Estava há pouco a ler o PDF disponibilizado no blog da LER com a entrevista de Carlos Vaz Marques a António Barreto, cientista social, cronista e figura política do nosso país – pelo menos até ao momento, já que por pouco não se naturalizava suíço. António Barreto fala com sabedoria da obsessão doentia pela imagem e da falta de silêncio para o pensamento num mundo onde tudo se quer instantâneo. Mas atentemos ao título chamativo «O Magalhães é o maior assassino da leitura em Portugal.» Não consigo evitar a voz interior que sugere “cá vamos nós outra vez”. Um rol de males que andam por aí a assombrar a juventude: as internetes, a tecnologia, o digital. Ocorreu-me o Miguel de Sousa Tavares a considerar o facebook o maior mal do século XXI no “cinco para a Meia Noite” do outro dia.
São considerações sobre os males da geração que nunca está correcta sobretudo quando é nova porque uma vez que é nova, isso significa que não é aquela que se considera como a de pertença porque pertencer é ser parte e é-se sempre mais correcto quando se é parte. A nova tem que criar necessariamente contrastes. É normal! Chama-se “conflito geracional” e não tem nada de pomposo. Aliás, é saudável! O conflito geracional é uma marca de dinamismo e expansão. A maior parte dos conflitos são saudáveis e então os geracionais é que o são realmente e quase não existem em Portugal. Quase não existem linguisticamente – que avó é que não sabe o que significa “fixe” e “bué”? Enquanto há realidades linguísticas em que o calão juvenil constitui por si só uma linguagem independente onde jovens e terceira idade não se entendem por um abismo de vocabulário – Inglaterra, França - essa sim é uma expressão bem mais imediata do conflito, a manifestação patente nas próprias palavras. Não estou a dizer que assim o deve ser, estou só a constatar. Muitos conceitos são ocos, muitas expressões são desagradáveis, mas na realidade o que ocorre é a transfiguração necessária e natural da linguagem que acompanha a transfiguração do mundo. Então eu disse que a voz interior me dizia “Cá vamos nós outra vez” mas isso é mentira, o que me veio realmente à cabeça foi “here we go again”. Veio assim, tal e qual. Então tive um pensamento em inglês para comigo mesma? Mas o inglês é a minha língua materna? Não. Nós pensamos em língua estrangeira? Sim, quando estamos a estabelecer um processo de comunicação nessa língua. Mas eu estou a estabelecer algum processo de comunicação quando penso comigo mesma? Não. What the hell is going on? Chomsky defendia que todos nós nascemos com uma “gramática universal”, ou seja, temos à priori uma disponibilidade biológica para preencher o nosso entendimento do universo com uma única língua. Toda a aquisição linguística posterior é, para Chomsky, uma aprendizagem que se edifica em redor da língua nativa, ou seja, uma permanente tradução. Mas será que a gramática universal não está realmente disponível para uma segunda língua quando não há a intervenção da interlíngua? Isto é, quando sinto necessidade de manifestar uma reacção a um estímulo onde a minha relação com a minha língua nativa já não me parece suficiente ou até mesmo quando adquiro formas de percepcionar a realidade com uma codificação nova que antes não era característica da minha experiência social? Bem, há aqui tópico para muita discussão, percepções socioculturais sobre a própria língua, o maior ou menor imperialismo cultural das nações, etc etc. Mas para não parecer que este texto não tem objectivo nenhum, é melhor focalizar-me: eu não encontro na minha realidade social o conflito suficiente e isso faz com os meus sistemas psíquicos recorram a uma abordagem estrangeira perante uma manifestação do mais biologicamente humano que pode haver: um pensamento. Isto explica a necessidade do inglês como afirmação de uma cultura jovem que em Portugal está esmagada entre a Praça da Alegria e as tunas universitárias.Mais conflito, obrigada. Mas deixem a internet em paz que as leituras online fazem-me imensa falta.
















