enfim, um livro que entretém e vale a pena ler mas deixa saudade de estilos mais antigos como em A Triologia de Nova Iorque.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Celebração do terror II: Zé do Caixão



Night of the living dead é um filme de terror independente filmado a preto e branco (por opção) de George Romero de 1968 é considerado um dos filmes de inauguração do terror e do gore como o conhecemos hoje, muito polémico e mediatizado devido ao seu conteúdo explícito que de facto, é muito explícito e macabro. Apesar de não ser o primeiro filme de Zombies é pelo menos um dos principais responsáveis pelo arquétipo de zombie na cultura popular e ainda tem uma série de críticas políticas ao período. Mas! E agora é que vem o ponto onde eu quero chegar, - já antes deste filme considerado tão pioneiro, já no Brasil tinham criado uma personagem de terror bem icónica de trash cinema absolutamente assombrosa e cujo conteúdo pioneiro ainda não é totalmente reconhecido... Refiro-me aos filmes de José Mojica Marins, e à sua personagem Zé do Caixão.








Á meia noite levarei a sua alma (1963) Esta noite encarnarei no teu cadáver (1967) Ritual dos Sádicos (1970)

Uma bruxa com uma caveira na mão começa por dizer para não ver este filme. O índice começa por agradecer a agências funerárias. O objectivo do Zé do Caixão é encontrar uma mulher que ele possa engravidar para poder dar sucessão ao seu demónio. A sua mulher não consegue engravidar e ele acredita que a namorada do seu melhor amigo é a mulher ideal para o efeito. Violada por Zé do Caixão, a rapariga quer cometer suicídio para regressar ao mundo dos mortos e levar a alma expurgada daquele que a violou. Durante a noite, Zé tem um pesadelo: a Morte leva-o a um cemitério, onde cadáveres saem das tumbas e o puxam para o inferno. Corredores de gelo, onde homens e mulheres ensanguentados são permanentemente torturados por carrascos do rei das trevas.
Zé do Caixão é sem dúvida um personagem de extrema crueldade onde os momentos de gore são bastante criativos e macabros. Com uma vincada tendência anti-cristo, há uma cena em que ele se põe a comer carne humana à janela enquanto vê a procissão cristã passar num dia santo. A sua catarse é feita através de um monólogo teatral e dramático onde o Zé desafia os poderes de Deus e a sua existência, tentando provar que só o Diabo existe. A trilogia prossegue com Esta noite encarnarei o teu cadáver.


Os filmes são a preto e branco à excepção do momento em que ele vai para o Inferno, única cena colorida no filme e podemos ver uma representação do inferno que consiste em vários órgãos e partes de corpos ensanguentadas coladas às paredes e tecto e que se movimentam ainda com vida.
Já no terceiro filme um psiquiatra injecta doses de LSD em quatro voluntários com o objectivo de estudar os efeitos do tóxico sob a influência da imagem de Zé do Caixão. O personagem aparece de maneira diferente nos delírios psicadélicos e multicoloridos de cada um, misturando sexo, perversão, sadismo e misoginia.
No site oficial é possível ver a biografia do Zé do Caixão, entre outras curiosidades.
Mais um exemplo de terror de outros tempos neste caso através de um clássico bem bizarro de exploitation do Brasil!

Aqui o site oficial do Zé do Caixão

Aqui um excerto da visão do inferno em Esta Noite Encarnarei no Teu Cadáver

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Celebração do terror

Ok, nesta semana em que se aproxima o Halloween, vou deixar aqui no blog umas referências a cinema de terror de culto à moda antiga! Aqui ficam estas belas imagens que espero eu que tenham ou possam vir a provocar boas noites de intensos pesadelos.
O Gabinete do Dr. Caligari de 1920 de Robert Wiene é um exemplo do terror de outros tempos. Dr. Caligari, um famoso hipnotizador e o seu acompanhante sonâmbulo supostamente adormecido há 23 anos, predizem profecias que são cumpridas. Um filme imbuído na estética do expressionismo alemão, onde cada objecto material está sujeito a uma metamorfose que não é mais do que uma recriação da realidade, os delimitadores da realidade como paredes, portas ou janelas são deformados para tornar o ambiente num autêntico background de um pesadelo. Uma ideia que foi deixada muito de lado pelas tendências de mimética da realidade do cinema futuro e deixada apenas para algumas coisas muito experimentais. Acho que é uma pena porque podemos ter interpretações naturalistas e cenários oníricos, não me parecem coisas assim tão contraditórias e conseguem causar mesmo uma perturbação, um terror lírico. Uma verdadeira obra de arte.


 Um dos filmes mais terroríficos de sempre é o Nosferatu de 1922 de Friedrich Wilhelm Murnaum mais precisamente o Nosferatu, eine Symphonie des Grauens. É o filme que dá origem à noção de um dos maiores ícones do horror dos nossos tempos, o vampiro. Mas de facto não é um vampiro qualquer, este é o Drácula que Bram Stocker já tinha escrito em 1879, sendo portanto este o responsável pela criação da personagem. O livro que nos é dado a conhecer através das persongans que o escrevem é um dos clássicos mais geniais da história da literatura universal. Bram Stoker coloca o jovem Jonathan Harker nas funções de solicitador que tem que se desloca ao sombrio castelo de Vlades Tepes III, o Empalador, um aristocrata da Transilvânia cujo espírito tão cultivado demonstrava um aspecto obscuro na crueldade e sadismo pelo qual era conhecido. Por uma questão de direitos de autor, Murnau acaba por dar ao seu personagem central o nome de Orlok. É um filme brilhante em todos os aspectos que se ligam ao campo do suspense e do terrorífico, o ambiente e a atmosfera recriados são tão intensos que não importa se o filme é ou não mudo, pois tudo no filme parece ser o cenário de um macabro pesadelo.

A sombra a subir pelas escadas ou o vampiro que surge por detrás da porta triangular são imagens que não se esquecem. Werner Herzog fez uma adaptação do filme em 1979, Nosferatu: Phantom der Nacht, é também uma boa aposta para uma sessão bem medonha.



Suspiria de Dario Argento, 1977. Este também é um filme que incomoda bastante e eu penso que isso se deve à forma como o realizador pega na mise-en-scene e a transforma num jogo psicológico em forma de quadro visual. Eu que sou a defensora da importância da representação, como é que posso considerar que um filme onde a maior parte do elenco é francamente mau (como todos esses séries B com pretensões de giallo) como admitir que no fundo este é um bom filme? Precisamente pela criatividade visual e pelas opções da sonoplastia. A banda sonora é realmente muito boa e a construção das personagens não é má de todo, só é bastante mal representada sobretudo na primeira metade do filme. Enfim, análises técnicas à parte, é um filme assustador como o caraças, o grande momento da primeira rapariga morta pendurada pelo tecto, o momento em que a personagem cega é devorada pelo cão no meio da praça de Berlim (suposta metáfora ao nazismo) e o final que parece saído dos meandros de um pesadelo quando a americana por fim se encontra com a bruxa. É um filme que nitidamente influenciou posteriores barroquismos no tratamento visual de filmes como os de Tim Burton, etc. Mas acima de tudo são retalhos de horror que ficam a flutuar no inconsciente e voltam numa noite solitária de tempestade. :D
 The Evil Dead Trilogy é um clássico de Sam Raimi, que celebrizou Bruce Campbell como um protagonista-exemplo daquilo que é um bom momento de horror. De horror e de gore, ou seja, violência representada graficamente. É um dos filmes que trouxe muito ao actual cinema americano de terror, nomeadamente na utilização sábia do susto e no enquadramento do suspense. É um típico huis clos (ou em inglês um No Exit) onde as personagens vão passar férias numa cabana isolada no meio do mato. No primeiro filme, quando o grupo de americanos descobre um velho gravador de som que relata as experiências do antigo proprietário da casa e as suas visões de terror ao ver os demónios possuírem a mulher, remete-me para o recente “Rec” de Jaume Balagueró e Paco Plaza, quando os protagonistas encontram uma gravação semelhante no sotão do edifício onde ficaram presos devido a uma infestação se zombies. Uma referência que eu acredito ser uma homenagem dos realizadores.
Em Evil Dead, quando as pessoas ficam possuídas temos uma das mais macabras caracterizações de horror da história do cinema, uma visão autêntica de um corpo em decomposição ambulante. Também é o primeiro filme e possivelmente dos únicos onde uma mulher é violada por uma árvore. Portanto, também há aqui grande material e grande potencial horrorífico.

Aguardem pois ainda vem mais! (Pelo menos se eu tiver tempo para escever...:P)